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Ações afirmativas na UnB: acesso avançou, mas permanência ainda é desafio

Professora Cláudia Alves, única docente negra do Departamento de Psicologia Clínica, defende políticas de apoio financeiro, representatividade e combate ao racismo para garantir que estudantes concluam a graduação

Entrar na universidade é uma conquista, mas não significa que todos os estudantes encontrem condições para permanecer nela. Para quem pertence a grupos historicamente excluídos do ensino superior, a trajetória acadêmica pode envolver dificuldades financeiras, discriminação e a falta de referências entre os professores. Na Universidade de Brasília (UnB), a professora Cláudia Alves conhece de perto um dos lados desse desafio: ela é a única docente negra do Departamento de Psicologia Clínica e Cultura.

A pouca representatividade entre os professores é uma das questões que atravessam a discussão sobre ações afirmativas na universidade. Para Cláudia, que organizou a Jornada Acadêmica do Programa de Educação Tutorial (PET) de Psicologia, realizada na última quarta-feira, democratizar o ensino superior exige mais do que garantir vagas a pessoas negras, indígenas, quilombolas, trans e com deficiência. É preciso criar condições para que esses estudantes concluam os cursos, se sintam parte da instituição e também possam ocupar posições de docência. "Ela já está muito solidificada enquanto acesso, mas a permanência a gente ainda precisa ter passos importantes dados", afirma a professora.

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Com o tema Ações Afirmativas no Ensino Superior: garantia de direitos e democratização da universidade, o encontro reuniu estudantes, professores e pesquisadores para discutir os avanços e os desafios dessas políticas. Mais do que debater a entrada de grupos historicamente afastados das universidades, a jornada colocou em pauta o que acontece depois da aprovação no processo seletivo: como esses alunos são recebidos, quais obstáculos enfrentam e que espaço encontram para construir suas trajetórias.

Desafio após aprovação

A reserva de vagas é resultado de uma longa mobilização de movimentos sociais, lembra Cláudia. A professora destaca a atuação dos movimentos negro e indígena na reivindicação do direito à educação superior e avalia que as ações afirmativas fazem parte de uma discussão mais ampla sobre democracia. "Discutir as ações afirmativas hoje, no contexto em que a gente discute o processo de democratização do país, a defesa do processo democrático no país, envolve também a gente pensar o processo democrático dentro da universidade", diz.

A conquista do acesso, porém, não elimina as dificuldades que podem comprometer a formação. Bolsas e auxílios financeiros são importantes para ajudar estudantes a se manter na universidade, mas, segundo Cláudia, a permanência também depende de enfrentar o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação no ambiente acadêmico.

As condições de transporte, o tempo disponível para estudar e a possibilidade de conciliar a formação com outras necessidades também entram nessa conta. Por isso, a professora defende mudanças que considerem a realidade dos alunos e permitam que eles participem da vida universitária sem precisar enfrentar, além das exigências acadêmicas, situações constantes de exclusão. "Precisamos construir outras lógicas de educação dentro da universidade que permitam que esses estudantes sejam reconhecidos nas suas realidades, que eles tenham espaço para falar e se sentir pertencentes também", afirma.

Maria Clara Abreu - Na UnB, a presença de Cláudia Alves tem um significado que vai além de sua atuação em sala de aula

A doutoranda Neiva de Oliveira, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da UnB, ressalta que as políticas afirmativas também precisam reconhecer o conhecimento que os estudantes levam para a universidade. Para ela, as cotas raciais não se limitam a corrigir desigualdades no acesso: também representam uma forma de reparação histórica. "Essa população não chega aqui vazia. Elas chegam com seus saberes, as suas trajetórias, que agregam muito ao espaço acadêmico também", afirma.

A pesquisadora defende que a discussão sobre permanência alcance todos os níveis da formação universitária, da graduação à pós-graduação, e inclua também os professores. Afinal, ampliar a diversidade entre os alunos sem discutir quem ensina, quais conteúdos são oferecidos e quais experiências são reconhecidas limita o alcance das mudanças.

Falta de referências

No Departamento de Psicologia Clínica e Cultura, a presença de Cláudia tem um significado que vai além de sua atuação em sala de aula. A professora conta que estudantes já lhe disseram que ela foi a primeira docente negra com quem tiveram aula. A experiência, segundo ela, ajudou alguns deles a considerar a docência como uma possibilidade profissional. "Muitas vezes eu escuto de estudantes assim: 'Nossa, mas você é a primeira professora negra com quem eu tive aula'. E, a partir daí, pude começar a pensar na docência ou nesse espaço enquanto espaço para mim", relata.

O depoimento ajuda a dimensionar o efeito da representatividade na construção de projetos de vida. Quando estudantes não encontram pessoas com trajetórias semelhantes às suas em posições de destaque, podem ter menos referências concretas sobre as possibilidades de futuro. A presença de uma professora negra, por outro lado, permite visualizar caminhos que antes pareciam distantes.

