relações exteriores

Defesa do Pix torna-se bandeira do governo contra tarifaço

O sistema de pagamentos é um dos alvos dos Estados Unidos em meio à ameaça de taxação de 25% de produtos brasileiros. Em reação, presidente Lula enfatiza que o mecanismo é um patrimônio do país e cobra explicações de Trump

Lula disparou contra adversários:
Lula disparou contra adversários: "Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele, e são, na verdade, vendilhões da pátria" - (crédito: Ricardo Stuckert/PR)

Ante a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) de taxar em 25% produtos brasileiros, o governo federal reagiu levantando novamente a bandeira da soberania nacional, tendo como carro-chefe a defesa do Pix. O sistema de pagamentos — que ganhou a confiança da população logo após ser implementado pelo Banco Central, em 2020 — é visto pela gestão Donald Trump como ameaça a empresas norte-americanas que operam com cartões de crédito no Brasil.

No documento divulgado nessa terça-feira pelo USTR, o governo norte-americano apontou que o tratamento dado ao Pix no país é "injusto e discriminatório". "Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix constituem um ônus ou uma restrição ao comércio dos Estados Unidos, ao impor custos aos prestadores de serviços norte-americanos e ao forçá-los a promover seu concorrente brasileiro sem qualquer compensação", destaca o relatório. As empresas de pagamento alegam que o Banco Central privilegia o meio instantâneo aos cartões de crédito convencionais.

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Em evento em Catalão (GO), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou explicações do presidente Donald Trump e citou a "química" que houve entre os dois. "Trump, faz o seguinte, você disse que pintou uma química. Quem anunciou isso (a taxação) não foi você, e nem eu. Então, você me deve uma reunião, e eu lhe devo uma para você", disse. Ele destacou que, no encontro bilateral que tiveram em maio ficou acordado que haveria nova reunião — presencial ou a distância — em 30 dias.

"Eu e você demos 30 dias para nossos ministros negociarem. Então, eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha", pontuou o presidente brasileiro.

O presidente ressaltou que o Pix é um patrimônio nacional, que beneficia a população. Ele levantou um cartaz no qual estava escrito: "O Pix é do Brasil". Lula ainda enfatizou que não quer guerra com os Estados Unidos, mas que o Brasil não baixa a cabeça para ninguém.

Em resposta a Trump, o governo brasileiro defendeu que não haveria justificativa para o que chamou de "medidas unilaterais" contra "patrimônios brasileiros, como o Pix". "O Pix é infraestrutura pública e gratuita de pagamentos instantâneos, operada pelo Banco Central do Brasil e de grande aceitação pela população. Suas regras aplicam-se de forma uniforme e neutra, e empresas norte-americanas participam ativamente desse ecossistema. O Brasil é o segundo maior mercado mundial das duas principais redes de cartão de crédito dos EUA", destacou, em nota, o Planalto.

O vice-presidente Geraldo Alckmin encabeçou uma reunião para alinhar a posição do governo e, junto aos ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, pontuou que o caminho escolhido será prosseguir o diálogo. Ele também antecipou que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, tentará se encontrar com o embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, hoje, em Paris, França, no encontro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Alckmin garantiu que envolverá o setor privado para ajudar na resolução do impasse.

Elias Rosa, por sua vez, apostou que a recomendação dos EUA não deve se concretizar e indicou que, tal como o acertado entre Lula e Trump durante a visita à Casa Branca no começo de maio, ao menos quatro reuniões formais ocorreram, a última, na quinta-feira passada. “Na sexta (passada) pela manhã, equipes técnicas também se reuniram para a discussão de vários aspectos e prestar todos os esclarecimentos", declarou. Ele alertou que a recomendação como está impactaria 21% das exportações brasileiras ao país.

“Temos cerca de 54% do que exportamos para os EUA livre do tarifaço, 25% na seção 232 e 21% é o que ficaria exposto se essa recomendação se convertesse, se essa tarifa fosse aplicada. Os setores mais atingidos seriam os de máquinas, de equipamentos, o que tem valor agregado e traz muito prejuízo. Setor de plásticos, de madeira, de esquadria, papel, calçados, ferro fundido, peixes e crustáceos. Essas são as áreas mais expostas, caso essa proposta se convertesse em tarifas, coisa que a gente acredita que não vai ocorrer”, explicou Rosa.

Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) considerou que as avaliações do USTR resultam de informações “incompletas” sobre os objetivos e funcionamento do Pix e nega as alegações de que o meio de pagamento instantâneo seja discriminatório e privilegiado. “O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica”, rebateu a Febraban.

Clã Bolsonaro

Na cerimônia em Catalão, Lula acusou o clã Bolsonaro de agir contra os interesses brasileiros, numa menção à visita do senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, a Trump, na semana passada.

"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele, e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras", disparou Lula.

O chefe do Executivo lembrou que à época do anúncio da taxação anterior, Flávio comemorou a decisão. "Olha o que ele tuitou: 'Obrigada, Trump. Faça o Brasil livre de novo, queremos o Magnitsky.' A lei pune os brasileiros, que sequestra o dinheiro dos brasileiros que possam ter qualquer coisa nos EUA, inclusive o Alexandre de Moraes, que foi o ministro (do Supremo Tribunal Federal) que condenou o (Jair) Bolsonaro. (...) O outro filho dele também agradeceu ao presidente Trump", recordou.

Alckmin também disparou contra a família do ex-presidente. "Sempre que o diálogo avança, sabotadores agem para prejudicar o país, colocando seus interesses pessoais, eleitorais, acima do interesse do Brasil e do povo brasileiro, porque isso tem reflexo no emprego", frisou.

 

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postado em 03/06/2026 03:55
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