ELEIÇÕES 2026

Crise em série pressiona campanha de Flávio Bolsonaro

Conflitos internos, questionamentos judiciais, desgaste nas redes e episódios controversos colocam o presidenciável do PL em posição defensiva a menos de três meses das eleições

Na tentativa de reduzir os efeitos da disputa e melhorar seu desempenho entre as mulheres, Flávio passou a adotar um discurso mais direcionado a esse público, lançando propostas específicas e defendendo que pautas ligadas à proteção feminina também sejam abraçadas pela direita. -  (crédito: Felipe Marques/Estadão Conteúdo)
Na tentativa de reduzir os efeitos da disputa e melhorar seu desempenho entre as mulheres, Flávio passou a adotar um discurso mais direcionado a esse público, lançando propostas específicas e defendendo que pautas ligadas à proteção feminina também sejam abraçadas pela direita. - (crédito: Felipe Marques/Estadão Conteúdo)

A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta seu período mais delicado desde o início da corrida ao Palácio do Planalto. Em poucas semanas, uma sucessão de episódios colocou o senador no centro de controvérsias políticas, judiciais e eleitorais, obrigando aliados a atuarem em diversas frentes para conter danos e preservar o apoio do eleitorado conservador.

O acúmulo de desgastes inclui a divulgação de áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, os embates públicos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a repercussão da carta de apoio escrita por Jair Bolsonaro — que acabou motivando uma reação do Supremo Tribunal Federal (STF) —, as críticas de setores da direita à estratégia de aproximação com o eleitorado feminino e, a divulgação de uma fotografia ao lado de Luiz Phillipi da Costa de Oliveira, conhecido como “Sicário”, investigado pela Polícia Federal.

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A crise mais prolongada teve origem na disputa interna entre Flávio e Michelle Bolsonaro. O conflito, inicialmente relacionado às articulações eleitorais no Ceará, extrapolou os bastidores do Partido Liberal e ganhou as redes sociais após a ex-primeira-dama afirmar publicamente que se sentiu “humilhada” durante as discussões sobre a formação de palanques estaduais. A crise provocou desgaste na imagem de unidade do bolsonarismo e levou Michelle a se afastar da presidência do PL Mulher, movimento interpretado por aliados como uma perda relevante para a campanha.

Na tentativa de reduzir os efeitos da disputa e melhorar seu desempenho entre as mulheres, Flávio passou a adotar um discurso mais direcionado a esse público, lançando propostas específicas e defendendo que pautas ligadas à proteção feminina também sejam abraçadas pela direita. A mudança, contudo, provocou resistência em parte da base conservadora, que passou a acusá-lo de aderir a bandeiras tradicionalmente associadas à esquerda. Em resposta, o senador afirmou que não havia “virado feministo”, mas apenas buscava ampliar o diálogo com um segmento considerado estratégico para a eleição.

Outro foco de desgaste surgiu após Flávio divulgar nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro. O documento, lido pelo senador, continha uma manifestação de apoio do ex-presidente à sua candidatura e defendia a união do grupo político. A repercussão levou o ministro Alexandre de Moraes a solicitar esclarecimentos sobre a divulgação e a determinar a suspensão, por 90 dias, das visitas de Flávio ao pai, sob o entendimento de que a publicação poderia contrariar as restrições impostas ao ex-presidente. O caso também passou a ser analisado sob a ótica da legislação eleitoral.

Apesar da sequência de episódios, a direção nacional do PL procura demonstrar tranquilidade. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, minimizou a repercussão da fotografia divulgada na última quarta-feira.

“Fotos, nós tiramos com todos que pedem para tirar.”, disse ao Correio.

No Senado, o líder da oposição, Izalci Lucas (PL-DF), também saiu em defesa do presidenciável após a divulgação da carta de Jair Bolsonaro. Para ele, a atitude do senador foi correta.

“(Flávio) acertou, até porque essa carta não foi a primeira. Foi a quinta. O Lula fez isso quando estava preso. O Zanin fez a leitura da Carta aos Brasileiros.”, disse em entrevista à reportagem.

O parlamentar também criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu por 90 dias as visitas do senador ao ex-presidente.

