
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixou, ontem, a relatoria da investigação sobre a compra Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). A decisão foi anunciada em uma nota assinada pelos 10 integrantes da Corte, depois de uma reunião que durou mais de três horas. Ele vinha sendo alvo de uma série de questionamentos e acusações de suspeição, que se agravaram depois que o relatório da Polícia Federal (PF), entregue pessoalmente pelo diretor-geral da corporação, Andrei Passos Rodrigues, ao presidente do STF, Edson Fachin, mostrou as menções que Daniel Vorcaro faz ao magistrado, depois de perícia no celular periciado do ex-banqueiro. O novo responsável pelo caso é o ministro André Mendonça.
A polêmica atuação de Toffoli vinha provocando intenso desgaste na Corte. Nos bastidores, os comentários eram de que havia um grande desconforto não apenas devido à atuação do ministro no inquérito, mas pela exposição do STF às críticas. Avaliava-se, também, que era preciso encontrar uma solução que não deixasse o magistrado isolado e exposto, mas que não aprofundasse uma crise inédita no Supremo.
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A saída veio por meio de um comunicado, no qual os ministros mantém o integral apoio a Toffoli. Afirmam que as decisões anteriores do magistrado serão mantidas e informam "não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição". Frisa, ainda, o respeito à “dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento". "Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República", observa um trecho do comunicado.
Porém, no fim do texto, salienta que foi o próprio Toffoli quem pediu para deixar a condução do inquérito. "Registram, ainda, que a pedido do ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição", observa. Pouco depois, era anunciado que Mendonça conduziria a investigação.
A atuação de Toffoli vinha sendo alvo de questionamentos e críticas desde 2025 (veja abaixo a linha do tempo). A crise, porém, se agravou nas últimas horas, a partir do relatório da PF sobre as menções ao ministro no celular de Vorcaro. Tal conteúdo está sob sigilo e sob a guarda de Fachin. Na reunião de ontem, que precedeu a dvulgação da nota e a saída de Toffoli do caso, o presidente do Supremo apresentou o documento aos pares. O ex-ministro-relator pode, também, dar explicações sobre as menções.
O relatório elenca telefonemas trocados entre Toffoli e Vorcaro e, também, o envio de um convite para uma festa de aniversário do ministro, além de diálogos do ex-banqueiro com outras pessoas a respeito de pagamentos relacionados ao resort Tayayá, no interior do Paraná. Em nota divulgada ontem, antes de deixar a condução das apurações sobre o Master, o magistrado admitiu que recebeu dividendos como sócio da Maridt Participações, que tinha participação no complexo turístico e a vendeu a um fundo de investimento sob suspeita (leia na página ao lado).
De acordo com a investigação, o magistrado era sócio anônimo da Maridt, oficialmente administrada pelos dois irmãos dele: o engenheiro José Ticiano Dias Toffoli e o padre José Eugênio Dias Toffoli. A companhia era dona de 33% do Tayayá. Na transação, aparece o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.
A PF não pediu expressamente a suspeição de Toffoli, mas enumerou dados encontrados no celular do ex-banqueiro que poderiam se considerados fatores impeditivos para que o ministro permanecesse não somente na relatoria, mas, também, no julgamento do caso no plenário da Corte.
Relatório grave
Antes da reunião, Toffoli sinalizara que não deixaria a condução do inquérito. Mesmo pressionado, insistiu que não via motivos para se afastar. Os demais ministros, porém, consideravam a situação crítica, pois avaliavam que o relatório da PF era “grave”. Assim, a permanência do magistrado à frente do caso Master contaminaria a Corte.
Na semana passada, ao manifestar-se contrariamente à criação de um Código de Ética no STF, Toffoli defendeu a participação de magistrados em empresas. “Vários magistrados são fazendeiros, vários magistrados são donos de empresas e eles, não exercendo a administração, têm todo direito de receber os seus dividendos”, enfatizou, em debate no plenário.
O código, inclusive, é dos motivos pelos quais Fachin se colocou a favor da saída de Toffoli do caso. O presidente do Supremo tenta conter a crise e restabelecer a confiança da opinião pública na Corte. Na abertura do Ano Judiciário, fez um discurso enfático em defesa de uma "autocorreção" do Supremo, admitindo que o tribunal precisava retornar ao equilíbrio institucional.
A investigação da PF indica que o BRB realizou operações consideradas irregulares com o Master, numa tentativa de dar fôlego à instituição, enquanto o Banco Central analisava a proposta de aquisição. O Banco de Brasíia chegou a formalizar a oferta em março do ano passado, mas o negócio foi vetado pela autoridsade monetária.
Depois de enviado o relatório da PF a Fachin, Toffoli se defendeu e disse que a corporação partia de ilações e que não tinha legitimidade jurídica para pedir a suspeição por não ser parte do processo. O ministro afirmou que esclareceria os pontos levantados pelos investigadores no documento.
