
Evangélico e conservador, o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) transita entre o governo e o bolsonarismo, embora não se alinhe a nenhum deles. Há poucos dias, esteve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e orou com ele e com a primeira-dama Janja, mas isso não quer dizer que o apoie. Na outra ponta, afirma ter dificuldades em defender uma candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto — não o descarta, caso o nome que quer ver eleito, o do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), não ganhe robustez para a disputa. A seguir, a entrevista ao Correio.
O senhor rompeu publicamente com o bolsonarismo e, dias depois, apareceu ao lado do presidente Lula. Essa aproximação é circunstancial ou faz parte de um reposicionamento político definitivo?
Não, essa minha posição é circunstancial. Ela se deve a esta missão — a esta cruzada que tomei para mim — de conscientizar o mundo cristão, principalmente as igrejas evangélicas, de que não temos que ter uma preferência política ou um político de estimação, como se pudéssemos impedir que outros que pensam diferente e são membros da igreja tenham a mesma liberdade. Eu tenho dito que a igreja não é de direita nem de esquerda. Nosso papel é orar pelas autoridades. Estive com o presidente da República em duas ocasiões institucionais em que tive a oportunidade de orar por ele, mas isso não significa alinhamento ou apoio político.
O senhor se define como conservador e evangélico. Como pretende conciliar esse perfil com um eventual apoio formal do PT, especialmente em uma candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro?
Na verdade, eu sou candidato à minha reeleição, ainda que alguns especulem a possibilidade de eu concorrer ao Senado Federal. Não há nenhuma possibilidade real de uma aproximação política com o atual governo, principalmente durante o período eleitoral, e muito menos com o PT. Nossas diferenças ideológicas, de pensamento e de cosmovisão de mundo são bem opostas. Não vejo nenhuma chance de isso acontecer.
Mas, caso haja essa possibilidade, o senhor acredita que existe espaço eleitoral no Rio para um candidato conservador que dialogue com Lula, sem ser identificado como bolsonarista? Que eleitor o senhor pretende representar?
Eu acho que existe esse espaço. Se tivermos a candidatura de algum conservador, principalmente evangélico, as chances são reais, pois há 20 anos a igreja elege um senador no Rio de Janeiro. Isso ocorreu duas vezes com Marcelo Crivella e uma vez com Arolde de Oliveira, que, apesar de ter sido deputado federal por oito vezes, era desconhecido da grande massa e foi eleito senador. No entanto, não sei se a relação direta entre esse possível candidato e o governo Lula traria uma resposta positiva dentro da comunidade evangélica — que em sua maioria não apoia o presidente — e entre os conservadores não evangélicos, que também podem ter dificuldades com ele.
Após as críticas que passou a receber de bolsonaristas, o senhor teme perder uma base importante do eleitorado evangélico? Ou avalia que esse segmento também está em processo de reavaliação política?
Eu não tenho dúvida do que sempre digo: a direita é maior do que o bolsonarismo, pois veio antes dele, e o conservadorismo é maior do que a direita. O conservadorismo perpassa partidos em um campo ideológico. Existe conservadorismo na extrema-direita, na direita, na centro-esquerda e na esquerda raiz, como a sindical. Acredito que estou falando com esse público conservador. Os mais radicais, os "bolsominions" que seguem o Bolsonaro cegamente, nunca votaram em mim. O meu eleitorado é, preponderantemente, a comunidade evangélica. Com eles eu converso e eles me conhecem. Portanto, não creio em um prejuízo eleitoral.
Se reeleito com apoio do PT, como o senhor se posicionaria em pautas sensíveis ao governo, como costumes, políticas sociais e relação com lideranças evangélicas no Congresso?
Primeiro, acredito que não terei apoio do PT nem do governo Lula, pois sou candidato à reeleição e não à majoritária. Respondendo à sua pergunta, há um abismo entre o meu pensamento e o do PT — somos como água e óleo. As pessoas acham que haverá sinergia política porque não estão acostumadas com um político que separa o papel de pastor da missão política. Não haverá alinhamento político, o que há é respeito ao ser humano. Não atacarei o presidente na sua pessoa física nem o adjetivarei negativamente, mas farei uma oposição inteligente e propositiva que pense no Brasil, e não em interesses particulares da direita ou do meu partido.
Pensando nas eleições presidenciais de 2026, o senhor já definiu quem pretende apoiar? Apoiará a reeleição de Lula ou trabalha com a possibilidade de um terceiro nome fora do bolsonarismo?
Eu hipotequei o meu apoio ao governador Ronaldo Caiado há quase um ano. Acho que o nome dele contribui muito para o debate político. Caso ele não consiga viabilizar a candidatura, apoiarei algum candidato que esteja no espectro da direita. Confesso que tenho dificuldades caso esse candidato seja o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas, não havendo outra alternativa, posso avaliar esse apoio.
Em um possível segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, quem o apoiaria?
Eu prefiro ficar em casa. Se houver um segundo turno entre Flávio e Lula, não pretendo me envolver na eleição sistematicamente. Não apoiarei Lula e tenho minhas dificuldades com o senador Flávio, embora isso possa mudar no futuro. Atualmente, não me vejo vestindo a camisa do Flávio. Acho que a direita tem mais a oferecer, o que passa por uma eventual candidatura do governador Tarcísio (de Freitas, de São Paulo) ou de pessoas que já foram testadas no governo.
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