O Brasil está entre as 10 nações que mais avançaram em proficiência educacional entre 2006 e 2025. É o que afirma o Ministério da Educação (MEC), com base na comparação entre os últimos 20 relatórios do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), documento organizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com o objetivo de medir a capacidade de jovens de 15 anos de aplicar conhecimentos em leitura, matemática e ciências em situações do cotidiano.
Com o acumulado das últimas duas décadas, o MEC sustenta que o Brasil ocupa a 7ª posição em leitura e matemática e a 8ª em ciências, numa lista de mais de 50 países. Nos últimos 20 anos, ainda conforme dados do ministério, o Brasil também se aproximou da média dos países da OCDE: diferença de pontuação caiu de 102 para 58 em leitura; de 131 para 92 em matemática; e de 113 para 77, em ciências.
Mas, apesar dos resultados e das conclusões trazidas pelo MEC, o relatório do Pisa 2025 — a ser divulgado hoje pela OCDE — aponta um cenário de baixa pontuação nas áreas de ciências, linguagens e matemática entre os estudantes brasileiros avaliados.
O país também não retomou o nível de leitura e de matemática alcançado em 2018, antes da pandemia. Na comparação entre os dois ciclos, a nota de leitura caiu de 413 para 408 pontos e a de matemática, de 384 para 377 pontos.
Em ciências, ao contrário, o Brasil superou o resultado pré-pandemia e subiu de 404 para 409 pontos. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o país "recuperou e superou o desempenho pré-pandemia em ciências e registrou perdas menores do que a média da OCDE em leitura e matemática".
Na comparação com o ciclo anterior, de 2022, as notas de leitura e de matemática também recuaram dois pontos cada, enquanto a de ciências subiu seis pontos. Segundo o Inep, essas variações não são estatisticamente significativas, ou seja, estão dentro da margem de erro da pesquisa.
O levantamento mostra que, em 2025, apenas 16% dos estudantes brasileiros consideraram a escola uma perda de tempo — 6,9 pontos percentuais a menos do que em 2022 e abaixo da média da OCDE, de 24%. A pesquisa da OCDE também constatou que os estudantes brasileiros estão com mais foco para aprender desde que o Brasil ampliou a proteção do ambiente escolar contra distrações digitais (Lei 15.100/2025, que proibiu o uso de aparelhos eletrônicos sem fins pedagógicos nas salas de aula brasileiras).
Ano passado, 81% dos estudantes estavam em escolas com restrições ao uso de celulares, percentual muito superior à média da OCDE (49%) e mais que o dobro do registrado no país em 2022 (37%). O relatório do Pisa mostra como os alunos de cada país se saíram na avaliação, quais são os fatores que influenciam a sua aprendizagem e quais são as políticas e práticas educacionais que podem melhorar a qualidade e a equidade da educação.
O relatório também aponta desigualdades no sistema educacional brasileiro. Em ciências, a delimitação por renda entre estudantes mostra uma distância de 96 pontos — disparidade superior à média da OCDE, que é de 85 pontos. Outro ponto apresentado pelo Pisa 2025 referiu-se à frequência de estudantes nas aulas. Segundo o relatório, 55% dos jovens brasileiros relataram ter faltado aula por pelo menos um dia inteiro nas duas semanas anteriores à aplicação do teste, no ano passado. Esse índice foi superior à média da OCDE, que foi de 22%.
Redução da discrepância
Para Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, o resultado positivo não deve ofuscar a desigualdade que persiste no país. "A questão que o Pisa coloca para nós não é simplesmente como disputar posições em um ranking, mas, principalmente, se seremos capazes de preparar todos os jovens brasileiros, não apenas alguns, para um mundo que está se tornando muito mais exigente cognitivamente", afirma.
Sobre o dado da valorização da escola, ele avalia que "há uma notícia importante no Pisa que não deveríamos perder: apesar de todos os problemas, os jovens atribuem valor à escola. Isso é um ativo extraordinário, ainda mais nesse momento da história. Nossa responsabilidade é transformar essa confiança dos estudantes em aprendizagem e em oportunidades reais."
Para Henriques, o principal desafio do país é reduzir a distância entre os estudantes sem abrir mão da qualidade. "No Brasil, nós temos um problema duplo: aprendemos pouco, em média, e a origem socioeconômica continua tendo um peso muito grande sobre as oportunidades educacionais", diz. "Precisamos fazer isso elevando a aprendizagem de todos e fazendo com que quem está atrás avance mais rapidamente."
Segundo ele, países que conseguiram reduzir o baixo desempenho e, ao mesmo tempo, ampliar a aprendizagem mostram que "não precisamos escolher entre equidade e qualidade". "A função da educação pública é justamente ampliar aquilo que uma criança pode alcançar, independentemente da família, da renda ou do território em que nasceu", frisa.
Fragilidades
Segundo Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, o avanço do Brasil no Pisa é real, mas convive com fragilidades que precisam ser enfrentadas. "É preciso reconhecer que, nos últimos anos, o Brasil avançou bastante em relação aos resultados do Pisa em leitura, matemática e ciências. É importante reconhecer que o nosso país tem muito a avançar", afirma.
Para ela, essas fragilidades aparecem em frentes distintas: "Nós ainda temos fragilidades na educação, seja em termos de infraestrutura das escolas, seja na alocação de recursos, seja na qualidade da oferta da educação que fazemos para os estudantes." Sonia observa que é preciso reconhecer os avanços, "mas temos muito a fazer para melhorar a nossa educação e chegar aos padrões dos países pertencentes à OCDE".
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
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