
Bruno Guimarães precisou de apenas oito partidas para convencer Tite a levá-lo para a Copa do Mundo de 2022, no Catar. Também não demorou a cair no gosto do sucessor, Carlo Ancelotti. O volante tem lugar cativo na caça ao hexa na América do Norte, seja no 4-4-2, ao lado de Casemiro, ou no 4-3-3, com a inclusão de Lucas Paquetá. A maior prova da confiança está nas convocações. Bruno esteve presente em cinco das seis listas do treinador italiano e só não gabaritou a sequência, porque uma lesão o tirou dos amistosos de março contra França e Croácia.
O carioca de 28 anos vestirá a camisa 8 na Copa do Mundo. Há simbolismo nisso. Foi justamente com esse número que Dunga ergueu a taça do tetracampeonato nos Estados Unidos, em 1994. Bruno não será o capitão — a braçadeira pertence a Marquinhos —, mas exerce papel semelhante dentro de campo. Ao lado de Casemiro, protege a defesa, coordena a pressão na saída de bola adversária e dá equilíbrio a uma equipe desenhada para potencializar os talentos ofensivos.
A influência é tanta que, no primeiro encontro com o grupo, durante a Data Fifa de junho de 2025, Ancelotti perguntou ao volante como ele se sentia mais confortável para jogar. Hoje, Bruno prefere atuar pelo lado direito do meio-campo. Não é um volante de imposição física, mas executa com precisão o trabalho invisível que sustenta o sistema. Evita aventuras desnecessárias, cobre espaços e ajuda a explicar por que é avaliado em 70 milhões de euros pela plataforma Transfermarkt. O valor faz dele o oitavo meio-campista mais valioso do mundo e o 26º jogador mais caro da badalada Premier League.
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A confiança depositada por Ancelotti também pode ser medida em números. Bruno Guimarães é o segundo jogador mais utilizado pelo treinador italiano, com 10 partidas disputadas, uma a menos do que Casemiro. A liderança, porém, aparece quando o recorte é ampliado para todo o ciclo rumo à Copa do Mundo de 2026. Nenhum atleta vestiu mais vezes a camisa da Seleção no período: foram 33 presenças em 37 jogos, um indicativo claro da importância do volante na construção da equipe que tentará recolocar o Brasil no topo do futebol mundial.
Os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro se arrependem de tê-lo dispensado na infância. As portas fechadas pelos grandes clubes cariocas não foram suficientes para fazê-lo desistir. Filho do taxista Dick, Bruno cresceu em uma família acostumada ao trabalho duro e aos sacrifícios em nome do futebol. O pai atravessava o Rio de Janeiro entre corridas, treinos e avaliações, enquanto o volante acumulava reprovações que, hoje, parecem difíceis de explicar.
A gratidão virou símbolo na carreira. Durante boa parte da trajetória, Bruno escolheu vestir a camisa 39 em homenagem ao táxi que ajudou a sustentar a família e financiou os primeiros passos rumo ao sonho de ser jogador profissional. O Audax Rio e, posteriormente, o braço em Osasco (SP) enxergaram potencial onde outros viram dúvida. Depois, vieram Athletico-PR, Lyon e Newcastle.
Bruno também simboliza um capítulo raro da história recente da Seleção. Ao lado de Matheus Cunha, é um dos remanescentes da conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. Curiosamente, aquele segue sendo o último título do Brasil. Desde então, a Amarelinha acumulou frustrações na Copa do Mundo do Catar e nas edições de 2021 e 2024 da Copa América. O jejum alimenta o pessimismo de parte da torcida, mas não abala a confiança do volante.
"Numa Copa do Mundo, só o talento não é suficiente. Você tem que se defender com os 11 e atacar na hora que tiver de atacar. É muito coração, é acreditar até o final. A Argentina não era favorita na última Copa e ganhou", argumentou o meio-campista durante entrevista coletiva.
A convicção faz sentido para quem construiu a carreira superando obstáculos. Reprovado pelos grandes clubes do Rio de Janeiro na infância, Bruno aprendeu cedo que favoritismo nem sempre decide histórias. Agora, chega à segunda Copa do Mundo da carreira como uma das lideranças de um grupo que tenta encerrar o maior jejum de títulos mundiais da Seleção desde a conquista do tetra em 1994.
