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Adversários de Flávio sobre áudio a Vorcaro: entre alfinetadas e prudência

Reações distintas a respeito dos diálogos entre senador e banqueiro preso: Renan pede investigação; Zema vira alvo dos bolsonaristas; Caiado opta pela prudência; e Lula lembra que "mentira tem perna curta"

Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência -  (crédito: Andressa Anholete/Agência Senado)
Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência - (crédito: Andressa Anholete/Agência Senado)

O dia nos comitês de campanha dos adversários do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na raia da direita da corrida presidencial, foi de avaliação dos estragos que os áudios do filho 01 de Jair Bolsonaro provocaram nas pretensões do até então favorito para ir ao segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro. O candidato do Missão, Renan Santos, informou que pedirá ao Ministério Público Eleitoral uma investigação de suspeita de caixa 2 na campanha bolsonarista. Ele quer que seja apurado o destino do dinheiro que o banqueiro Daniel Vorcaro teria repassado ao pré-candidato do PL para bancar a produção do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente.

Segundo investigação da Polícia Federal (PF) que subsidiou a sexta fase da Operação Compliance Zero — autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do processo que investiga as fraudes do Banco Master —, conversas entre Flávio e Vorcaro revelaram que a relação entre os dois ia além da amizade: envolvia muito dinheiro.

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Para o candidato do Missão, os milhões negociados para o longa-metragem pode esconder um esquema de ocultação e lavagem de dinheiro para, entre outras finalidades, irrigar a campanha eleitoral de Flávio. Ele cobrou dos ex-governadores Ronaldo Caiado (pré-candidato à Presidência pelo PSD) e Romeu Zema (pré-candidato pelo Novo) que o apoiem no pedido de investigação.

"É muito possível que seja um esquema de caixa 2. Isso precisa ser investigado pelo Ministério Público Eleitoral (MPE). Vou propor um convite aos meus amigos pré-candidatos Zema e Caiado. Vamos protocolar, juntos, uma representação no MPE para que se investigue esse possível uso de dinheiro sujo do Vorcaro na pré-campanha do Flavio?", provocou.

Zema passou a semana em Nova York, onde participou de uma série de eventos com empresários e políticos. Ele retorna hoje ao Brasil e, amanhã, participa de um encontro do Novo em Belo Horizonte. O pré-candidato adotou uma postura agressiva contra o adversário do PL, após a divulgação dos áudios. "Flávio Bolsonaro: ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável, é um tapa na cara dos brasileiros de bem", disparou, em um vídeo gravado poucas horas depois da divulgação dos áudios pelo site The Intercept Brasil.

Nas redes, a reação de Zema foi criticada por bolsonaristas de todo o país. A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) declarou que Zema é "uma decepção total" e que ele "não esperou nem uma hora para pisotear na cabeça de Flávio Bolsonaro". Lideranças do Novo nos estados do Sul também se queixaram da postura do pré-candidato do partido. Mas o time que coordena a pré-campanha diz que o ex-governador de Minas não vai mudar de postura.

A avaliação do staff eleitoral é de que o tom deve ser mantido, porque deu muita visibilidade ao discurso de moralidade pública do candidato, apesar das reações. "Se Zema não fizer isso, para que ser candidato?", provocou um interlocutor do político mineiro. Para a equipe, Zema demarcou seu território e avisou que não vai ser vice de ninguém, lembrando que ele fora cotado para as chapas de Tarcísio de Freitas (que desistiu de sair candidato ao Palácio do Planalto e preferiu tentar a reeleição ao governo de São Paulo), Ratinho Jr. (que abdicou de concorrer a qualquer cargo nas próximas eleições e levará o mandato de governador do Paraná até o fim) e do próprio Flávio. Ontem, Zema não movimentou suas redes sociais.

Caiado, por sua vez, passou o dia em uma reunião do diretório goiano do PSD, em Goiânia — encontro que já estava agendado. Segundo o Correio apurou, a avaliação do staff é que o ex-governador de Goiás acertou o tom da repercussão, ao priorizar a união da direita contra Lula e cobrar explicações de Flávio sem pré-julgamentos. "A hora é de ter calma, não se emocionar", comentou um dos articuladores da pré-campanha ouvido pela reportagem. Esse tom será mantido nos próximos dias.

A avaliação no entorno de Caiado é que a reação mais agressiva de Zema não foi bem recebida nas redes e gerou muitas críticas ao candidato do Novo, alimentando a expectativa de que o ex-governador goiano seja o melhor nome para unificar o eleitorado anti-Lula, caso a postulação de Flávio naufrague.

Caiado vem recebendo, inclusive, mensagens de apoio de líderes evangélicos, que podem marchar com o candidato do PSD, caso a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não assuma a tarefa de substituir o enteado. Ela ainda é o nome preferido das grandes igrejas evangélicas, mas insiste que sairá candidata ao Senado pelo Distrito Federal.

Memes e redes sociais

Nas hostes petistas, a ordem é amplificar o escândalo. As redes sociais foram inundadas, nos últimos dois dias, por vídeos, fotos e, principalmente, memes relacionados ao pedido de dinheiro feito por Flávio a Vorcaro. Ministros, parlamentares e influenciadores do campo da esquerda publicaram centenas de posts cobrando explicações do filho 01 e principal adversário de Lula nas eleições, segundo as pesquisas de intenção de voto. O próprio presidente comentou o caso, sem citar o nome do pré-candidato do PL, em discurso na Bahia, ontem.

"Vocês estão vendo na televisão, a verdade tarda, mas não falha. Minha mãe dizia que mentira tem perna curta e que ela pode causar prejuízo", provocou Lula em uma entrega do Minha Casa Minha Vida em Camaçari. Mais tarde, ao visitar uma fábrica de fertilizantes, voltou ao assunto, mesmo ressalvando que não iria fazer comentários sobre Flávio. "É um caso de polícia, não meu. Não sou policial, não sou procurador-geral. O caso dele (Flávio) é de polícia", disse o presidente.

Os áudios de Flávio, porém, municiaram o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, que reforçou o vínculo do banqueiro preso com a família Bolsonaro e citou as doações que Vorcaro fez às campanhas de Bolsonaro à reeleição e à de Tarcísio ao Palácio Bandeirantes, em 2022. "Não existe uma possível relação entre os Bolsonaro e o Master. É uma coisa só", explicou. O ex-ministro também lembrou que o Master foi autorizado a operar na gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, à frente do Banco Central (BC).

"Bolsonaro recebeu doação de campanha do Daniel Vorcaro. Tarcísio recebeu doação de campanha do Daniel Vorcaro. O ministro da Casa Civil (do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira) tem relação com o Daniel Vorcaro. Toda a relação do Daniel Vorcaro é com o governo Bolsonaro. Daniel Vorcaro é rebento do governo Bolsonaro", alfinetou.

Em um evento em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, Tarcísio foi prudente ao comentar as relações de Flávio com Vorcaro. "É uma questão que preocupa, que deve ser esclarecida porque, hoje, esse escândalo do Banco Master está no centro das atenções de todos os brasileiros", disse o governador, que coordena a campanha do candidato do PL no estado. "Flávio precisa continuar dando esclarecimentos à medida que as perguntas forem aparecendo", acrescentou. Ele não crê em abalos na candidatura do filho 01.

 

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postado em 15/05/2026 03:55
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