“Infelizmente o ministro Alexandre de Moraes primeiro condenou a 90 dias sem visita e deu 48 horas para apurar. Ou seja, primeiro condena para depois investigar. A Constituição garante essa relação. Não existe preso incomunicável pela Constituição e, mais, ele é advogado no processo e tem direito a tudo isso.”

Questionado sobre a possibilidade de novos fatos surgirem ao longo da campanha, Izalci afirmou não ver motivo para preocupação.

“O PL não tem essa preocupação, pois o próprio Flávio disse que não tem nada que possa comprometer nosso projeto.”

Na Câmara, o líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), adotou o mesmo tom.

“(Flávo) não errou nada, acertou. O erro é o Brasil tá vendo a ditadura da toga, isso aí que tá o erro.”, disse ao Correio.

As declarações reforçam a estratégia adotada pelo partido de atribuir os desgastes a uma suposta perseguição política e judicial, discurso que busca manter mobilizada a base bolsonarista em meio às turbulências da campanha.

Nos bastidores, entretanto, o cenário é mais cauteloso. Fontes ouvidas pelo Correio, sob reserva, relatam preocupação com a possibilidade de surgirem novos vídeos, fotografias ou documentos capazes de gerar desgastes adicionais durante a corrida presidencial. O receio é que eventuais revelações ocorram após as convenções partidárias, quando alterações na chapa se tornam politicamente mais complexas.

Os reflexos já são perceptíveis nas redes sociais. Levantamento da Nexus mostrou que as publicações relacionadas à foto de Flávio com “Sicário” registraram 1.247.615 interações em apenas 24 horas, volume 22% superior ao observado em conteúdos sobre o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos. O dado evidencia a capacidade desses episódios de dominar o debate público e deslocar a discussão sobre propostas e programas de governo.

Para o cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, a sucessão de acontecimentos criou um ambiente desfavorável para a candidatura. “É evidente. Esta série de acontecimentos não ajuda nenhuma candidatura.” Ainda assim, ele pondera que não há elementos suficientes para caracterizar uma crise eleitoral irreversível.

“Só será uma crise estrondosa se a intenção de voto dele ficar abaixo de 29%, porque aí seria perda de capital eleitoral bolsonarista.” Segundo Ricci, a carta divulgada por Flávio teve impacto restrito ao eleitorado mais fiel. “O que parece é que ele engajou a base dele mesmo, a bolha.”

Na avaliação do cientista político, a repercussão da fotografia com “Sicário” acabou neutralizando o efeito positivo que a campanha buscava obter com a mensagem de Jair Bolsonaro. “A foto dele com o Sicário derrubou essa história da carta do Jair na própria base dele. Ficaram perplexos com essa foto.”

Para ele, o principal problema está no acúmulo dos episódios. “A fase dele é péssima. Não dá para analisar separado. Tem que ser no conjunto. Como a própria coordenação da campanha fala, ele está tendo uma crise a cada dois dias.”

O professor de Direito Eleitoral da PUC-SP Roberto Beijato Júnior avalia que ainda é cedo para medir os efeitos eleitorais da sequência de desgastes. “Dizer se a campanha do Flávio ficou enfraquecida ainda é prematuro, porque a gente precisa ver como a equipe dele vai reagir a esses acontecimentos e como o eleitorado vai repercutir isso.”

Segundo ele, o impacto mais evidente até agora é a mudança de postura da campanha. “Ela fica numa posição defensiva porque ele fica justificando uma série de coisas.”

Beijato observa que os conflitos internos da direita contribuíram para ampliar a percepção de fragilidade.

“Enquanto vemos no campo da esquerda os problemas sendo resolvidos nos bastidores, na direita eles são trazidos a público. Fica-se lavando roupa suja em público.”

Na avaliação do especialista, a carta de Jair Bolsonaro fortalece a candidatura dentro do núcleo bolsonarista, mas possui alcance limitado entre eleitores fora desse grupo.

“Ela beneficia a campanha dele para aquele eleitorado estritamente bolsonarista.”

“O Flávio tem um voto muito bem desenhado, que é o voto bolsonarista. O Lula tem um voto muito bem desenhado, que é o voto da esquerda. No meio disso há uma margem de eleitores indefinidos que precisam ser conquistados.”

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postado em 19/07/2026 18:54 / atualizado em 19/07/2026 22:28
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