No ano de 1953, quando o Brasil ainda sentia as dores da amarga derrota em casa em plena final de Copa do Mundo em 1950, o chamado Maracanazo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje CBF, decidiu se livrar de tudo o que remetesse à derrota para o Uruguai, incluindo a camisa branca usada pela seleção até aquele momento. Por isso, determinou que a partir dali, o Brasil teria um novo uniforme.
Com a derrota, o CBD e o diário Correio da Manhã lançaram um concurso nacional para escolher o novo traje da seleção. Dentre os modelos recebidos, o esboço ganhador foi de um gaúcho de apenas 18 anos.
Aldyr Schlee se tornaria o "pai da Amarelinha". Ele enviou ao periódico um modelo inovador para a época: uma camisa que levava um amarelo vivo com detalhes verdes na gola e nas mangas, um calção azul com detalhes em branco nas laterais e meias brancas com detalhes em verde e amarelo.
No ano seguinte, em 1954, enquanto as seleções se preparavam para a disputa do mundial na Suíça, o Correio da Manhã estampava em sua manchete o mais novo uniforme da seleção.
Schlee morreu em 2018, aos 83 anos, em Pelotas, onde vivia. Deixando três filhos, Andyr, Andrey e Sylvia. Ele lutava contra um câncer desde 2012. Além do talento para desenho, ele também era jornalista, professor e escritor. Recebeu o prêmio Açorianos de Literatura, em 2011, na categoria narrativa longa com o romance "Don Frutos", um Prêmio Esso de jornalismo e também a Ordem do Mérito Cultural das mãos da ex-presidente Dilma Rousseff.
Seu filho, Andrey Rosenthal Schlee, 63 anos, arquiteto e professor da Universidade de Brasília (UnB), reconta a história do pai com uma mistura de orgulho e ironia, que guardava uma relação desapegada com o feito histórico.
Ele conta que só descobriu o feito do pai aos 10 anos de idade, folheando uma revista antiga em que se via ao fundo de uma foto de Andyr, um calendário com a imagem de Pelé dando uma bicicleta.
“O pai nunca deu muita bola para essa história. Nunca demonstrou muito orgulho disso e, com certeza, não se encontrava, para ele, entre as coisas mais importantes que fez na vida”, disse Andrey ao Correio no início do mês.
Ele conta que o concurso só era lembrado como mera curiosidade às vésperas de cada Copa. Foi apenas no fim da vida que o estilista da amarelinha recebeu o devido reconhecimento internacional. Hoje, os filhos tratam os esboços originais encontrados em uma gaveta comum da casa como um verdadeiro tesouro familiar.
Ironicamente, Aldyr Schlee não torcia para o Brasil. Criado na fronteira, seu coração futebolístico pertencia ao Uruguai. Para ele, o esporte não se confundia com obrigação patriótica. Em 1950, o mesmo Aldyr havia desenhado um álbum completo com os gols da Copa baseando-se apenas nas transmissões de rádio, celebrando discretamente o título celeste.
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