
O presidente nacional do Cidadania, deputado Alex Manente (SP), anunciou uma série de medidas judiciais e administrativas para investigar a condução da legenda entre 2023 e 2025. Segundo ele, o período foi marcado por decisões sem respaldo legal, indícios de irregularidades financeiras e disputas internas que comprometeram o funcionamento do partido.
Em publicação nas redes sociais, Manente afirmou que acionará o Ministério Público Federal (MPF) para apurar possíveis crimes relacionados à gestão anterior. Ele também determinou a abertura imediata de processo no conselho de ética da sigla contra os envolvidos. “Como presidente do partido, determinei a instalação da representação no conselho de ética contra todos os envolvidos na tentativa de ruptura institucional. Também ingressaremos com representação criminal no Ministério Público Federal”, declarou.
A ofensiva inclui ainda ações judiciais para reparação de danos morais e medidas regressivas com o objetivo de ressarcir prejuízos supostamente causados à legenda. De acordo com Manente, houve judicialização abusiva, tentativas reiteradas de inviabilizar o funcionamento do partido e uso indevido de recursos, inclusive no âmbito da Fundação Astrogildo Pereira.
Leia também: Janela partidária se encerra nesta sexta-feira e define cenário para 2026
Outro ponto levantado pelo dirigente diz respeito à atuação de Comte Bittencourt, que, segundo a atual direção, nunca ocupou formalmente a presidência do Cidadania, apesar de ter exercido funções de comando por quase três anos. Manente afirmou que registrará um boletim de ocorrência para impedir que Bittencourt continue se apresentando como presidente nacional da legenda, o que classificou como “falsidade ideológica”.
“Não permitiremos que o partido seja tomado de maneira ilegal. Minha relação com o Cidadania não é de hoje, e não deixarei esse partido morrer. Vamos reconstruir a legenda com quem, de fato, quer representá-la perante a sociedade”, disse.
A atual gestão sustenta que decisões tomadas nesse período ocorreram à margem do estatuto partidário e sem reconhecimento jurídico. Parte das apurações deve se concentrar na Fundação Astrogildo Pereira, onde, segundo a direção, há indícios de falhas de governança e de funcionamento em desacordo com as normas internas.
Eleito em 2026, Manente representa a primeira mudança efetiva no comando do Cidadania após décadas de liderança de Roberto Freire. A nova direção afirma que trabalha para encerrar o ciclo de instabilidade interna e reorganizar o partido, com base em 14 decisões judiciais favoráveis obtidas no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), Supremo Tribunal Federal (STF) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Impasse sobre o comando
A crise, no entanto, vai além das acusações recentes e expõe um impasse sobre quem, de fato, comanda o Cidadania. Documentos cartoriais apontam inconsistências nas atas de reuniões realizadas em 2023, que oficializariam a eleição de Comte Bittencourt para a presidência da legenda, em substituição a Roberto Freire.
Entre os problemas identificados estão ausência de assinaturas, versões divergentes dos documentos e lacunas na comprovação de desligamentos de dirigentes.
A disputa interna também foi alimentada por divergências sobre o rumo político da sigla, especialmente em relação à formação de federações partidárias. Parte da legenda defendia alianças diferentes das que acabaram sendo conduzidas, o que aprofundou a divisão interna. Nos bastidores, há avaliações de que Freire teria sido alvo de uma articulação para afastá-lo do comando.
Segundo relatos obtidos pelo Correio sob reserva, o imbróglio começou ainda durante um período de afastamento de Freire, quando tentativas de formalizar mudanças na direção esbarraram em falhas documentais que nunca foram sanadas. A ausência de registros válidos em cartório travou o reconhecimento das decisões internas e abriu espaço para uma disputa prolongada na Justiça.
Ainda de acordo com essa fonte, o conflito evoluiu com sucessivas decisões judiciais em diferentes instâncias, sem que houvesse, até o momento, uma definição de mérito capaz de pacificar a questão. O cenário resultou em uma espécie de “dupla narrativa” dentro do partido, com grupos distintos reivindicando legitimidade.
O impasse jurídico, ainda em curso, tem provocado insegurança interna e dificultado a reorganização da legenda, inclusive na montagem de chapas e na definição de estratégias políticas para os próximos pleitos.
O Correio entrou em contato com Comte Bittencourt, mas não quis se pronunciar. Segundo ele, "a luta do interna do partido esta estabelecida. Já o diretor da Fundação, Marcelo Aguiar, disse a reportagem que "a Fundação é fiscalizada pelo Ministério Público do DF, que acompanha toda a legalidade das ações da Fap. Se houvesse alguma ilegalidade ou impropriedade em seu funcionamento, já teria sido identificada pelo MP. Por isso acho que o vídeo é mais sobre o partido que a fundação, que se manteve todo o tempo longe dessa disputa política".

Política
Política
Política
Política
Política
Política