A participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, extrapolou os limites do evento partidário e colocou a diplomacia entre Brasil e Argentina em conflito.
O apoio explícito do líder argentino foi celebrado por aliados do senador como um impulso à campanha, enquanto governistas classificaram a visita como uma interferência política que acabou agravando a relação entre os dois países. A convenção também terminou sem uma definição sobre quem ocupará a vaga de vice na chapa do PL, um dos principais desafios da campanha neste momento.
Durante o discurso em São Paulo, Milei declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, fez ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, além de defender uma articulação internacional entre governos de direita.
As declarações provocaram reação imediata do Palácio do Planalto. O Itamaraty convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, uma das medidas diplomáticas mais duras adotadas entre países, sob o entendimento de que houve ofensa às instituições brasileiras em território nacional.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, avaliou que a presença do líder argentino agrega força à campanha de Flávio Bolsonaro. Em entrevista ao Correio, afirmou que a participação de Milei tem peso político para a candidatura. “Tudo ajuda muito. O Milei é querido em toda a América do Sul.”
Na avaliação do líder da oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL-DF), o gesto de Milei fortalece a candidatura de Flávio Bolsonaro justamente por aproximá-lo de um movimento internacional conservador.
“Como o Flávio já tem um apoio muito grande, o Milei reforça porque ele representa a direita no mundo. A direita tem ocupado espaços na América Latina e isso fortalece, une ainda mais esse campo político. Dá mais credibilidade e pode ampliar um pouco mais esse apoio”, disse em entrevista à reportagem.
A mesma avaliação foi feita pelo líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB). Ele afirmou que a presença de Milei representa um reforço importante para a candidatura. “Sem dúvida nenhuma, o presidente de um país forte como a Argentina apoiar nosso candidato fortalece muito a nossa caminhada para vencer as eleições e tirar Lula e o PT do poder”, disse.
Para a deputada Bia Kicis (PL-DF), o apoio do presidente argentino simboliza uma convergência política entre lideranças conservadoras. “O apoio do presidente Javier Milei é um reconhecimento da liderança de Flávio Bolsonaro e da sintonia entre aqueles que defendem a liberdade. Portanto, é uma manifestação política importante”, afirmou à reportagem.
Em busca de uma vice
Apesar da demonstração de força internacional, um tema permaneceu sem resposta ao fim da convenção: a escolha do candidato a vice-presidente. O PL ainda negocia alianças para ampliar a chapa e alcançar partidos do campo de centro-direita. Segundo Izalci, a prioridade é encontrar um nome que agregue politicamente.
“A minha vice ideal sempre foi a (senadora) Tereza Cristina (PP-MS). Acho que é quem mais poderia agregar à nossa campanha. Mas ainda depende das articulações. Se o PP não puder compor, teremos que conversar com os Republicanos. É importante fazer uma aliança com o centro-direita”, afirmou.
O senador também citou o nome da ex-presidente da Caixa Econômica Daniella Marques, integrante da equipe responsável pelo plano de governo, mas ponderou que o momento exige um perfil com maior peso político. “A Daniella é mais técnica. Está ajudando no plano de governo, mas não é política. Acho que precisamos agregar mais politicamente ao projeto”, disse.
Bia Kicis confirmou que a definição ainda está em discussão.“O partido está avaliando alguns nomes. Estamos nos aproximando do prazo final para esta decisão e, portanto, logo o Brasil saberá”, afirmou.
A indefinição sobre o vice ocorre em um momento considerado estratégico pela campanha. A escolha deverá buscar ampliar o alcance eleitoral de Flávio para além do núcleo bolsonarista, especialmente entre partidos do centro e segmentos do eleitorado onde o senador enfrenta maior resistência.
Governistas criticam Milei
No campo governista, porém, a visita de Milei foi tratada como um erro político. Vice-líder do PT na Câmara, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) afirmou ao Correio que o presidente argentino enfrenta problemas internos e buscou exportar a polarização para o Brasil.
“A Argentina vive uma grande crise social, retirou direitos dos trabalhadores e dos idosos aposentados e está com alto índice de desemprego. Enquanto isso, seu presidente tem tempo para vir ao Brasil apoiar Flávio Bolsonaro e tentar fazer o retrocesso por aqui. Isso é mais um tiro no pé da campanha de Flávio Bolsonaro”, declarou.
A parlamentar também criticou o conteúdo das declarações feitas por Milei durante a convenção.“O governo do Brasil está tomando medidas do ponto de vista diplomático, porque a atitude de Milei não é só de apoio a Flávio Bolsonaro. É de vir ao território do Brasil, desrespeitar o presidente do Brasil, os brasileiros e brasileiras. Isso mostra que ele não tem postura de chefe de Estado nem de dignidade à altura do povo argentino”, afirmou.
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