Relações internacionais

Brasil e Índia fecham parceria estratégica

Oito acordo são assinados na visita de Lula a Narendra Modi. Um deles trata de cooperação entre os dois países envolvendo terras raras e minerais críticos. Além disso, novo certificado assegura celeridade e autenticidade nas trocas comerciais

No ato de assinaturas, Lula defendeu o multilateralismo, ao afirmar que os acordos representam uma resposta ao unilateralismo comercial -  (crédito: Ricardo Stuckert / PR)
No ato de assinaturas, Lula defendeu o multilateralismo, ao afirmar que os acordos representam uma resposta ao unilateralismo comercial - (crédito: Ricardo Stuckert / PR)

Brasil e Índia assinaram, neste sábado (21), um acordo sobre minerais críticos e terras raras, considerados estratégicos para cadeias globais de tecnologia, energia e indústria. O Brasil detém a segunda maior reserva global de minerais críticos e terras raras, atrás apenas da China. Esses insumos são considerados fundamentais para setores, como mobilidade elétrica, produção de baterias, semicondutores, equipamentos de alta tecnologia e transição energética, o que confere ao país posição estratégica no cenário internacional.

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Logo após a assinatura do acordo, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi afirmou que o entendimento representa um avanço relevante para a relação bilateral. "O acordo assinado sobre minerais críticos e terras raras é um grande passo em direção a construir cadeias de suprimentos resilientes", disse.

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Em seguida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou os avanços da Índia, afirmando que existem outras possibilidades de cooperação entre ambos os países. "É notável a evolução indiana em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração especial. Isso cria muitas oportunidades de cooperação com o Brasil e traduz nosso compromisso com uma agenda que coloca tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo. Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje", afirmou Lula.

Ao todo, foram assinados oito acordos entre Brasil e Índia. Houve memorandos de entendimento nas áreas de comércio, empreendedorismo, defesa e saúde. Segundo Modi, a cooperação farmacêutica está entre as prioridades da parceria bilateral. "Nós temos possibilidades ilimitadas de cooperação na área de saúde, na área farmacêutica e nós vamos trabalhar em melhorar o fornecimento de medicamentos a preço acessível e de qualidade para o Brasil", disse o primeiro-ministro indiano.

Segundo Lula, a assinatura desses acordos também demonstram uma resposta ao unilateralismo comercial. "No mundo de hoje, a conectividade e a diversificação comercial viraram um sinônimo de resiliência diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial", disse Lula

Avanço limitado

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha, que também está em Nova Délhi e representou a Confederação Nacional da Indústria (CNI), na missão, os acordos assinados são importantes, mas segundo ele, ainda modestos, diante do porte das duas economias. Ele comparou os números com outros parceiros estratégicos do Brasil. "O nosso comércio com a Índia é de U$ 15 bilhões. É muito pequeno pelo potencial e, sobretudo, se a gente olhar, inclusive, a questão da complementaridade das ações entre os dois países. O nosso comércio com a China são U$ 150 bilhões, o nosso comércio com os Estados Unidos e com a União Europeia estão na casa de U$ 100 bilhões", destacou.

Segundo o dirigente, apesar do crescimento recente, o avanço ainda é limitado. Ele ressaltou que há espaço para ampliar a cooperação entre Brasil e Índia em setores estratégicos. "Nós temos muito que cooperar juntos. Nós temos os dois grandes produtores de alimentos. Temos a área farmacêutica, área de defesa, área de energia, área de mineração, entre outras questões que podem ser ampliadas", frisou.

Ele citou a cooperação na área de biocombustíveis, como acordos de sucesso, realizados entre ambos os países. Rocha confirmou ainda, ao Correio, que o ambiente político entre as lideranças é positivo. "Nós trouxemos, há quase 10 anos, o programa da mistura do etanol na gasolina. Eles começaram com 2% e hoje já misturam quase 20%", afirmou.

O empresário revelou, ainda, que os países firmaram compromisso para alcançar negócios que cheguem até U$ 20 bilhões até 2030, ressaltando que o potencial é ainda maior. "O Brasil fez agora um compromisso de tentar chegar até 2030 com U$ 20 bilhões, que já é um salto interessante, mas nós temos um potencial para chegar aos mesmos U$ 100 bilhões que nós temos hoje, por exemplo, com a Europa ou com os Estados Unidos", finalizou.

Modernização

Um dos acordos assinados ontem trará avanços na modernização das operações comerciais entre os dois países, que passarão a adotar Certificados de Origem Eletrônicos (COE) no comércio bilateral. A medida deve reduzir custos, prazos e burocracias para exportadores e importadores, especialmente no âmbito do acordo entre o Mercosul e o país asiático. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja hoje para a Coreia do Sul e retorna ao Brasil na terça-feira.

O Memorando de Entendimento foi assinado pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, que integra a comitiva presidencial.

O documento confere validade jurídica a certificados emitidos e assinados de forma totalmente eletrônica, substituindo procedimentos físicos ainda exigidos em parte das operações comerciais.

Segundo o governo brasileiro, com a adoção do novo sistema, o tempo de emissão dos certificados poderá ser reduzido de até 48 horas para cerca de duas horas. "É um avanço concreto na facilitação do intercâmbio bilateral. Ao reduzir custos, prazos e burocracias, criamos condições para ampliar e diversificar o comércio, fortalecendo uma parceria estratégica com grande potencial de crescimento", afirmou Rosa.

A iniciativa está alinhada à agenda de facilitação de comércio do Mdic e permite que operadores comerciais de ambos os países emitam certificados de origem de forma digital, simplificando os processos de exportação e importação. Além da agilidade, o sistema eletrônico assegura autenticidade e integridade das informações por meio de assinaturas digitais, o que eleva os padrões de segurança e confiabilidade dos documentos e contribui para a redução de fraudes.

Segundo dados oficiais, a Índia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil na Ásia e o quinto maior no mundo. Em 2025, as exportações brasileiras para o país asiático somaram cerca de US$ 7 bilhões, enquanto a corrente de comércio superou US$ 15 bilhões. A expectativa do governo é de que a digitalização dos certificados contribua para ampliar esses números nos próximos anos, ao reduzir entraves operacionais e tornar as transações mais competitivas.

 


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postado em 22/02/2026 03:29
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