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Lucas Paquetá
A mais bela tabela da Seleção Brasileira na última Copa do Mundo passou pelos pés de Lucas Paquetá. Na prorrogação das quartas de final contra a Croácia, o camisa 7 encontrou Neymar entre os defensores adversários e participou da jogada que parecia abrir o caminho para o hexa. O roteiro terminou em frustração, mas o lance ajudou a resumir uma das principais virtudes do meia. Poucos jogadores do elenco à disposição de Ancelotti entendem tão bem o momento de acelerar, associar-se aos companheiros e aparecer entre linhas.
Quatro anos depois, Paquetá desembarca na América do Norte em cenário diferente. O período foi marcado pelas investigações envolvendo apostas esportivas, pela pressão fora das quatro linhas e pela necessidade de reencontrar prazer em jogar futebol. Deixar o West Ham e retornar ao Flamengo o ajudou a aliviar o peso dos últimos meses e a recuperar a confiança. Aos 28 anos, chega à segunda Copa do Mundo da carreira como uma alternativa capaz de mudar o comportamento da equipe.
Há possibilidade de ele ser titular com Ancelotti, sobretudo se o treinador optar pelo 4-3-3 com a faixa central mais preenchida. Tem leitura para ocupar espaços entre meio-campo e ataque, qualidade para pressionar a saída de bola adversária e capacidade de criar superioridade numérica com poucos toques. Se Bruno Guimarães representa o equilíbrio e Casemiro a proteção defensiva, Paquetá é o volante capaz de dar fluidez e imaginação ao jogo brasileiro. Não por acaso, continua sendo uma das peças mais diferentes à disposição do treinador italiano.
Danilo
Sete gols em 17 rodadas do Campeonato Brasileiro. Doze bolas na rede no total em 28 jogos na temporada. A produção ofensiva sugere um atacante, mas os números pertencem a um volante. A explicação está na origem de Danilo Santos. Antes de ganhar notoriedade no Botafogo e vestir a camisa da Seleção Brasileira, o baiano de Salvador atuava como ponta e fazia do drible uma das principais virtudes. O tempo transformou o atacante em meio-campista, mas não apagou o instinto de chegar à área adversária.
Lapidado nas categorias de base do Palmeiras, Danilo trocou o futebol brasileiro pela Premier League ao ser vendido para o Nottingham Forest. Depois de uma passagem de aprendizado na Inglaterra, retornou ao país para defender o Botafogo e rapidamente recuperou o protagonismo. Aos 25 anos, desembarca na primeira Copa do Mundo da carreira como uma alternativa diferente para Carlo Ancelotti. Embora inicie o torneio atrás de Bruno Guimarães, Casemiro e Lucas Paquetá na hierarquia do meio-campo, oferece características raras no elenco.
Tem condução de bola acima da média para a posição, capacidade de quebrar linhas em velocidade e presença ofensiva constante. Não é o volante encarregado apenas de proteger a defesa. Danilo aparece como um elemento surpresa capaz de acelerar transições, infiltrar na área e contribuir com gols em momentos decisivos. Uma boa Copa pode, inclusive, recolocá-lo definitivamente na rota dos grandes negócios do mercado europeu.
Éderson
Éderson, talvez, tenha sido o convocado que percorreu o caminho mais improvável até a Copa do Mundo. Quando recebeu a notícia de que substituiria o lesionado Wesley, estava em Mato Grosso do Sul. O passaporte permanecia no Rio de Janeiro. Um amigo precisou correr até São Paulo com o documento enquanto a esposa organizava malas e providenciava tudo o que fosse necessário para a viagem. Em poucas horas, o volante trocou a rotina de férias pela missão de integrar a delegação brasileira nos Estados Unidos.
A convocação de última hora não foi motivada apenas pela necessidade de preencher uma vaga. Carlo Ancelotti enxergou no jogador uma solução capaz de ampliar as possibilidades do elenco. Depois de quatro temporadas na Atalanta e uma na Salernitana, Éderson desembarca na Copa com o selo de qualidade do futebol italiano. Revelado pelo Desportivo Brasil, com passagens por Cruzeiro, Corinthians e Fortaleza, consolidou-se na Europa como um meio-campista moderno, dono de vigor físico, qualidade técnica e versatilidade para cumprir diferentes funções.
Embora tenha sido chamado após a lesão de um lateral-direito, a comissão técnica não buscava necessariamente um substituto para a posição. Éderson pode atuar como primeiro ou segundo volante, além de ocupar o corredor direito em funções híbridas. A chegada dele aumenta as alternativas para o meio-campo, setor que passa a contar com seis jogadores. Caso Ancelotti opte pelo 4-3-3, o grupo ganha praticamente uma opção de reposição para cada função do setor.

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