Para Cláudia, não se trata apenas de ocupar um lugar que historicamente teve pouca diversidade. Trata-se também de contribuir para que outros estudantes consigam imaginar a si mesmos nesses espaços.

A discussão apareceu em outras falas durante a jornada. O doutorando Fabrício Gonçalves Ferreira, também do programa de pós-graduação, chamou a atenção para a resistência à contratação de professores negros e à inclusão de conteúdos sobre relações étnico-raciais nos currículos.

Cedido ao Correio - Encontro reuniu estudantes, professores e pesquisadores para discutir avanços e desafios

Ele defende que a diversidade esteja presente não só no perfil dos estudantes, mas também nas disciplinas, nos estágios e nas demais atividades acadêmicas. Na avaliação do pesquisador, a responsabilidade por promover essas discussões não pode ficar concentrada nos próprios professores negros e indígenas.

Já a estudante de Psicologia Alicia Rocha aponta mudanças que, segundo ela, ganharam força com a chegada de Cláudia à universidade. Entre elas estão disciplinas relacionadas às questões étnico-raciais, estágios voltados à população negra e grupos de extensão que ajudam a fortalecer os vínculos entre estudantes negros.

A estudante avalia que a ampliação da presença de mulheres negras e outros professores negros poderia contribuir para aprofundar essas iniciativas e diversificar a formação oferecida pelo curso. A questão, portanto, não se restringe à identificação dos alunos com seus professores: envolve também quais experiências são consideradas relevantes para a produção de conhecimento e para a formação de profissionais.

Fabrício destaca que essa discussão tem implicações que ultrapassam os limites da universidade. Na psicologia, por exemplo, compreender as relações étnico-raciais e as diferentes experiências sociais é relevante para a formação de profissionais que vão atender pessoas com trajetórias diversas.

Trajetórias

Os efeitos das políticas afirmativas aparecem nas experiências de quem ingressou na UnB por meio delas. Rafael Queiroz, estudante do 6º semestre de psicologia e integrante do PET, participou da organização da jornada e conta que ouvir relatos sobre a mobilização que levou à construção dessas políticas teve um significado especial para ele, que é cotista. "Foi muito emocionante ver esse relato", diz Rafael, ao recordar as discussões realizadas pela manhã. À tarde, o debate se voltou ao pertencimento, com a participação de estudantes que compartilharam experiências e desafios vividos na universidade.

Para ele, manter espaços de discussão é especialmente importante diante das tensões em torno das ações afirmativas e da universidade pública. O encontro, em sua avaliação, permite que os alunos reconheçam experiências semelhantes às suas e fortaleçam os vínculos com a instituição.

A estudante venezuelana Verônica de Los Angeles, refugiada e aluna da UnB, também vê na universidade um espaço decisivo para sua trajetória. Ela conta que, apesar das dificuldades, encontrou na instituição a possibilidade de explorar a própria identidade e construir um sentimento de pertencimento. "Para mim, a UnB foi um segundo lar, uma segunda casa onde, com muita dificuldade, consegui achar um pertencimento, achar um lugar que pudesse falar que é meu e pudesse realmente explorar mais sobre a minha identidade", relata.

A experiência de Verônica ajuda a mostrar por que a permanência não pode ser entendida apenas como a possibilidade de continuar matriculado. Sentir-se parte da universidade, encontrar espaço para se expressar e ter condições de concluir a formação também fazem parte desse processo. "Espaços para você dialogar sobre ações afirmativas são muito importantes, não só para você reforçar de que você não está sozinho, mas também para reforçar que as futuras pessoas podem entrar", afirma a estudante.

Cedido ao Correio - A pouca representatividade entre professores é uma questão que atravessa a discussão

Responsabilidade

Para Neiva, a jornada também é uma oportunidade de estimular os próprios estudantes a refletir sobre suas experiências e pensar em formas coletivas de enfrentar as dificuldades. A organização de grupos, a troca de vivências e a criação de redes de apoio podem ajudar a construir um ambiente em que os alunos não precisem enfrentar os obstáculos isoladamente.

Cláudia concorda que esse debate precisa envolver a comunidade acadêmica desde a graduação. Embora a jornada tenha sido organizada pelo PET Psicologia, a discussão proposta se estende à universidade como um todo.

A professora ressalta que o acesso ao ensino superior pode abrir caminhos profissionais e transformar as perspectivas de famílias inteiras, sobretudo quando um estudante é o primeiro de sua casa a chegar à universidade. Para que esse potencial se concretize, no entanto, é necessário que a instituição acompanhe a ampliação do acesso com medidas de permanência e mudanças na cultura acadêmica.

A questão central, portanto, não é apenas quantos estudantes conseguem entrar, mas que condições encontram para continuar, concluir a formação e, futuramente, ocupar outros espaços dentro e fora da universidade. Para Cláudia, defender as ações afirmativas significa preservar um direito conquistado e avançar na construção de uma universidade em que a diversidade esteja presente entre os alunos, os professores e as próprias formas de produzir conhecimento.