
A primeira palavra de Victor Roser não foi "mãe" nem "pai", mas "carro". A curiosidade, contada pela família, talvez seja a forma mais simples de explicar uma paixão que começou muito antes de ele compreender o que era o automobilismo. Nascido no Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 2011, o garoto tem hoje 15 anos e três nacionalidades — brasileira, portuguesa e americana —, além de uma trajetória que acaba de ganhar registro literário. Em O menino das tempestades — O garoto que transformou luto em combustível, a psicanalista Maria Roser, mãe do piloto, narra a história do filho para além da velocidade e dos troféus.
Publicado pela Insígnia Editorial, o livro apresenta uma trajetória marcada pela paixão pelo automobilismo, pela superação de desafios emocionais e pela determinação de um jovem que aprendeu, ainda cedo, que vencer exige muito mais do que cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. A obra retrata a infância de Victor, a perda precoce do pai — ocorrida quando ele tinha apenas quatro anos —, os desafios emocionais e as experiências vividas até suas primeiras conquistas nas pistas.
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O automobilismo entrou na vida de Victor aos 12 anos, quando acelerou um kart pela primeira vez. O que começou como a realização de um desejo logo se tornou um compromisso sério com o esporte. Conhecido pela postura madura e pela dedicação, ele passou a construir sua trajetória, avançando do kart para outras categorias. Aos 13 anos, iniciou as competições, e desde as primeiras participações os pódios tornaram-se presença constante: bicampeonato do GP CRT, título de campeão carioca de kart e vice-campeonatos estadual e municipal. Uma de suas vitórias mais marcantes aconteceu sob chuva intensa, quando conquistou seu segundo título no GP CRT — resultado que evidencia sensibilidade, precisão e capacidade de antecipar as reações do carro.
Enfrentando limites e medo
No livro, o automobilismo aparece como muito mais do que uma competição de velocidade. Entre vitórias, derrotas, acidentes e recomeços, Victor aprendeu a lidar com a frustração, reconhecer os próprios limites e enfrentar o medo. A experiência nas pistas também contribuiu para o desenvolvimento de sua disciplina e responsabilidade, características que marcaram seu amadurecimento.
Um dos aspectos mais delicados dessa jornada está na ausência paterna. Ao observar outros jovens pilotos acompanhados pelos pais nos boxes, nas conversas antes das corridas e nas comemorações, Victor também se deparava com a saudade de uma presença que gostaria de ter ao seu lado. Assim, o ambiente que alimentava seus sonhos também o colocava diante de uma das perdas mais significativas de sua vida — a morte do pai, quando ele tinha 4 anos, em 2015. Diante dessa ausência, na equipe de competição CRT, o jovem encontrou no treinador e no chefe de equipe uma referência fundamental, tanto no âmbito profissional quanto afetivo.
Sob o olhar de Maria, a história revela como o esporte pode contribuir para a formação emocional de um jovem, sem apagar as dores que fazem parte de sua trajetória. A autora acompanha um processo no qual a determinação convive com a cobrança excessiva — tanto em relação a si mesmo quanto aos outros — e no qual amadurecer significa aprender a lidar com as próprias emoções e com as imperfeições do caminho. "Ele não se satisfaz simplesmente em ser rápido. Tem uma busca quase obsessiva pelo aperfeiçoamento", conta a mãe, que descreve a relação do filho com o próprio desempenho: para Victor, uma curva bem executada não significa necessariamente uma curva que não possa ser melhorada.
Realidade financeira
Outro desafio importante retratado na obra é a realidade financeira do automobilismo. Para seguir competindo e avançar profissionalmente, o talento, por si só, nem sempre é suficiente. Patrocínios, equipamentos competitivos, equipes qualificadas e treinos constantes fazem diferença no desempenho e nas oportunidades de um piloto. A dificuldade de reunir essas condições torna a busca por espaço ainda mais desafiadora e, muitas vezes, frustrante. É nesse contexto que O menino das tempestades amplia seu olhar para além das pistas: a obra aborda a persistência necessária para continuar acreditando em um sonho mesmo quando os obstáculos parecem maiores do que as possibilidades.
A trajetória esportiva de Victor também ganhou contornos promissores recentemente. Em 2026, ele começou a transição do kart para os carros de competição, realizando treinos com veículos de turismo e monopostos. Em sua primeira participação numa etapa da Fórmula 1600, no Brasil, surpreendeu ao conquistar o segundo lugar logo na estreia — resultado que ganhou ainda mais significado por representar sua adaptação a uma modalidade bastante diferente do kart, com novas exigências de pilotagem, comportamento do carro e leitura de corrida.
Atualmente, Victor vive em Portugal, onde concilia os estudos com a preparação para competir no automobilismo europeu, em um ambiente que reúne algumas das principais categorias de formação de pilotos. A falta de patrocínios que viabilizem uma temporada completa, porém, ainda limita suas possibilidades: participar de etapas isoladas permite adquirir experiência, mas disputar um campeonato inteiro oferece algo fundamental para a formação de um piloto — regularidade, evolução técnica, conhecimento dos circuitos e a oportunidade de competir por títulos em condições de maior continuidade.
Um convite ao leitor
Mais do que contar a história de um jovem que deseja ser piloto profissional, Maria Roser apresenta uma reflexão sobre luto, resiliência, amadurecimento e a importância do apoio familiar na construção de um caminho próprio. A obra aborda os bastidores de um sonho e aquilo que raramente aparece nas fotografias dos pódios: as renúncias, as dificuldades, os medos e o amadurecimento de um jovem atleta. Com sensibilidade, o livro convida o leitor a olhar para as tempestades que cada pessoa enfrenta longe dos holofotes. Afinal, algumas das corridas mais difíceis não acontecem nos circuitos, mas dentro de nós mesmos — e seguir em frente pode ser a vitória mais importante.
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