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EDUCAÇÃO

Projeto amplia participação de meninas na transição energética

Iniciativa leva conhecimento técnico sobre energias renováveis a escolas públicas e estimula novas lideranças femininas em ciência, tecnologia e cidadania

Um programa coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ofereceu formação técnica a meninas do ensino fundamental e médio em temas relacionados à transição energética, com foco em fontes renováveis e aspectos técnicos da geração e gestão de energia.

Na escola municipal Fredolino Chimango, em Passo Fundo, uma turma de cinco alunas decidiu reunir os conhecimentos práticos e teóricos para criar uma invenção tecnológica sustentável: um biodigestor feito de materiais reciclados. 

O dispositivo foi construído utilizando um galão de 5 litros, mangueira, canos de PVC, cola e uma válvula. A estudante Emilly Machado, de 15 anos, explicou o funcionamento do equipamento em entrevista ao jornal independente local, o Matinal: “O biodigestor produz biogás. Ele é feito com resíduos orgânicos, ou fezes de animais, e não polui a atmosfera. Serve como gás de cozinha normal, mas sem uso do petróleo”.

A iniciativa que levou as alunas a criar o biodigestor faz parte do projeto "Energizando a Equidade: Meninas e Mulheres Impulsionando a Transição Energética", financiado pelo CNPq. As atividades abrangem conteúdos sobre energia solar fotovoltaica, eficiência energética e gestão inteligente de energia, além de incluir oficinas, mentorias e eventos que conectam estudantes a profissionais da área. O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A iniciativa oferece, ao longo de sua execução de três anos, bolsas de pesquisa júnior, mentorias e oportunidades de participação em mostras científicas e eventos técnicos ligados à educação em ciência e energia.

A coordenadora do projeto é a professora Aline Cristiane Pan, vinculada ao curso de Engenharia de Gestão de Energia e ao Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física da UFRGS. O projeto também articula redes de apoio técnico e didático, como a Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (MESol) e a Rede Mulheres no Biogás, além de parceria com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS).

Dados do projeto apontam para desafios de gênero no setor energético. Segundo um estudo realizado pela Greener em 2024, 35% das empresas de tecnologia fotovoltaica no Brasil não contam com mulheres em suas equipes técnicas, e apenas 7% das mulheres do setor atuam em engenharia ou projetos. 

Por outro lado, são as mulheres as mais impactadas por uma série de questões envolvendo a energia, desde a carbonização dos territórios, a construção de termelétricas, até o aumento da fatura de energia, já que a maioria dos lares brasileiros é chefiado por elas segundo o IBGE.

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A iniciativa se insere em um contexto maior de ampliação da participação feminina em áreas relacionadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), com a intenção de proporcionar formação técnica e oportunidades de continuidade educacional e profissional para estudantes de redes públicas de ensino no Sul do país.

Além da dimensão técnica, o projeto incorpora reflexões sociais: como a energia impacta comunidades vulneráveis, como ela se conecta com questões de gênero e como o conhecimento em ciência pode ser uma ferramenta de cidadania plena. Em três anos, a meta é atingir diretamente 142 mulheres e mais de 5 mil estudantes da rede pública no sul do país. 

No mercado de trabalho, a desigualdade ainda é latente. Em entrevista ao Matinal, Nicole Figueiredo, diretora-executiva do Instituto Arayara, aponta que o setor de energia é dominado por homens brancos e que decisões cruciais muitas vezes ignoram o impacto nas mulheres, as mais afetadas pela carbonização e pelo aumento das tarifas de energia.

Nicole, que atua no combate à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, questiona se a transição energética não seria mais justa se houvesse mais mulheres na liderança. Basta olhar os projetos realizados pelas estudantes do Energizando a Equidade. Elas tinham em mãos um desafio: pensar sobre as energias renováveis. Não fizeram isso sem considerar as comunidades do seu entorno.

Energia limpa em situações de emergência

Em Tramandaí (RS), estudantes da Escola Estadual de Ensino Médio Assis Brasil criaram um poste móvel abastecido por energia solar fotovoltaica, capaz de iluminar ambientes e carregar celulares por até seis horas em caso de interrupção no fornecimento de energia elétrica.

A proposta foi inspirada pelas enchentes e ciclones que atingiram o estado em 2024 e pela recorrência de quedas de energia no município. O equipamento, com cerca de dois metros de altura e base de 25 quilos, foi construído com materiais reutilizáveis e instalado no pátio central da escola, com foco no uso por turmas do período noturno.

Em Osório (RS), alunas da Escola Estadual de Educação Prudente de Morais desenvolveram um fogão solar, enquanto, em Florianópolis (SC), estudantes da Escola Simão José Hess criaram o Ecojump, um jogo digital educativo voltado ao ensino de fontes de energia limpa, como solar, eólica e hídrica, por meio de lógica de programação.