Corrida eleitoral

Segurança pública domina os discursos no primeiro dia de campanha

O Correio acompanhou o lançamento oficial das campanhas de Lula, Flávio, Caiado, Santos e Zema — candidatos mais bem colocados na disputa pela Presidência da República. Cada um escolheu seu reduto eleitoral para discursar

Nos próximos 48 dias, o cidadão brasileiro terá a oportunidade de confrontar discursos e discussões com propostas concretas, registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a condução da vida nacional a partir de 2027. Ontem, na largada oficial das campanhas, candidatos ao cargo máximo da República tocaram em temas que, segundos os institutos de pesquisa, mobilizam as preocupações do eleitor. O combate às facções criminosas; os altos índices de feminicídio, educação e saúde foram assuntos presentes nos discursos dos canditados que estão à frente na corrida presidencial.

A polarização entre lulismo e bolsonarismo não deixou de permear as falas dos postulantes, especialmente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL. A pauta do momento no debate entre os dois — a interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nos rumos do país — ocupou boa parte dos comícios de ambos. Se por um lado, Flávio se orgulhou por contar com o apoio do estadunidense, Lula acusou seu oponente de entreguista e defendeu a soberania nacional. Os demais candidatos, por sua vez, criticaram a polarização e se ofereceram como melhor alternativa para pacificar o país.

O Sudeste foi a região escolhida para o lançamento da maioria dos candidatos. Apenas Ronaldo Caiado, do PSD, optou por uma carreata em cidades de Goiás, estado onde foi governador até abril.

Embora seja nordestino e possua maioria nos estados da região, Lula escolheu a cidade de São Bernardo do Campo (SP), onde nasceu politicamente, para marcar o início de sua última campanha. Também em São Paulo, na capital, Renan Santos, do Missão, reuniu os seus apoiadores. Zema, ex-governador de Minas Gerais, falou na cidade de Montes Claros. Também em Minas, Augusto Cury, do Avante, lançou sua candidatura em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Flávio Bolsonaro escolheu a Praia de Copacabana, em homenagem a seu pai.

Lula: De volta às origens sindicalistas

As eleições de 2026 marcam o final da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República, em disputas eleitorais ao cargo máximo do Executivo. Prestes a completar 81 anos, ele concorre pela sétima vez ao posto que ocupa hoje e ganhou em três oportunidades.

Para começar a campanha rumo ao "tetra", como dizem os apoiadores, o petista escolheu a cidade que representa o berço da vida sindical e política do presidente, onde atuou até a década de 1970 como líder do sindicato dos metalúrgicos do ABC. Para mais de 15 mil simpatizantes, Lula organizou um megaevento no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para iniciar a campanha em busca da reeleição em outubro. O encontro durou mais de quatro horas e reuniu grande parte da militância aliada do presidente, incluindo o vice-presidente e também candidato à reeleição na mesma chapa, Geraldo Alckmin, a primeira-dama, Janja da Silva, e uma série de outros candidatos a cargos no Legislativo e em governos estaduais, além de ministros do próprio governo.

O presidente chegou de helicóptero ao estádio no ABC e foi recebido com gritos de "olê, olê, olê, olá", quando entrou no palco principal do evento. Antes de discursar, Lula recebeu a visita de metalúrgicos que trabalharam com ele durante os anos de sindicalismo. O ato fez lembrar, quando líder sindical, reuniu no mesmo estádio, apoiadores de grandes greves, no período de 1978 e 1980, que também pediam o fim do regime militar, além de melhores condições salariais. 

No início do discurso, Lula fez uma homenagem à mãe, Dona Lindu, que faleceu em 1980, durante a greve dos metalúrgicos. Também lembrou de outros "companheiros" que contribuíram para o nascimento do Partido dos Trabalhadores (PT) naquele mesmo ano, como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Hollanda e Antônio Cândido. "Você sempre tem que lembrar das pessoas que te ajudaram a construir esta caminhada e que não estão mais", disse o presidente.

