A situação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se insustentável como ministro-relator da investigação sobre o Banco Master depois que ele admitiu, em uma nota divulgada na manhã de ontem, participação em uma empresa que fez negócios com um fundo de investimentos ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. O magistrado é sócio oculto, com dois irmãos, da Maridt Participações, que até fevereiro de 2025 era uma das donas do resort de luxo Tayayá, em Ribeirão Claro (PR).
A Maridt (que os investigadores da Polícia Federal suspeitam ser um acrônimo que une as duas primeiras sílabas de Marília, cidade natal do ministro e dos irmãos, com as iniciais do sobrenome Dias Toffoli) foi fundada em 2020 e, em dezembro daquele ano, tornou-se sócia do Tayayá. Em setembro de 2021, recebeu R$ 3,1 milhões de um fundo chamado Arleen, quando vendeu uma parte que tinha no resort — conforme registrado na Junta Comercial do Paraná.
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O Arleen investiu R$ 20,7 milhões nas empresas responsáveis pelo empreendimento turístico, a DGEP e a Tayayá, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas o Arleen recebeu R$ 19,9 milhões do Leal, um fundo de investimentos cujo único cotista é Fabiano Zettel, genro de Vorcaro. Ele foi preso preventivamente na segunda etapa da Operação Compliance Zero, desfechada pela PF em 14 de janeiro. A determinação pela detenção partiu do próprio ministro.
A exposição de Toffoli, porém, complicou-se depois que as investigações conseguiram determinar que o Arleen e o Leal eram geridos pela Reag Investimentos, de João Carlos Mansur, que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central (BC). Alvo da Operação Carbono Oculto — lançada pela Polícia Civil de São Paulo, pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Receita Federal em 28 de agosto de 2025 —, a Reag estaria envolvida na lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Além disso, assim como Zettel, Mansur foi um dos alvos da segunda etapa da Compliance Zero.
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Sem amizade
Na nota que divulgou mais cedo, o ministro garantiu que não tem "relação de amizade" com Vorcaro e afirmou que "jamais recebeu qualquer valor" pago pelo ex-banqueiro. Tais explicações vieram depois que o diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, entregou, na noite de quarta-feira, um relatório ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre menções a Toffoli encontradas no celular do ex-dono do Master — que incluem diálogos entre eles.
Toffoli assegura que a Maridt é uma empresa familiar e que ele faz parte do quadro societário, mas que a administração fica a cargo de seus irmãos. Argumenta, ainda, de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, não há impedimento para que juízes integrem o quadro societário e recebam dividendos de empresas, desde que não exerçam a administração.
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O ministro afirmou que assumiu a relatoria do inquérito sobre a venda do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB) somente quando a Maridt não mais fazia parte do Tayayá. Mais: disse que desconhecia ser Fabiano Zettel o gestor de um dos fundos que negociou com a Maridt.
"O ministro desconhece o gestor do Fundo Arleen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado, Fabiano Zettel", diz a nota. (Com Iago Mac Cord e Agência Estado)
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