As mulheres têm ocupado cada vez mais espaços no futebol, seja dentro de campo, na cobertura esportiva ou nas arquibancadas. Um dos exemplos é o projeto "Elas MVA", comando feminino do Movimento Verde Amarelo (MVA), principal torcida organizada da Seleção Brasileira, que busca incentivar a participação feminina nos estádios e combater o preconceito que ainda persiste em existir na arquibancada.
Muito mais do que torcer, para mulheres estar presente no futebol é reafirmar o pertencimento histórico de um espaço que sempre foi delas. Fernanda Zaguis, head de planejamento, gestão e drodução do movimento, conta ao Correio que a paixão pelo esporte surgiu ainda na infância, influenciada pela família.
“Na minha casa a gente sempre se reunia para assistir esportes. Meu pai era muito são-paulino, minha mãe acompanhava futebol e minha avó também adorava. Assistimos vôlei, Jogos Olímpicos, tudo juntos. Essa paixão veio da família”, afirma.
Fernanda conta que a aproximação com o MVA aconteceu durante a pandemia, na época dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. Convidada por amigos para participar de transmissões ao vivo durante as madrugadas de competição, a torcedora passou a integrar o grupo e, desde então, tornou-se uma das lideranças do projeto.
O Elas MVA nasceu durante a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, quando um grupo de torcedoras decidiu se unir para acompanhar os jogos com mais segurança durante a viagem. A iniciativa cresceu e hoje reúne mais de 400 mulheres em grupos de WhatsApp e mais de 8 mil seguidores nas redes sociais.
Segundo Fernanda, o principal objetivo é criar um ambiente onde mulheres possam viver o futebol sem julgamentos. “É um espaço onde a mulher pode comentar sobre o que quiser. Pode falar da regra do jogo, perguntar sobre impedimento, comentar a atuação dos jogadores ou simplesmente torcer. O importante é que ela se sinta acolhida”, cita.
Além da integração entre torcedoras, o grupo atua no combate ao machismo e ao assédio. O movimento mantém cursos de prevenção, canais de denúncia e políticas rígidas contra comportamentos discriminatórios.
“Não toleramos nenhum tipo de assédio ou machismo. Se identificamos esse tipo de comportamento, tomamos providências imediatamente. É um assunto muito sério para nós”, destaca.
O desafio de mulheres no futebol e o preconceito
Apesar dos avanços na participação das mulheres no esporte, o preconceito contra o futebol feminino ainda é uma realidade frequente. Fernanda relata que comentários depreciativos aparecem constantemente nas publicações do projeto sobre a modalidade.
“Quando falamos de futebol feminino, sempre aparecem comentários negativos. Muitas vezes as críticas são motivadas apenas pelo fato de serem mulheres jogando”, lamenta.
Ela cita como exemplo as críticas direcionadas à atacante Marta, considerada uma das maiores atletas da história do futebol. “Criamos uma política de tolerância zero para comentários machistas. Quando acontece, respondemos e mostramos por que esse tipo de postura não pode ser normalizado.”
Copa do Mundo Feminina de 2027 e a expectativa
Com a realização da Copa do Mundo Feminina no Brasil em 2027, o movimento já começou a planejar ações para incentivar a presença do público nos estádios. Para Fernanda, o torneio representa uma oportunidade histórica de fortalecer o futebol feminino e mostrar ao mundo a paixão dos brasileiros pelo esporte.
“Meu objetivo é ver todos os estádios lotados. Precisamos mostrar que o futebol feminino também faz parte da nossa cultura e merece o mesmo apoio. Temos a oportunidade de fazer a maior Copa do Mundo que o mundo já viu”, frisa.
A torcedora também acredita que a competição pode ajudar a derrubar preconceitos e ampliar o interesse do público pela modalidade. “Futebol é futebol. As pessoas não podem perder a oportunidade de assistir aos jogos por preconceito. É uma experiência única.” afirma.
Pertencimento e representatividade
Para as integrantes do Elas MVA, ocupar as arquibancadas vai além de torcer pela Seleção Brasileira. O grupo busca fortalecer o sentimento de pertencimento e mostrar que mulheres têm papel ativo dentro das torcidas organizadas.
“Não estamos ali apenas para assistir. Ajudamos na organização, carregamos materiais, participamos da bateria, puxamos os cantos da torcida. As mulheres têm participação fundamental dentro do movimento”, explica Fernanda.
Fernanda deixou uma mensagem para aquelas que ainda têm receio de frequentar estádios. “Nunca aceite que alguém diga que determinado espaço não é para você. O futebol faz parte da cultura brasileira e as mulheres têm todo o direito de viver essa paixão. Venha uma vez e experimente. Tenho certeza de que vai querer voltar.”
*Estagiária sob supervisão de Aline Gouveia
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