
Quando o nome de João Bosco é citado para quem acompanha a trajetória do cantor, compositor e violonista desde o início da longa carreira, quase que de imediato vem à mente O bêbado e a equilibrista, um clássico da MPB, gravado magistralmente por Elis Regina no álbum Essa mulher, lançado em 1979 pela Philips.
O samba foi tomado como hino da anistia pelos brasileiros que retornavam do exílio após o fim do período sombrio e truculento da ditadura militar. Um dos trechos da letra, escrita pelo poeta Aldir Blanc, de saudosa memória, o parceiro mais frequente de João, diz: "E nuvens/ Lá no mata-borrão do céu/ Chupavam manchas torturadas/ Que sufoco".
Detentor de uma vasta e valiosa obra, João, nascido em Ponte Nova, na Zona da Mata de Minas Gerais, no início da carreira se encontrou com Vinicius de Moraes em Ouro Preto (MG), que o incentivou a seguir em frente. E foi isso o que o levou a se radicar no Rio de Janeiro.
Aos 80 anos, comemorados em julho, ele lançou a primeira parte do álbum Amigos novos e antigos, reunindo composições, contando com a participação de Zeca Pagodinho (Siri recheado e o cacete), Tiago Iorc (Perfeição), Hamilton de Holanda (Nação) e César César Camargo Mariano (Casa de maribondo).
No começo deste mês, João foi distinguido com a medalha UBC, premiação da União Brasileira dos Compositores, como reconhecimento de sua importante contribuição para a MPB e, consequentemente, à cultura do país.
Durante a cerimônia, fez questão de dividir a premiação com os parceiros: "Olhando para a longa caminhada, divido essa distinção com meus estimados parceiros e principalmente com Aldir Blanc, que já não está aqui, mas que, de certa forma, esteve ao meu lado por muito tempo; os intérpretes, que deram vida às minhas composições; e o público, que é quem completa o sentido de cada uma delas. Ser compositor é um ofício do qual me orgulho".
Fundada em 1942, a UBC é a única associação brasileira de compositores sem fins lucrativos, a UBC tem como objetivo principal a defesa e a promoção dos interesses dos titulares de direitos autorais de músicos e distribuição dos rendimentos gerados pela utilização das mesmas, bem como o desenvolvimento cultural.
Para Marcelo Castelo Branco, diretor da UBC, João Bosco é um patrimônio da música brasileira, "como testemunho de nossas perplexidades, desventuras e amores"; e a parceria de João Bosco e Aldir Blanc produziu canções eternas. "De forma sensível descrevem o nosso tempo social, político e afetivo, com nossas contradições, pequenezas e altruísmos". Ele acrescenta: "Enquanto instrumentista, João é um virtuose, um artesão de um som particular, que alia simplicidade com genialidade despretensiosa".
Entre essas canções, podem e devem ser citadas Agnus sei; Bala com bala; Bijuteria; Caça à raposa; Dois pra lá, dois pra cá; De frente pro crime; Kid Cavaquinho; Linha de passe; Quando o amor acontece; O mestre sala dos mares; Pret á porter de tafetá; Ronco da cuíca; e Tiro de misericórdia. Não por acaso, todas clássicos do nosso cancioneiro, na voz do autor e de outros intérpretes.
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