Como última decisão à frente do inquérito do Master, Toffoli determinou que a PF enviasse os dados de todos os celulares apreendidos e periciados na investigação. Determinou que a PF encaminhasse, na íntegra, o conteúdo dos aparelhos e mídias apreendidas, além dos laudos periciais — incluindo dados telemáticos, informáticos e telefônicos. A ordem foi considerada incomum, pois, segundo os investigadores, poderia comprometer a apuração, uma vez que o ministro era um dos citados no relatório.
Linha do tempo
2025
3 de setembro — Banco Central nega a compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasíia. A decisão da diretoria colegiada da autoridade monetária foi unânime devido aos riscos elevados, falta de viabilidade econômico-financeira e incompatibilidade dos ativos da instituição de Daniel Vorcaro com o perfil do BRB
18 de novembro — A primeira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, focou no Master e em Vorcaro, ao investigar um esquema de fraudes bilionárias, com a concessão de créditos falsos e emissão de títulos sem lastro. O ex-banqueiro foi preso quando tentava embarcar para Dubai em um jato particular, onde, supostamente, levaria adiante entendimentos para a venda do Master ao grupo Fictor.
18 de novembro — No mesmo dia, mas horas depois, o BC decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimento S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, bem como Regime Especial de Administração Temporária (RAET) do Banco Master Múltiplo S/A. Todas compõem o conglomerado Master.
28 de novembro — Depois da prisão de Vorcaro e a liquidação do Master pelo BC por fraudes estimadas em R$ 11 bilhões, Toffoli é sorteado relator da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF).
2 de dezembro — O ministro decreta sigilo absoluto sobre o caso, restringindo o acesso a informações sobre o pedido da defesa de Vorcaro para anular atos da Justiça Federal.
3 de dezembro — Toffoli traz para si a competência de toda a investigação que corria na primeira instância da Justiça. Ele valida as medidas cautelares anteriores, mas determina que o caso siga exclusivamente no STF, alegando o envolvimento do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem prerrogativa de foro.
24 de dezembro — Toffoli determina a realização de uma acareação entre Vorcaro, o diretor de Fiscalização do BC, Aílton Aquino, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
30 de dezembro — O que seria uma acareação entre Vorcaro, Aquino e PHC torna-se numa sessão de depoimentos — na sequência é que houve a acareação apenas entre Vorcaro e PHC. A autoridade monetária tentou impedir a sessão — considerou-a uma "armadilha processual" —, mas Toffoli manteve a ordem, ouvindo as partes sobre a venda de carteiras de crédito supostamente falsas do Master ao BRB. As oitivas aconteceram no STF e foram conduzidas pela delegada federal Janaína Palazzo. O juiz auxiliar do ministro, Carlos von Adamek, acompanhou a sessão e tentou fazer com que a agente federal lesse perguntas elaboradas pelo gabinete do magistrado, o que ela recusou. A sessão foi marcada pelo mal-estar entre a PF e o ministro.
2026
6 de janeiro — Toffoli autoriza a quebra de sigilo fiscal e bancário de 101 pessoas e empresas ligadas ao esquema do Master e determina o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens.
14 de janeiro — PF desfecha a segunda fase da Operação Compliance Zero. Além do bloqueio dos R$ 5,7 bilhões, foram apreendidos R$ 97 mil em espécie e itens de luxo, como relógios e veículos. Os alvos da operação foram o empresário e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel (apontado como intermediário do ex-banqueiro com os bastidores políticos), o empresário Nelson Tanure, o financista José Carlos Mansur (dono da Reag Investimentos, liquidada extrajudicialmente pelo BC no dia seguinte) e Felipe Cançado Vorcaro (primo e então sócio do ex-banqueiro).
14 de janeiro — No mesmo dia, Toffoli determinou que a PF justificasse o atraso na deflagração da segunda fase da Compliance Zero. Criticou a corporação por "inércia" e de "inobservância expressa e deliberada" de sua decisão.
15 de janeiro — O ministro determina quais os peritos da PF poderiam analisar os celulares de Vorcaro, gerando mal-estar com a PF.
21 de janeiro — Toffoli agenda os depoimentos de diretores do Master e do BRB para 26 e 27 de janeiro, mas nega o pedido da PF para ouvir Vorcaro novamente. Argumenta que ele já havia sido ouvido em 30 de dezembro de 2025.
29 de janeiro — Gabinete de Toffoli afirma que a decisão sobre manter o caso do Master no STF só será tomada depois da conclusão do inquérito.
11 de fevereiro — PF entrega ao presidente do STF, Edson Fachin, relatório com mensagens encontradas no celular de Vorcaro que citam Toffoli. A PF pede a suspeição do ministro.
12 de fevereiro — Toffoli emite despacho determinando que a PF entregue ao STF, imediatamente, todos os dados, laudos e dispositivos apreendidos e relacionados a Vorcaro.

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