No mundo contemporâneo, encontrar uma criança ou um adolescente que não esteja imerso na tecnologia é de extrema raridade. Isso, claro, porque eles já nasceram completamente mergulhados nesse oceano de informações. Assim, tanto em casa quanto na sala de aula, o ideal é aliar essa ferramenta à educação. Transformá-la em uma forte contribuinte para o processo de criatividade em uma fase em que criar pode ser divertido.
Na rede Sesi-DF, por exemplo, o trabalho é feito com minúcia e carinho. Sem esquecer, é claro, de tornar esse ecossistema interessante e não maçante. A estratégia incluiu a proibição dos aparelhos celulares individuais nas classes, ao mesmo tempo em que fortalece o acesso a plataformas digitais e equipamentos avançados. "A inteligência artificial, hoje, é uma forma que a gente usa para mediar o conhecimento. Não é uma resposta final", afirma Thaysa Tonhá, gerente de Desenvolvimento e Tecnologia Educacional do Sesi/Senai-DF.
Com isso, a proibição dos smartphones em sala abriu espaço para o uso pedagógico da inteligência artificial, de impressoras 3D e de kits de robótica. Redes de ensino apostam na integração tecnológica transversal para substituir a distração pelo pensamento crítico, transformar conceitos abstratos em aprendizado prático e preparar jovens para as carreiras do futuro.
Em um cenário educacional em que a presença dos celulares, muitas vezes, é associada à distração e ao entretenimento passivo, o Sesi, sobretudo no Gama, busca redefinir a relação dos adolescentes com o universo digital. O desafio de engajar turmas do ensino fundamental e médio passa por afastar a tecnologia da simples navegação em redes sociais e integrá-la como aposta criativa e mediadora do conhecimento no dia a dia escolar.
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Para sustentar essa dinâmica, a instituição investe em estrutura física, capacitação docente e parcerias estratégicas. "Hoje, as nossas escolas, como é um sistema integrado, têm um olhar para a tecnologia, para a formação pedagógica e para a prática docente dentro de sala de aula. Precisamos, de alguma forma, ser atrativos tanto quanto a internet. Uma das nossas parceiras, nesse sentido, é a Microsoft", explica a gestora.
Para sair da página em branco
A proposta pedagógica adota a tecnologia de forma transversal, evitando a separação em blocos isolados de conteúdo. "Não segmentamos tipo: 'vamos aprender sobre tecnologia hoje'. Se eles vão aprender ciência, é ciências com tecnologia. Se vão aprender português, é português com tecnologia. Nossas quatro escolas do Sesi são reconhecidas como showcase Microsoft Schools. Tudo o que a gente faz tem tecnologia envolvida", destaca Thaysa.
Nesse universo, que conta com impressoras 3D, óculos de realidade aumentada, gabinetes de notebooks e robótica Lego, a inteligência artificial ganha espaço controlado. "A gente não abre mão do uso da IA. Hoje é uma forma que usamos para mediar o conhecimento. Não é uma resposta final. O aluno aprende a investigar isso na rotina. A gente incentiva a fazer isso não como um produto finalístico, mas como um meio. Eles fazem as pesquisas, recebem as respostas, mas são mediados para tratar se aquela informação é verdadeira ou não", detalha a gestora.
Na prática docente, o uso desse instrumento é voltado para a resolução de problemas reais da comunidade por meio da metodologia STEAM. Professor de ciências humanas e técnico de robótica no Sesi-DF, Manuel Jesus Guerra detalha como utiliza o ecossistema digital em suas aulas. "Acabo utilizando muito notebooks e ferramentas, como a construção de diário de bordo na plataforma Sway e o uso do Teams, para comunicação de tarefas. O uso do pacote Office também está muito presente na rotina", conta.
Sobre a inteligência artificial, o professor explica a dinâmica de mediação pedagógica em sala de aula: "A gente pensa que a IA rompe com a página em branco. Quando preciso propor soluções para um problema que identificamos na comunidade, a IA nos ajuda a pensar nas soluções. Mas as soluções são sempre generalistas, e é isso que os estudantes precisam compreender. O desenvolvimento do pensamento crítico é para entender que depende do trabalho criativo deles construir como esse ponto de partida pode ser verossímil."