Propostas

Durante o discurso que durou 20 minutos, o presidente levantou propostas que quer implementar nos próximos quatros anos, se for eleito. Um dos assuntos principais que devem permear a campanha, não só de Lula, mas também de outros candidatos nas eleições deste ano, é a segurança pública. O petista prometeu criar o Ministério da Segurança Pública, caso a PEC da Segurança seja aprovada no Congresso Nacional. 

"Se a PEC for aprovada, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir a responsabilidade com estados e municípios, para libertar o povo prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela. Mas, para isso, é preciso mudar a Constituição", condicionou o petista. A proposta emperrada no Senado Federal foi uma das principais medidas que o governo não conseguiu aprovar no Congresso durante os quatro anos de mandato.

A criação do Ministério da Segurança Pública é um dos principais itens que constam do programa de governo de Lula. "Fortaleceremos o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado em maio de 2026. Em cooperação com estados e municípios, vamos avançar no enfrentamento ao tráfico de armas, munições, acessórios e explosivos; asfixia financeira do crime organizado e das milícias; qualificação da investigação de homicídios; retomada de territórios; e fortalecimento da segurança no sistema prisional", promete o documento encaminhado ao TSE.

O programa prevê R$ 10 bilhões do Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS) para estados e municípios realizarem investimentos em equipamentos e infraestrutura.

Lula defendeu que investir em educação é mais barato e apresenta mais resultados contra a criminalidade. Ele criticou a atuação do antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e afirmou que é necessário evitar que os estudantes se tornem "bandidos". "Enquanto eles pegaram R$ 1 bilhão do crime organizado, nós pegamos R$ 35 bilhões. É pegando o dinheiro deles que a gente acaba com a indústria do crime. É fácil matar jovem na favela, mas quem manda está em condomínio de luxo. É preciso acabar com eles para acabar com o de baixo", disse.

Minerais críticos

Sobre as terras raras, o candidato à reeleição também aproveitou para cutucar os adversários, ao afirmar que não vai "entregar" os minerais críticos a outros países, citando Estados Unidos, Rússia e China como exemplos. "A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas deles. Nós queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui, gerar emprego aqui e gerar riqueza, porque eu não quero nem que os Estados Unidos, nem que a Rússia, nem que a China, nem que a França, nem que a Inglaterra, ninguém vai explorar os nossos minerais críticos. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro. Este país está devendo a si mesmo."

Durante o discurso, o petista analisou os dados econômicos para tecer críticas a Bolsonaro. Lula reiterou que sua gestão conseguiu reduzir o nível de desemprego e inflação, além da situação fiscal, apesar de o nível da dívida pública ser o maior desde a pandemia de covid-19. 

"Quem assentou mais terras indígenas, quem assentou mais trabalhador rural, quem gerou mais emprego, quem deu mais aumento de salário, para que a gente possa dizer para eles, sem-vergonha na cara: 'parem de mentir, porque o povo brasileiro não vai aceitar a mentira, e sim, a verdade'", disse Lula.

Flávio: Traços bolsonaristas e Trumpistas

Uma multidão vestida de verde e amarelo foi, ontem à Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, levar apoio ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. O cenário serviu, também, como ato de desagravo ao seu pai, Jair Bolsonaro, por quem os apoiadores clamaram,  diversas vezes, com o grito de "Volta, Bolsonaro".

O senador resgatou símbolos, discursos e bandeiras associados ao pai e, ao mesmo tempo, apresentou as principais linhas do plano de governo para um eventual mandato a partir de 2027. O ato reuniu cerca de 8,9 mil pessoas no horário de pico, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap, em parceria com a ONG More in Common. A margem de erro é de 12%, o que coloca o público entre 7,8 mil e 9,9 mil participantes. A contagem foi feita a partir de imagens aéreas analisadas por software de inteligência artificial.

A escolha de Copacabana para a largada não foi apenas uma decisão logística. A praia se consolidou como um dos principais palcos de manifestações do bolsonarismo no Rio e já recebeu grandes atos em defesa do ex-presidente. Flávio iniciou a concentração por volta das 10h, na Avenida Atlântica, e subiu ao trio elétrico usando uma camiseta verde e amarela com a inscrição "Meu partido é o Brasil".

