Os traços que hoje encantam sobre a lousa revelam uma habilidade que acompanha a artista e professora de artes Camilla Dantas, 30 anos, durante toda a vida. "Sempre gostei muito de desenhar, como toda criança, mas eu continuei", explica. Ela nunca frequentou um curso de desenho na infância nem na adolescência, mas com o treino em casa aprimorou a habilidade.
Aos 13 anos, descobriu que a Universidade de Brasília (UnB) oferecia uma graduação em artes visuais e, desde então, não houve quem a dissuadisse da ideia de cursá-la. O pai até tentou, pensando talvez em uma formação que proporcionasse um caminho mais simples no mercado de trabalho. Mas Camilla estava decidida: queria ser artista.
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Isso mesmo. A ideia de ser professora não passava pela cabeça. Tanto que ingressou na universidade federal pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS/UnB) e optou pela habilitação de bacharel. "Eu não queria ser professora de jeito nenhum. Achava que era, de certa forma, um fracasso o artista se tornar professor", revela. "Mas, ao longo do tempo, vi que aquele diploma de bacharel não ia trazer um retorno direto. E mudei para licenciatura, como um 'plano Z'", confessa.
Foi aí que uma mudança ainda mais profunda teve início. "Quando comecei a cursar as matérias, percebi que não tinha ideia do que era ser professor", admite Camilla. As disciplinas relacionadas à psicologia, que tratavam do desenvolvimento humano, a fascinaram. Não tinha mais volta: ela havia sido fisgada pelo universo da educação.
Ainda na graduação, desenvolveu um curso de pintura para idosos em Taguatinga, projeto pensado com foco na inclusão desse público. "Foi a martelada final no prego de que era isso que eu queria: tornar-me professora", recorda-se.
Conheceu ali José Ferreira, que havia se distanciado da família e da veia artística e vivia recluso. Durante o curso do projeto de extensão de Camilla, redescobriu-se artista, se reconciliou com a família e até mudou de visual. Fez a barba e colocou roupa social para a exposição das obras feitas na formação, organizada pela professora. O último ano de vida ele passou produzindo arte. "É uma história que me toca muito e talvez tenha sido uma das responsáveis por esse meu amor em entregar arte para as pessoas, e mostrar que a arte pode mudar vidas."
As pedras no caminho
Com o diploma em mãos, Camilla detalha um início turbulento da trajetória profissional. O primeiro emprego foi como professora de inglês. Só um ano depois conseguiu colocação na área de especialização, mas durante a pandemia. O isolamento social exigido para cessar as contaminações pela covid-19 transformou a experiência da maior parte dos professores em frustração. Para ela, não foi diferente.
Um novo período de descobertas profissionais começou em 2023, ao ser aprovada no concurso da Secretaria de Educação do DF. No ano seguinte, assumiu o cargo e começou a dar aulas para o ensino fundamental, uma fase feliz, mas falta o "algo mais".
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Camilla se encontrou justamente no trabalho com alunos mais velhos, do ensino médio. Há pouco mais de ano, atua no Centro de Ensino Médio Setor Oeste, na Asa Sul. Nessa fase do ensino, ela conseguiu conectar a sua nova paixão — a de dar aulas — com a primeira de todas: a arte.
Um dos segredos para isso é que ela nunca deixou de produzir obras de arte. Participa de exposições e até produz sob encomenda. "Quando você é artista, não tem como desvincular uma persona da outra."
Segunda paixão
Mas e onde entra a sala de aula? A resposta vem de uma pitada de ação do acaso. Para ministrar o conteúdo, nem sempre Camilla tinha o apoio visual em material impresso ou projetor. "Então, muitas vezes, acabava desenhando. Eram desenhos simplificados, para os alunos copiarem, porque quando copiamos ativamos a memorização visual. Desenho e pintura ativam as mesmas partes do cérebro", ensina.
Ao perceber o engajamento, Camilla transformou esse processo em rotina, e compartilhou algumas artes da sala de aula nas redes sociais. O sucesso foi instantâneo, e emergiu daí uma nova conexão: a tecnologia.
Em alguns momentos ela revela que chega a faltar ideias para preencher a lousa, mas agora pede sugestões dos alunos na sala de aula e também em caixinhas de perguntas nas redes sociais. Muitas são acatadas e viram arte no dia seguinte. "Virou um desafio diário", diverte-se.
Ela reconhece que desafios históricos se impõem, mas também observa que esse diálogo entre o mundo da arte, o da educação e a comunidade escolar tem trazido soluções.
A disciplina de artes ainda é encarada por muitos como "aula livre", o que acaba levando a um número mais alto de faltas. Mas a professora avalia que esse movimento tem diminuído e, por incrível que pareça, a pandemia pode ter ajudado, ao mostrar o valor dos trabalhos manuais. "Acredito que depois da pandemia muitos adolescentes passaram a se interessar por atividades manuais em geral", afirma.
"Em sala de aula, quando eu estou desenhando, abro o ambiente para eles se sentirem mais à vontade. Sentem-se a celebridade da escola quando eu escolho o desenho deles!", orgulha-se Camilla. Tem aluno que passa rapidamente pela sala só para espiar qual será o desenho do dia. "Nosso modelo escolar não é fácil, e adolescência já é um período difícil. Muitos deles estudam e trabalham também", observa a professora, reforçando a importância de proporcionar uma rotina mais leve e de partilha na escola.
Mudança profunda
O que ajudou na mudança de chave para Camilla, quando decidiu ser professora não mais como "plano Z", foi assistir, em uma das aulas da licenciatura, à palestra do indiano Sanjit Bunker Roy, fundador da Universidade dos Pés Descalços, em um TED Global gravado em 2011. No vídeo, ele conta como formou moradores de áreas rurais médicos, engenheiros e dentistas, para atuarem em suas próprias comunidades.
"Ele (Bunker Roy) teve as melhores escolas. A família tinha uma condição financeira muito boa, e ele largou tudo para criar uma universidade para pessoas pobres na Índia — idosos, crianças que trabalhavam, pessoas vulneráveis da região. Foi crescendo aos poucos e eles aprendiam até robótica, eletricidade sustentável, utilização de água e coisas supertecnológicas. A cada trecho da história eu me arrepiava e me via muito naquele lugar. E aí pensei: a arte é isso, a arte muda vidas", diz Camilla. "Foi esse clique que me deu a ideia de fazer o projeto em Taguatinga", completa.
"Dar aula foi uma das coisas mais importantes, que me fizeram passar de menina para mulher adulta responsável. Foi um processo de autoconhecimento e amadurecimento muito grande. Quando você dá aula, lida com pessoas muito diferentes de você, e é o responsável por todas elas", reflete. "Então, tenho que fazer o melhor que eu posso, se não, estou falhando com aquelas famílias e também com a sociedade. Preciso dar o meu melhor."
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