
Famoso pela empáfia e pelas decisões unilaterais, muitas vezes sem consultar o Congresso, Donald Trump está acuado. Humilhado por uma vitória histórica dos democratas nas eleições de meio de mandato, as "midterms", Trump viu seu partido perder o controle da Câmara dos Representantes e do Senado na próxima legislatura, a partir de 3 de janeiro de 2027. Pelos próximos dois anos, o titular da Casa Branca terá a governabilidade reduzida e estará sob risco de investigação dos deputados.
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A julgar pela reação inicial, Trump sinalizou que compreendeu a mensagem das urnas e chegou a adotar um tom conciliador. Acatou a análise de seu vice, J.D. Vance, e admitiu que o Irã foi a "razão" da derrota eleitoral. "Acho que, em grande parte, é verdade, porque fez com que o preço da gasolina subisse um pouco no curto prazo", declarou. "Estou absolutamente disposto a aceitar estes resultados", afirmou, mais cedo, ao The New York Times. "Acho que os democratas fizeram um bom trabalho, realmente acho. Eles lutaram de maneira dura", ponderou à emissora Fox News.
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Foi uma mudança de postura em relação à ensaiada quando as projeções começaram a apontar a vitória democrata. "Eu não estava na cédula e, se estivesse, teríamos vencido de maneira avassaladora", escreveu na sua plataforma Truth Social. Trump também avisou que uma nova tentativa de impeachment contra ele no Congresso "destruiria" a oposição. "Acho que isso destruiria o Partido Democrata. Impeachment por qual motivo? Porque temos um país bem-sucedido?", questionou.
O recado das urnas anteontem foi incisivo: os democratas venceram na Carolina do Norte, Carolina do Sul e em Ohio, e em redutos republicanos, como Texas, Iowa e Kansas. Foi uma eleição surpreendente e inédita, marcada pela diversidade (leia na página 12): os americanos elegeram sua primeira governadora negra, seu primeiro senador abertamente gay, o primeiro senador muçulmano e a primeira governadora indígena.
O primeiro reflexo do desastre das urnas para os republicanos foi a decisão de Mike Johson, presidente da Câmara dos Representantes, de renunciaar ao cargo. Johnson é o segundo na linha de suscessão presidencial e a terceira figura mais poderosa dos EUA. Até às 22h desta quarta-feira (4/11), os democratas tinham conquistado 237 cadeiras da Câmara dos Representantes, 19 a mais acima da maioria absoluta, contra 147 para os republicanos — 51 assentos seguiam em disputa. No Senado, os democratas tinham 54 cadeiras, quatro acima do limite para maioria, contra 44 para os republicanos.
Tensão
Professor de ciência política do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Charles H. Stewart III afirmou ao Correio que o cenário mais provável será a continuidade do impasse e o aumento da tensão entre o Congresso e o presidente. "Como o atual Congresso tem acatado as vontades de Donald Trump — que tem agido de forma unilateral —, é possível que, no curto prazo, não haja grandes mudanças, exceto pelo fato de o Capitólio manifestar objeções quando o presidente toma decisões unilaterais", avaliou. Stewart prevê que, com o passar do tempo, as disputas políticas entre Trump e Congresso cheguem aos tribunais, o que pode provocar algum tipo de confronto constitucional até 2028.
"Os republicanos estarão na defensiva. Tradicionalmente, os presidentes concentram-se em questões internacionais na fase final de seus mandatos, uma vez que não podem esperar obter grandes avanços por meio do Congresso, mas dispõem de maior margem de manobra na política externa. Trump tem a guerra com o Irã para enfrentar", aposta, por sua vez, David Karol, professor do Departamento de Governo e Política da Universidade de Maryland.
Jon C. Rogowski, cientista político da Universidade de Chicago, prevê um período de "governo dividido". Ao Correio, ele explicou que, durante esse tempo, o Congresso costuma aprovar menos projetos de lei importantes, por causa da dificuldade de um acordo com o presidente. "Nos últimos dois anos, o Congresso não aprovou muitas leis importantes; talvez não observemos uma diferença significativa. Mas os congressistas tendem a realizar mais investigações sobre o Executivo, e provavelmente isso ocorrerá até 2028", afirmou. "Trump é um 'pato manco', de acordo com a Constituição. Nesse período, a maioria dos presidentes tenta firmar seus legados. O ambiente político é desfavorável. Trump terá margem de manobra limitada."
