VÔLEI

A voz de impacto de André Heller na propagação da formação esportiva

Membro da época dourada do esporte, ex-central assume papel de interlocutor da formação esportiva e defende aprendizado contínuo como essência do processo. Campeão olímpico, ex-central prega cuidado na comparação entre gerações

Em Campinas, no palco do CBC & Clubes Expo, o campeão olímpico André Heller se destacou não pelas funções antes exercidas na quadra, mas pela capacidade de, com o microfone, ser elo de reverberação de conhecimento e transformação -  (crédito: Divulgação/CBC)
Em Campinas, no palco do CBC & Clubes Expo, o campeão olímpico André Heller se destacou não pelas funções antes exercidas na quadra, mas pela capacidade de, com o microfone, ser elo de reverberação de conhecimento e transformação - (crédito: Divulgação/CBC)

Campinas (SP) — A voz em evidência frente a um público concentrado já não pede bola, não organiza bloqueio, não vibra por um ponto decisivo. Agora, o timbre com sotaque gaúcho conduz ideias, conecta histórias e organiza pensamentos em prol do futuro do esporte nacional. Em Campinas, no palco do CBC & Clubes Expo, o campeão olímpico André Heller se destacou não pelas funções antes exercidas na quadra, mas pela capacidade de, com o microfone, ser elo de reverberação de conhecimento e transformação. Não por acaso, a desenvolta atuação como mestre de cerimônias carrega a mesma essência responsável por levá-lo ao topo no vôlei: disciplina e sede insaciável por aprendizado.

Durante os quatro dias do fórum organizado pelo Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), o medalhista olímpico de ouro em Atenas-2004 e de prata em Pequim-2008 guiou o público entre painéis, debates e reflexões. Muito além de um mestre de cerimônias, atuou como conexão fina entre diferentes mundos: o da experiência prática e o da evolução do modelo esportivo no país. Se no passado o protagonismo vinha do gesto técnico, hoje nasce da palavra. A comunicação, no entanto, não surgiu como dom imediato. Diferentemente do talento esportivo lapidado ainda jovem, para superar limitações impostas por um quadro de asma, a desenvoltura verbal foi construída com estudo e prática.

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"O que sempre foi natural, e essa identificação aconteceu logo cedo na minha carreira, foi entender que eu tinha uma grande capacidade de aprendizado. Mas não só porque eu tenho uma capacidade cognitiva ou intelectual. Isso podemos traduzir como vontade. Eu sou um eterno aprendiz", ressaltou, em entrevista concedida ao Correio em meio à intensa rotina do evento em Campinas. "Quando entendi que a comunicação me abriria portas e que eu iria construir oportunidades estudando seriamente sobre isso, eu fiz todas as formações e fui para o mercado me testar", lembrou o ex-atleta, hoje graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e Neurocoaching.

André não se vê como um comunicador nato, mas sustenta a atuação fora das quadras com a mesma filosofia aplicada nos tempos de atleta. "Eu não sei se tenho essa desenvoltura, mas eu sei que gosto de aprender. E eu me divirto, porque acho que essa é uma abordagem que aproxima as pessoas. Eu não me entendo como um superatleta, por mais que tenha medalha olímpica. Mas o que todos esses atletas fizeram não foi porque eram super-heróis. Na verdade, eles focaram e acreditaram no processo. É nisso que eu foco. E esse processo é pleno de aprendizado", afirmou.

Heller encerrou a vitoriosa carreira de 24 anos nas quadras em 2014. Três anos depois, chegou ao CBC, inicialmente sem dimensão completa do alcance do trabalho. De lá para cá, acompanhou de perto o crescimento de uma engrenagem estruturada em governança, descentralização de recursos e fortalecimento dos clubes, pontos evidenciados ao longo do fórum em Campinas. "Isso é a consolidação de um movimento, posso até dizer revolucionário, que o CBC vem fazendo no setor clubístico, com foco total na formação de atletas", citou o ex-jogador, hoje membro do colegiado do comitê. "A gente coloca processos e responsabilidade na mesma caixinha. O resultado disso é governança. E o CBC é referência nisso", destacou.

A fala ultrapassa a análise institucional. Também traduz a própria trajetória e se conecta com outra bandeira defendida com convicção pelo ex-central: a educação aliada ao esporte. Ao longo da carreira e dos estudos posteriores, a percepção ganhou profundidade, hoje compartilhada também no Programa de Iniciação Esportiva Voleibol André Heller. "Eu dizia que o esporte era uma ferramenta de educação. Hoje, eu digo que o esporte é educação", cravou. A diferença, embora sutil na forma, é estrutural no conteúdo. Para ele, a prática esportiva ensina muito além da técnica: forma caráter, constrói valores e prepara para a vida.

Dentro e fora das quadras, o aprendizado se manifesta de forma contínua. "Na prática esportiva, em qualquer nível, o atleta aprende disciplina, resiliência, trabalho em equipe e também a lidar com a frustração. Aprende a construir vitórias e a compreender derrotas. O legado é o aprendizado. A medalha é o símbolo disso", reforçou. Em tempos de estímulos rápidos e telas constantes, o recado ganha ainda mais peso. Para ele, não basta incentivar: é preciso viver. "Os pais precisam colocar os filhos no esporte. Mas também precisam fazer. Porque uma coisa é falar, outra é o filho ver você praticando", pontuou.

