
A repetição de convocados entre uma Copa do Mundo e outra não chega a ser algo tão incomum assim. No Mundial de 2026, por exemplo, a Seleção Brasileira terá 15 nomes presentes também na edição de 2022. No entanto, uma posição específica atravessará o ciclo de quatro anos intacta e carregando bons presságios históricos. Pela segunda vez na trajetória do torneio da Fifa, o Brasil será representado exatamente pelo mesmo trio de goleiros da disputa anterior. Assim como no Catar, Alisson, Ederson e Weverton defenderão a meta verde e amarela na busca pelo hexacampeonato. O feito repete algo visto apenas na era do bicampeonato mundial de 1958 e 1962.
Naquele período, o futebol brasileiro ainda consolidava a fama de país do futebol. E os goleiros tiveram influência importante no nascimento desse status mundial. Em 1958, na campanha do primeiro título da Seleção Brasileira, na Suécia, o técnico Vicente Feola convocou Gilmar e Castilho para a posição. Titular absoluto nas seis partidas da conquista, Gilmar virou símbolo da segurança defensiva brasileira no torneio. Quatro anos depois, no Chile, o arqueiro voltou a ser escolhido ao lado de Castilho pelo técnico Aymoré Moreira para protagonizar o bicampeonato mundial.
Nas Copas seguintes, porém, a continuidade deixou de existir. Em 1966, Gilmar ainda permaneceu no grupo, mas já acompanhado por novos companheiros. No tricampeonato de 1970, no México, a Seleção teve Félix, Ado e Emerson Leão. Apenas Leão ganhou nova oportunidade em 1974. A partir dali, a rotatividade passou a virar marca registrada da posição na equipe nacional.
No tetra de 1994, por exemplo, Taffarel era remanescente da Copa anterior, mas acompanhado por Zetti e Gilmar Rinaldi, nomes diferentes dos parceiros Acácio e Zé Carlos, presentes em 1990. Em 2002, ano do pentacampeonato e do último título mundial brasileiro, o trio voltou a mudar. Marcos e Rogério Ceni disputaram o torneio pela primeira vez, enquanto Dida apareceu como herança da campanha de 1998.
Já em 2006, Júlio César assumiu protagonismo e impediu novamente qualquer repetição integral. O goleiro revelado pelo Flamengo seguiu nos Mundiais de 2010 e 2014, mas sempre cercado por novos companheiros na posição. Em 2018, na Rússia, surgiu o primeiro ensaio da manutenção atual. Alisson e Ederson participaram juntos da Copa pela primeira vez, acompanhados de Cássio.
No Catar, em 2022, Alisson e Ederson permaneceram no grupo e ganharam a companhia de Weverton. Até a reta final do atual ciclo de 2026, a repetição do feito de 1958 e 1962 ainda parecia improvável. Enquanto os dois primeiros carregavam consolidação absoluta dentro da Seleção Brasileira, Weverton havia perdido espaço recentemente no radar da comissão técnica. A disputa pela terceira vaga parecia aberta principalmente para Bento e Hugo Souza.
O cenário mudou justamente nas semanas finais antes da convocação definitiva. A oscilação de Bento e a falta de afirmação de Hugo Souza recolocaram Weverton na disputa de maneira inesperada. Experiente e acostumado ao ambiente de grandes competições, o atual goleiro do Grêmio acabou “furando a fila” e garantindo novamente espaço na lista final divulgada por Carlo Ancelotti no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
“Algumas posições, como a dos goleiros, temos privilegiado um pouco mais a experiência neste nível. Por isso também chamamos o Weverton, porque jogadores de experiência, que não precisamos testar, não temos testado”, justificou o treinador italiano. “Sabemos o valor e o poder da competição, porque eles estão acostumados com essa sensação”, acrescentou.
A manutenção do trio ajuda também a traduzir uma das características mais sólidas do atual ciclo da Seleção Brasileira: a estabilidade construída justamente no setor mais sensível do campo. Enquanto laterais, meio-campistas e atacantes atravessaram mudanças frequentes ao longo dos últimos quatro anos, o gol permaneceu como território de confiança absoluta para diferentes treinadores. Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti preservaram a espinha dorsal da posição praticamente intacta até a Copa.
O simbolismo histórico ainda amplia o peso da coincidência. As campanhas mais vitoriosas da Seleção Brasileira em Mundiais sempre caminharam lado a lado com a consolidação de grandes goleiros. Gilmar virou peça central no bicampeonato. Taffarel eternizou-se no tetra. Marcos protagonizou defesas decisivas no penta. Agora, Alisson, Ederson e Weverton chegam aos Estados Unidos, ao México e ao Canadá tentando transformar a rara continuidade em um novo presságio favorável para o sonho do hexacampeonato.
Os goleiros das Copas
1930: Joel e Velloso
1934: Germano e Roberto Gomes Pedrosa
1938: Walter e Batatais
1950: Barbosa e Castilho
1954: Castilho, Veludo e Cabeção
1958: Castilho e Gilmar
1962: Castilho e Gilmar
1966: Gilmar e Manga
1970: Félix, Ado e Emerson Leão
1974: Emerson Leão, Renato e Waldir Peres
1978: Emerson Leão, Carlos e Waldir Peres
1982: Waldir Peres, Paulo Sérgio e Carlos
1986: Carlos, Paulo Victor e Emerson Leão
1990: Taffarel, Acácio e Zé Carlos
1994: Taffarel, Zetti e Gilmar Rinaldi
1998: Taffarel, Carlos Germano e Dida
2002: Marcos, Dida e Rogério Ceni
2006: Dida, Rogério Ceni e Júlio César
2010: Júlio César, Gomes e Doni
2014: Júlio César, Jefferson e Victor
2018: Alisson, Ederson e Cássio
2022: Alisson, Ederson e Weverton
2026: Alisson, Ederson e Weverton
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