Rogowski lembrou que Trump tem governado por meio de decretos ou ordens executivas unilaterais. Segundo ele, a maior parte das políticas do republicano foi implementada sem a participação do Legislativo. "Agora, o Congresso poderá estar inclinado a tornar politicamente mais difícil para Trump governar de forma unilateral", comentou.
O estudioso de Chicago admitiu que as primeiras reações do titular da Casa Branca à derrota foram surpreendentes pelo fato de ele responder de forma extravagante a situações adversas. "Trump parece crer que uma guerra com o Irã valerá a pena a longo prazo. Resta saber se os americanos, no fim das contas, concordarão com ele. Trump sabe que o Congresso pode tornar sua vida muito difícil nos próximos dois anos. Ele não quer ser consumido por um terceiro possível processo de impeachment. Também sabe que existe uma divergência dentro do Partido Democrata quanto à sua agenda", concluiu Rogowski.
Limitação
Para Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington), os candidatos republicanos aprenderam uma lição: não se pode fugir do presidente do seu próprio partido. "Não espero nenhuma mudança ideológica por parte dos republicanos. Tanto na Câmara quanto no Senado, eles cederam ao presidente não principalmente por medo de Trump, mas por concordarem com ele. O novo Senado pode ser, inclusive, ainda mais conservador do que o atual", disse ao Correio.
Lichtman entende que o resultado das urnas tem controle limitado sobre Trump. "Ele não governa por legislação, mas com ordens executivas. Esse poder segue intacto. Os democratas podem impor limites a Trump na Câmara por meio de investigações." Com a nova composição do Congresso, o presidente poderá sofrer constrangimento. "Há vasto campo para investigações: a guerra no Irã, as guerras tarifárias, a corrupção, os documentos relacionados ao pedófilo Jeffrey Epstein, a ameaça à democracia. No Senado, os parlamentares não irão chancelar nomeações perigosas e de pessoas sem qualificação para o Executivo — como Kash Patel, para o FBI; Robert F. Kennedy Jr., para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos; (HHS) e Pete Hegseth para o Departamento de Defesa. Eles atuarão como um freio à nomeação de juízes de direita com mandatos vitalícios", aposta.
O QUE AS URNAS FALARAM?
"Trump é um presidente historicamente impopular, e os eleitores expressaram indignação com o governo. Os custos aumentaram; grande parte do mercado de ações — à exceção das empresas de inteligência artificial — enfrenta dificuldades; há escassez de empregos; o país está envolvido em uma guerra à qual a maioria da população se opõe, e Trump parece empenhado em enriquecer a si mesmo e a seus aliados. Ele ignora as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores americanos. A eleição serviu como um lembrete de que o governo deve trabalhar em prol do povo, e de que o povo afastará seus líderes quando isso deixar de acontecer."
JON C. ROGOWSKI, professor de ciência política da Universidade de Chicago
"A maior parte da opinião pública desaprova o presidente e quer que ele saiba disso. Legalmente, Trump é um governante em fim de mandato, um 'pato manco'. Acredito que ele será tratado como irrelevante enquanto outros disputarão para substituí-lo. No entanto, não gostará nada disso. O presidente republicano se empenhará ao máximo para garantir que seja ele quem escolherá o próximo candidato do partido. Até creio que Trump tentará encontrar uma forma de controlar essa pessoa."
CHARLES H. STEWART III, professor de ciência política do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)
VETO NA CABEÇA...
A julgar por uma imagem publicada em sua plataforma Truth Social, o presidente Donald Trump tem na cabeça o que pretende fazer pelos próximos dois anos. O titular da Casa Branca divulgou a foto de um boné vermelho e branco, as cores do Partido Republicano, com a palavra "Veto" em caixa alta. Como chefe do Executivo, Trump tem a prerrogativa de utilizar o poder de veto e barrar os projetos de lei aprovados pelo Congresso. Em entrevista ao The New York Post, na segunda-feira, véspera das eleições de meio de mandato, o líder republicano afirmou: "Acho que vamos nos sair muito bem. Mas, se não vencermos, eu veto tudo. Vou vetar, vetar". "Acho que vou virar o 'Sr. Veto'... E, em algum momento, provavelmente faremos acordos", declarou.
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