Em um mundo globalizado, o multilinguismo torna-se peça fundamental. O crescimento acelerado da procura por escolas bilíngues no Brasil tem transformado o cenário educacional, impulsionado por pais que buscam a fluência em outro idioma desde a infância como um passaporte para o futuro. Mais do que o domínio de uma nova língua, essas instituições desafiam o modelo tradicional de ensino ao integrar a imersão cultural e o pensamento crítico no cotidiano dos alunos, levantando debates sobre os limites entre a inovação pedagógica e a exclusão socioeconômica.
A neuropsicopedagoga Silvia Bosi explica como a introdução linguística age no cérebro. "A exposição bilíngue pode favorecer adaptações funcionais e estruturais no cérebro, influenciadas pela idade de aquisição, frequência de uso e proficiência em cada língua. Como os dois idiomas permanecem ativos, o cérebro precisa selecionar qual utilizar, e controlar possíveis interferências. Esse processo mobiliza, também, regiões relacionadas à atenção e ao controle cognitivo."
Para que uma instituição de ensino seja declaradamente bilíngue, há uma série de critérios regulamentados pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) a serem seguidos. A principal norma é que a língua estrangeira não seja apenas uma disciplina isolada, mas sim, o veículo de instrução para ensinar outras matérias do currículo nacional.
Dessa forma, uma carga horária mínima na língua adicional deve corresponder a uma porcentagem específica da grade curricular obrigatória. Na educação infantil e no ensino fundamental, entre 30% e 50% do tempo de instrução deve ser dedicado ao outro idioma. Já no ensino médio, a carga horária deve ser de, no mínimo, 20%. Vale reforçar que instituições que oferecem apenas o inglês no contraturno ou têm carga horária estendida — sem aulas de outras disciplinas na língua — são classificadas como escolas com programa bilíngue, e não escolas bilíngues.
Diploma duplo
Maria Dias, diretora da unidade do Lago Sul da Heavenly International School, explica que a progressão acontece como em uma escola monolíngue: com o avançar dos anos, aumenta a complexidade dos textos e das atividades aplicadas. A diferença é que, além de saírem com os conhecimentos consolidados, os estudantes aprendem a pensar em outro idioma. "O aluno precisa estar preparado para utilizar o inglês em contextos acadêmicos e internacionais, mas também ter uma formação sólida nos componentes e habilidades exigidos pela BNCC e pelos processos seletivos brasileiros, como Enem, PAS e vestibulares", reitera Maria.
Guizilla Lyrio, diretora da unidade da Asa Norte, esclarece como é feito o processo de integração do idioma. "A escola cumpre integralmente os conteúdos, competências e habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), articulando-os ao currículo de inglês do International Curriculum Association (ICA), em uma proposta curricular integrada e cuidadosamente planejada." Os estudantes podem ainda sair com um diploma duplo e certificado de proficiência.
Foi sob essa ótica que a arquiteta Mayara Cavalcante, 38 anos, e o servidor público Pedro Cavalcante, 40, decidiram matricular os filhos — Mateus, Antônio e João Gabriel de Azevedo, de 3, 4 e 6 anos, respectivamente — na instituição. "Estávamos procurando algo assim, para sair desse formato de cursinho de inglês. Quando o aprendizado acontece desde o começo, a tendência é de que seja algo mais natural. Vejo que a língua abre portas para diversas oportunidades", afirma o pai sobre a escolha.
A mãe acrescenta que ver os filhos dominando a língua gera uma surpresa gratificante: "Vemos eles cantando, brincando e orando em inglês por conta própria. Isso é muito emocionante".
Iniciar esse processo na infância, como fizeram Mayara e Pedro, é importante, mas não é uma limitação para quem começa mais tarde. "A primeira infância apresenta maior plasticidade cerebral e pode favorecer a aquisição mais espontânea dos sons, da pronúncia e das estruturas linguísticas. Entretanto, uma segunda língua pode ser aprendida em qualquer idade", esclarece a neuropsicopedagoga Silvia Bosi.
A escola oferece acolhimento para os alunos novatos na escola e na língua. "Alunos que chegam com pouca ou nenhuma experiência em inglês podem precisar de estratégias específicas de suporte linguístico. Isso não significa separá-los dos demais ou esperar que alcancem determinado nível para participar das aulas. A integração acontece desde o início, com recursos como apoio visual, contextualização e adaptação da linguagem — suportes temporários que vão sendo retirados à medida que o aluno ganha autonomia", conclui Maria.
* Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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