Aos 20 anos, Angélica China Matsuda já precisou deixar a cidade onde vivia, mudar-se sozinha para Curitiba e passar dois anos entre treinamentos e competições. Do outro lado do mundo, em Xangai, na China, o esforço terminou com uma medalha de excelência na WorldSkills 2026, competição internacional que coloca jovens à prova em diferentes profissões.
Angélica foi uma dos cinco brasileiros ligados ao Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) que receberam o reconhecimento nesta edição. As medalhas vieram nas ocupações de Cabeleireiro, Cozinha, Cuidados de Saúde e Apoio Social, Serviço de Restaurante e Recepção de Hotel.
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Conhecida como “Olimpíada das profissões”, a WorldSkills reúne competidores de diferentes países para executar tarefas práticas relacionadas às áreas em que se especializaram. Em Xangai, cerca de 1,4 mil jovens de mais de 70 países e regiões disputaram 64 ocupações.
Angélica representou o Brasil em Cabeleireiro. Antes de chegar à competição mundial, porém, a jovem de Maringá (PR) passou por uma trajetória que começou quase por acaso. Ao terminar a escola, chegou a considerar cursar fisioterapia, mas decidiu seguir uma área de que já gostava e entrou em um curso de cabeleireiro.
Foi no primeiro dia de aula que ouviu da professora sobre a possibilidade de participar de uma competição. A ideia despertou o interesse imediatamente. Meses depois, já trabalhando em dois salões e fazendo trabalhos extras à noite, recebeu o convite para disputar uma seletiva.
“Eu já agarrei com todas as minhas forças e falei: ‘Eu quero’”, conta ao Correio.
O treinamento mínimo exigido naquela etapa era de quatro horas, mas Angélica conta que costumava fazer seis. A vitória na fase regional trouxe outra mudança: aos 18 anos, precisou deixar Maringá e morar sozinha em Curitiba para continuar a preparação.
O caminho levou ao ouro nas Competições Senac 2025 e, depois, à vaga para representar o país na China. Na WorldSkills, a brasileira enfrentou provas de corte, barba, coloração e estilização. Parte dos desafios só era revelada pouco antes do início, o que exigia adaptação dos competidores.
“O projeto teste saía 30 minutos antes da prova”, detalha. “Eu fui para a WorldSkills sabendo que fui bem treinada, mas também sabendo que teria que estar muito atenta e ser muito adaptável”.
Angélica terminou a disputa em oitavo lugar e recebeu a medalha de excelência. Apesar de ter chegado à China mirando o pódio, diz que deixou a competição satisfeita. “Eu saio com a sensação de dever cumprido. Sinto orgulho da mulher que eu me tornei”, afirma.
Do quartel para a competição mundial
A trajetória de Matheus Henrique dos Santos da Silva, 22, também começou em um curso profissionalizante. Em 2022, ele fez gratuitamente um curso de garçom e chamou a atenção dos professores. Chegou a receber um convite para entrar no ciclo de competições que levaria à WorldSkills de 2024, em Lyon, na França, mas precisou recusar.
Na época, Matheus tinha outro plano: queria entrar para a Força Aérea Brasileira (FAB), um sonho que carregava desde a infância. Tornou-se soldado e chegou a ficar em primeiro lugar na turma de formação.
A oportunidade de competir reapareceu em 2025. Desta vez, ele aceitou. Passou por uma seleção, venceu a etapa estadual e depois conquistou o ouro na competição nacional, garantindo a vaga para Xangai.
A preparação passou a dividir espaço com a rotina militar. Matheus acordava às 4h30 e começava o trabalho no quartel às 5h30. Às 7h30, seguia para o Senac, onde treinava até o início da noite. Duas vezes por semana, ainda fazia aulas de inglês.
O idioma era parte importante da preparação. Se nas competições nacionais metade das provas já ocorria em inglês, no mundial todas seriam realizadas na língua. Antes de Xangai, Matheus também participou de uma competição internacional na Croácia, onde ficou em primeiro lugar entre os competidores estrangeiros, e passou três semanas em um intercâmbio na Irlanda.
Na China, ele representou o país em Serviço de Restaurante. As provas envolviam desde atendimento e serviço de mesa até preparo de cafés e coquetéis. Algumas tarefas foram reveladas somente minutos antes do início.
Uma delas trouxe um desafio completamente novo: preparar chá, algo que Matheus afirma não ter treinado anteriormente. Em outra prova, precisou fazer 12 coquetéis, o dobro da quantidade com que estava acostumado a praticar.
“Pode parecer simples, mas muda muito”, afirma ao Correio. “Mas eu consegui entregar todas as provas no tempo”.
Matheus não chegou ao pódio, mas recebeu a medalha de excelência. Segundo ele, a última distinção brasileira na ocupação havia ocorrido na edição de 2015 da WorldSkills, realizada em São Paulo.
O resultado também mudou seus planos. Matheus pretende deixar a FAB em fevereiro e seguir na área que conheceu a partir do curso de garçom.
“Essa carreira abriu meus olhos. Mostrou para mim o que realmente quero fazer da minha vida”, diz. O plano agora é continuar estudando e, futuramente, voltar à WorldSkills em outro papel. Cada jovem pode participar apenas uma vez como competidor, segundo Matheus. Ele pretende se preparar para atuar como treinador.
Cinco medalhas de excelência
Além de Angélica e Matheus, receberam medalhas de excelência Gustavo Ramos Freitas Argould, na Cozinha; Cássia Eloá Martins de Oliveira, em Cuidados de Saúde e Apoio Social; e Natália da Rosa Corso, em Recepção de Hotel.
Ao todo, o Senac participou de nove ocupações e terminou cinco delas com medalhas de excelência, o equivalente a 55,6% das categorias disputadas pela instituição. Segundo o Senac, é o maior número de reconhecimentos obtido pela entidade em uma única edição da competição.
Realizada entre 22 e 27 de setembro, a WorldSkills Shanghai 2026 teve 64 ocupações. As provas simulam situações encontradas no mercado de trabalho e avaliam conhecimentos e habilidades práticas dos competidores.
A próxima edição mundial está marcada para novembro de 2028, em Aichi, no Japão.
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