Eleições 2026

De olho em outubro, Lula aposta defesa do patriotismo e da democracia

Com falas mais voltadas à defesa da democracia, o presidente inaugura uma nova fase de comunicação. Segundo especialistas, a reação à relação entre o bolsonarismo e os EUA aproxima o petista ainda mais da população

Comunicação do governo federal passou a combinar a divulgação das realizações da gestão Lula a discursos exaltando valores nacionais -  (crédito: CARL DE SOUZA/AFP)
Comunicação do governo federal passou a combinar a divulgação das realizações da gestão Lula a discursos exaltando valores nacionais - (crédito: CARL DE SOUZA/AFP)

A comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em uma nova fase nos últimos meses. Sem abandonar a defesa das políticas públicas, dos programas sociais e das obras de infraestrutura, o petista passou a incorporar de forma mais recorrente aos discursos temas como soberania nacional, patriotismo, defesa da economia brasileira, fortalecimento da indústria, valorização das instituições democráticas e orgulho nacional. A mudança pode ser observada tanto no conteúdo das falas quanto na forma como o governo passou a apresentar suas realizações.

No início do terceiro mandato, as agendas presidenciais eram marcadas, principalmente, pela retomada de programas sociais, pela reconstrução de políticas públicas interrompidas nos anos anteriores e pela apresentação de indicadores econômicos, como a queda do desemprego, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a retomada de investimentos em áreas como saúde, educação e infraestrutura. As obras do Novo PAC, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida, a expansão dos Institutos Federais figuravam entre os principais eixos dos pronunciamentos do chefe do Executivo.

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Nos últimos meses, entretanto, esse discurso ganhou uma nova dimensão. Sem deixar de destacar as entregas do governo, Lula passou a associá-las, de forma cada vez mais frequente, à defesa da soberania nacional, da democracia e da capacidade do Brasil de decidir os seus próprios rumos. Expressões como "defesa do Brasil", "interesse nacional", "patriotismo" e "indústria brasileira" passaram a ocupar lugar de destaque nas falas do presidente, especialmente durante as agendas públicas realizadas pelo país.

A mudança ocorreu paralelamente ao acirramento da disputa política com as ações de integrantes da família Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas. Nesse contexto, o Palácio do Planalto passou a explorar com mais intensidade a narrativa de defesa dos interesses nacionais, transformando a soberania em um dos principais pilares da comunicação presidencial.

Segundo especialistas, essa transformação não representa apenas uma mudança de linguagem. Ela indica uma reorientação da estratégia de comunicação do governo federal, que passou a combinar a divulgação das realizações da gestão com uma disputa mais ampla por valores, símbolos e narrativas que devem ocupar papel central no debate público ao longo do processo eleitoral.

Tarifaço

Na avaliação de analistas ouvidos pelo Correio, a mudança observada na comunicação do presidente Lula não ocorreu de forma espontânea. Ela é resultado de uma combinação de fatores políticos e eleitorais que levaram o Palácio do Planalto a reorganizar a forma de apresentar as ações do governo e disputar temas que, nos últimos anos, passaram a ocupar espaço central no debate público.

Para o cientista político Pedro Hermílio Villa Boas Castelo Branco, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), um dos principais pontos de inflexão ocorreu após as movimentações dos filhos de Jair Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump em meio ao tarifaço. "A comunicação do governo Lula se fortaleceu desde julho do ano passado, quando o ex-deputado Eduardo Bolsonaro buscou, junto ao governo Trump, incentivar a aplicação de tarifas de 50% ao Brasil. Isso teve uma reação imediata e muito forte porque tratou da questão da soberania nacional", destacou.

Na opinião do pesquisador, o episódio alterou a dinâmica da disputa, e, segundo ele, muitas das movimentações políticas nos últimos meses são consequência dessa ação de Eduardo. Castelo Branco afirma que o movimento permitiu ao governo reorganizar sua agenda e dar maior visibilidade às políticas públicas. "Há uma mudança real e inédita que mostra uma nova arquitetura da comunicação do governo petista: uma ação planejada e direcionada à disputa eleitoral. É um esforço para mostrar com clareza as políticas realizadas, pois muitas vezes se tinha a impressão de que, embora dados macroeconômicos tenham melhorado, como a queda do desemprego e o aumento do PIB, isso não parecia chegar ao eleitor. Portanto, há uma mudança de estratégia", explicou.

Ele lembra as várias críticas que o governo recebia por não conseguir passar de forma clara os feitos à população. "A comunicação do governo Lula vinha sendo muito criticada por não conseguir transmitir o sucesso das políticas públicas. Mas, agora, ganha outra dimensão, tornando-se mais profissional e agressiva diante da agressividade da batalha eleitoral."

Valores

A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aponta que a transformação não se limita à divulgação de obras ou indicadores econômicos. Segundo ela, o presidente passou a disputar também valores. "Essa mudança de um discurso focado apenas em obras e conquistas sociais para uma narrativa de valores — honra, patriotismo e soberania — pode ser explicada pela disputa dos símbolos nacionais, pela defesa da honra das instituições e pela ampliação do conceito de soberania."

Para a pesquisadora, o governo entendeu que apresentar resultados administrativos já não era suficiente para vencer a disputa pela opinião pública. "Lula percebeu que apenas entregar pontes, estradas ou reajustes no salário mínimo não bastava para vencer a batalha da comunicação. O governo entendeu que precisava disputar a identidade nacional", disse.

De acordo com ela, essa transformação representa uma das principais características da atual fase do governo. "Essa transição de um 'Lula realizador de obras' para um 'Lula defensor dos valores da República' parece ser a grande marca do atual momento político", avaliou.

No entanto, mesmo com a percepção de maior destaque do presidente e suas ações, ela acredita que isso não torna as eleições necessariamente mais fáceis, mas torna a vitória possível no cenário atual. "Se Lula mantivesse apenas o discurso antigo de 'obras e bolso cheio', ele provavelmente fracassaria em 2026. Portanto, essa mudança não é um facilitador, é uma estratégia de sobrevivência eleitoral", pontuou.

Maria do Socorro acrescenta que esse novo caminho blinda o presidente. "Ele deixa de ser apenas um 'gerente de obras' (fácil de ser criticado se uma obra atrasar) e passa a ser um 'símbolo da República'. Atacar um símbolo de estabilidade institucional é muito mais difícil para a oposição do que criticar um indicador econômico isolado."

Do confronto ao diálogo

Além da mudança na comunicação pública, os especialistas avaliam que o presidente Lula também ajustou sua postura política ao longo do terceiro mandato. Se, nos primeiros meses de governo, os discursos frequentemente destacavam as dificuldades para governar e os embates com o Congresso Nacional, a estratégia passou a privilegiar a construção de consensos e a defesa da estabilidade institucional.

Para Maria do Socorro, essa mudança ocorreu de forma gradual e está diretamente relacionada ao cenário político. "Se no início do mandato a retórica de Lula era de forte enfrentamento e queixa sobre o empoderamento do Legislativo, o discurso atual migrou para o distensionamento estratégico", observou.

A professora ressalta que o governo passou a evitar confrontos públicos com o Congresso. "Com a chegada de novas lideranças na cúpula do Congresso, a ordem no Planalto passou a ser 'zero conflito público'. Lula mudou o tom para uma postura mais conciliadora e de parceria institucional."

Na avaliação da pesquisadora, essa mudança também influenciou a agenda de temas do governo. Ela diz ainda que essa postura extrapola a política interna: "Penso que, tanto no Congresso quanto na diplomacia, o 'Lula idealista' deu lugar ao 'Lula negociador'".

 

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postado em 05/07/2026 03:55
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