O docente complementa que o papel da escola é expandir a visão dos alunos diante dos resultados gerados por algoritmos. "A gente não condena o uso de outras inteligências artificiais. O que a gente faz é trabalhar a partir delas para que eles percebam que outras perspectivas precisam ser consideradas para melhorar e fortalecer o conhecimento, demonstrando que existe uma pluralidade para além do texto gerado com viés", enfatiza Manuel.
Olhando para o futuro
Para os alunos mais novos, o contato precoce com a programação e a robótica serve de gatilho para a descoberta de vocações. João Vieites Borges Vidal, 13 anos, estudante do 8° ano no Sesi Gama, afirma que a rotina na escola se conectou com seus interesses pessoais e com a referência que tem em casa. "O Sesi tem essa afinidade com a robótica e eles dão uma infraestrutura boa para isso. Para mim, a parte mais legal é a de programação. Eu sempre fui um cara que gostou de videogame, então sempre tive essa afinidade com o computador", comenta.
Quando crescer, o estudante espera virar técnico de informática ou um programador de sucesso. Esse desejo, inclusive, vem de dentro de casa. "Meu irmão participou da equipe de robótica e eu acho ele uma grande inspiração. Ele me fez entrar nessa área de computação falando que eu era bom no computador", completa João.
Nessa mesma linha de pensamento, Cristiano Kalebe Rodrigues Moreira, 15, aluno do 9° ano do ensino fundamental, acredita que o grande trunfo das ferramentas digitais é dar forma a conceitos teóricos difíceis. "A importância da tecnologia é boa porque ela consegue principalmente ajudar em cenários abstratos, como em matemática. Sempre tive um pouco de dificuldade nessa matéria específica porque você precisa ter uma noção abstrata muito boa. Seria muito mais fácil utilizar essas tecnologias para criar um exemplo prático para facilitar o entendimento e o acesso", relata o estudante.
Cristiano destaca, também, o impacto dos projetos mão na massa no cotidiano escolar, mostrando como o processo com a tecnologia pode ser, para além de tudo, divertido e encantador. "A parte mais legal é na sala do Lego, quando a gente tem essas tecnologias mais criativas. A gente já fez uma espécie de elevadorzinho e um lançador de avião."
A experiência prática, porém, não deve ser avaliada apenas pelo resultado que chama a atenção dos alunos. Para Débora Garofalo, a primeira mulher brasileira e primeira sul-americana a ser finalista no Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação, a tecnologia pode ser atraente justamente porque produz respostas visíveis rapidamente. "O aluno monta um robô, acende uma luz, movimenta um motor e temos algo para mostrar. Mas isso não significa, necessariamente, que houve aprendizagem significativa", afirma.
Entre propostas e resultados
Sobre o uso individual de inteligência artificial, o aluno explica como aplicar a ferramenta para otimizar seus estudos cotidianos. "Utilizo para uma dúvida rápida, para conseguir elaborar uma atividade sem precisar gastar muito tempo", acrescenta. Assim como Cristiano, João busca utilizar os recursos tecnológicos de maneira consciente. "Uso o ChatGPT quando vou fazer um dever, só que de uma forma produtiva, não de pegar e colar. Pego para ele corrigir e ver se eu estou certo", explica o jovem.
Essa sinergia entre ambiente escolar e interesse dos alunos converge com estudos do mercado de trabalho realizados pelas instituições. "Pesquisamos muito o mercado de trabalho, e o campo da TI está empregando mais, então tem uma forte tendência. A proibição do celular vem muito no sentido de evitar o uso da tecnologia por mero entretenimento. Hoje, buscamos fazer com que os nossos alunos percebam que a tecnologia está ali para agregar conhecimento", conclui Thaysa Tonhá.
Para avaliar se essa proposta realmente produz resultados, no entanto, não basta contabilizar equipamentos ou registrar projetos. "É necessário observar evidências como evolução das competências dos estudantes, qualidade dos projetos, capacidade de resolver problemas, argumentar, trabalhar colaborativamente, interpretar dados, comunicar ideias e revisar soluções", explica Débora.
Para a professora, até mesmo uma escola que apresenta muitos projetos e equipamentos precisa mostrar o que mudou na aprendizagem dos alunos. "A escola precisa ir além de mostrar fotografias de projetos ou o número de alunos que passaram pelo laboratório. Esses dados são importantes para dimensionar o alcance, mas não comprovam aprendizagem", conclui.
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