Desafio geracional

Durante a carreira, André Heller fez parte da geração de ouro do vôlei brasileiro, responsável por amplificar o esporte no país com conquistas e protagonismo. Esse passado, no entanto, impõe pressão ao presente. O ex-central evita comparações apressadas com os atuais protagonistas da modalidade e da Seleção. Para ele, a nova geração enfrenta um desafio silencioso: construir o próprio caminho sob a sombra de uma história vencedora. "O passado do vôlei é maravilhoso, especial, mas é injusto com as gerações atuais. Aquilo que foi feito antes não significa que será repetido no presente", ponderou.

Na visão do ex-central, até a permanência de técnicos históricos — como Bernardinho, mentor das duas medalhas olímpicas conquistadas por André — precisa ser analisada dentro de contexto. "São outros atletas e competições. Podem até ser os mesmos técnicos, mas com outra mentalidade. Então, a comparação entre gerações é sempre injusta", salientou, antes de aplicar a própria experiência à prática do cenário atual. "A minha geração, por exemplo, só começou a ganhar a partir de 2001 (Liga Mundial e Copa dos Campeões). Antes disso, foram muitos anos sem títulos, mas que construíram o caminho", observou.

A leitura é direta: o esporte precisa reaprender a valorizar cada etapa. "Eu vejo de maneira muito positiva a geração atual. Ela está em um processo de construção. O problema é que temos uma cultura esportiva que só pensa na medalha, no primeiro lugar. Isso é pouco inteligente, pouco eficiente. Porque, no final das contas, o que transforma a gente é o processo. O que eu estou dizendo é quase uma utopia de mudar essa cultura, mas é possível. É necessário ter esperança", disse.

Entre o talento nas quadras e a desenvoltura ao microfone, André Heller segue em movimento, agora guiado menos pela bola e mais pelas ideias. Se antes construía vitórias com ataques e bloqueios, hoje ajuda a desenhar caminhos com palavras, reflexão e experiência. A essência permanece: acreditar no processo, valorizar o aprendizado e entender o esporte como ferramenta de transformação. No fim, pouco importa o palco. O jogo continua, apenas com novas formas de ser disputado.

Cinco perguntas para...

André Heller, campeão olímpico de vôlei em Atenas-2004

Como começou sua relação com o CBC e qual a importância de eventos como o fórum em Campinas?
Eu tenho uma relação muito estreita com o CBC desde 2017, quando recebi o convite para compor o colegiado de direção. E, desde lá, tenho participado de praticamente todos os eventos. O CBC, através da descentralização dos recursos, faz uso de vários eixos: desde equipamentos esportivos, passando por recursos humanos, equipes multidisciplinares, os Campeonatos Brasileiros Interclubes (CBIs). Já temos a capacitação de profissionais. São quatro dias de evento. Contatos acontecem, muito aprendizado, conhecimento, muitas dúvidas são sanadas.

O networking é valioso?

Nós trazemos grandes personalidades, grandes nomes do esporte, mas também fora dele, de outras áreas de atuação, que ajudam muito para que os clubes e nós nos capacitemos. Não tem como dissociar uma cultura orientada aos resultados da cultura de aprendizagem. E o esporte respira isso. Então, é muito bacana. Isso aqui é uma feira na qual todos deveriam ter essa experiência. E eu tenho a honra de estar em cima do palco, fazendo o papel de mestre de cerimônias. Fui painelista. Eu me sinto muito privilegiado de poder participar de tudo isso.

Como soube que sua experiência poderia contribuir com o CBC?

Eu não tinha muito conhecimento sobre o trabalho e arrisco dizer que o comitê também não tinha sobre minha atuação paralela. Eu trabalho há mais de 12 anos no ambiente corporativo. Eu tive uma experiência muito rica na gestão esportiva, comissão de atletas. Minhas primeiras formações, lá naquela época, foram em relação à gestão aplicada ao esporte. E foi um encontro muito bacana. E, desde o primeiro dia, fiquei muito impressionado com os processos, com a responsabilidade.

Essa é a principal diretriz do CBC?

A governança que o CBC tem é referência. E não sou eu que estou falando. A Controladoria-Geral da União (CGU) ficou um tempo auditando o CBC e o resultado da auditoria foi só recomendação para propagar o trabalho, a excelência com a qual o CBC trabalha. Inclusive, em função de trabalhar com recurso público, precisa de muita responsabilidade. O CBC tem essa capacidade, tem essa expertise. E faz parte do movimento mostrar para os clubes que essa excelência na governança tem que ser um parâmetro do setor esportivo.

Brasília vive um momento de capital do vôlei, com torneios em massa de praia e quadra. Quais os benefícios desse fenômeno?

É fundamental você ter as modalidades na cidade. Uma vai se destacar mais, outra menos, mas o esporte tem uma capilaridade gigantesca. Onde ele estiver, dependendo da modalidade e da localidade, isso é muito positivo. É muito bom que isso esteja acontecendo por aí.

*O repórter viajou a convite do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC)

 


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DQ
postado em 01/05/2026 06:00
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