Ao longo do evento, referências a Jair Bolsonaro se multiplicaram. Um áudio antigo do ex-presidente foi reproduzido para o público em um dos momentos mais emocionantes da manifestação. O ex-governante está em prisão domiciliar após condenação a 27 anos e três meses de prisão.

 

AFP - Brazil's right-wing presidential candidate and senator Flavio Bolsonaro (C) holds hands with his wife Fernanda Bolsonaro and his candidate for Rio de Janeiro governor Douglas Ruas during a campaign rally at Copacaban beach in Rio de Janeiro, Brazil, on August 16, 2026. Brazilians will go to the polls next October 4 once again deeply polarized and under the shadow of U.S. President Donald Trump, who has backed conservative candidates in recent elections in Latin America. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)

"Sei que pareço com ele [Jair Bolsonaro]. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé", discursou. A presença do pai, mesmo ausente fisicamente, foi uma das marcas da primeira aparição eleitoral de Flávio.

No discurso de ontem, Flávio combinou a defesa desse legado com ataques ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Disse que pretende enfrentar o que chamou de "sistema" e afirmou que o país olha para Brasília "com nojo". Também criticou o custo de vida, o endividamento das famílias, a carga tributária e a condução da segurança pública.

Ao falar de economia, prometeu reduzir gastos e cargos e afirmou que conhece o caminho para tirar os brasileiros das dívidas. Em outro momento, relacionou o governo federal às fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O discurso econômico está diretamente relacionado ao programa de governo entregue ao Tribunal Superior Eleitoral. Intitulado Para o Brasil Vencer o Atraso, o documento apresenta uma agenda de redução do tamanho do Estado, corte de despesas e mudanças na política fiscal. Entre as principais propostas está o chamado "tesouraço", que prevê a redução de pelo menos 10 ministérios, corte de cargos e despesas administrativas, combate a supersalários e retomada de privatizações e concessões. O programa também propõe substituir o atual arcabouço fiscal por uma nova regra para controlar as despesas públicas e estabilizar a dívida em relação ao Produto Interno Bruto.

"Eu vou organizar essas contas e vou tirar o Brasil do vermelho. Você vai deixar de ter dívida. Eu vou fazer um tesouraço a partir de janeiro do ano que vem. Vai ser corte nos impostos, na burocracia e na corrupção". 

A segurança pública ocupou espaço central na fala do candidato e no programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Flávio promete classificar facções criminosas como organizações narcoterroristas, seguindo a designação feita pelo governo Donald Trump, que define assim grupos como PCC e CV. Ele também mencionou que vai ampliar o sistema penitenciário, construir cinco novos presídios federais de segurança máxima e criar cerca de 500 mil vagas no sistema prisional em quatro anos.

O presidenciável defendeu ainda a redução da maioridade penal para 16 anos e a responsabilização criminal, a partir dos 14 anos, em casos de crimes graves. As propostas seguem a linha mais dura que o senador vem adotando desde o início da pré-campanha e dialogam diretamente com a principal bandeira do bolsonarismo.

O candidato voltou a mirar o STF. O plano de governo prevê limitar decisões individuais de ministros da Corte e restringir a atuação do Supremo ao papel constitucional que, na avaliação da campanha, deveria exercer. O documento ainda propõe mudanças nas regras de acesso ao tribunal, o fim do foro privilegiado para parlamentares e uma reforma do Judiciário. Flávio defende também o fim da reeleição para presidente da República. São propostas que exigiriam mudanças legislativas e, em alguns casos, alterações na Constituição, o que coloca o Congresso Nacional no centro da execução do programa caso o candidato seja eleito.

 "Eu vou indicar homens e mulheres que serão contra o aborto e contra a liberação das drogas. Não vão perseguir adversário político e voltarão a respeitar a Constituição, dando segurança jurídica no nosso país."

Flávio mencionou a violência contra a mulher e prometeu medidas para combater feminicídios. A pauta faz parte de um esforço maior da campanha para reduzir a resistência entre o público feminino. As mulheres representam 53% do eleitorado, e a candidatura passou a dar maior espaço a propostas de saúde feminina, autonomia financeira, creches e proteção contra a violência.

 

 

 

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