
Embora o irmão e presidenciável Flávio Bolsonaro ainda não tenha vencido a disputa pelo Palácio do Planalto, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro já atua com a desenvoltura de quem pode, futuramente, ocupar um cargo na diplomacia brasileira. Não apenas por se aproximar de nomes da extrema-direita internacional — ele esteve com o presidente argentino, Javier Milei, na quarta-feira, quando participaram da Official Hispanic Heritage Gala, evento organizado para celebrar a herança hispânica nos Estados Unidos —, mas por ter prometido fazer uma campanha de "despetização" do Ministério das Relações Exteriores (MRE).
Uma suposta diplomacia enviesada ideologicamente, conforme enxerga o ex-deputado, foi repudiada pela Associação de Mulheres Diplomatas Brasileiras (AMDB). A entidade divulgou, ontem, nota em defesa das políticas de igualdade de gênero no MRE e demonstra preocupação com declarações de Eduardo que desqualificam estruturas do ministério dedicadas à participação social, à diversidade e à transversalização de gênero. No documento, a AMDB defendeu uma diplomacia "profissional, plural e comprometida com os interesses permanentes do Brasil".
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A nota reage às críticas que o ex-deputado fez à Assessoria de Participação Social e Diversidade (APSD) e à Assessoria Especial para Transversalização de Gênero (AETG). Em publicações nas redes sociais, ele questionou as duas estruturas do MRE e acusou-as de representarem gastos públicos e aparelhamento ideológico da política externa.
A AMDB não cita Eduardo na nota, mas reforça que a promoção da igualdade de gênero integra a defesa dos interesses nacionais e não deve ser considerada incompatível com as prioridades diplomáticas. Ressalta, ainda, que a política externa contemporânea vai além das relações comerciais e de segurança, e que, atualmente, envolve cooperação internacional, direitos humanos, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, proteção de brasileiros no exterior e participação do país na construção de soluções para desafios globais.
Segundo a entidade, o serviço diplomático é uma instituição de Estado, orientada pelas leis nacionais, pelo direito internacional e pelas diretrizes de política externa. Para a AMDB, a competência profissional dos diplomatas deve ser avaliada com base na qualificação, no desempenho e no compromisso com as atribuições públicas. E critica aquilo que considera a desqualificação de servidores e disseminação de suspeitas genéricas sobre a falta de compromisso com o país.
"Uma política externa forte não se constrói pela exclusão de perspectivas, mas pela inclusão, pela pluralidade e pela capacidade de representar a sociedade brasileira em toda a sua diversidade", frisa a AMDB.
Especulações
As especulações indicam que, em caso de uma vitória do irmão, Eduardo poderia assumir a Embaixada brasileira em Washington ou até mesmo ser o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência — posto que, hoje, é ocupado pelo chanceler aposentado Celso Amorim. O filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro tem mantido contatos com representantes da extrema-direita sul-americana, como Milei, com quem esteve no Official Hispanic Heritage Gala, na quarta-feira. O jantar black tie foi no Andrew W. Mellon Auditorium, na capital norte-americana.
O evento organizado pela plataforma Latino Wall Street em parceria com o La Derecha Diario, veículo fundado pelo extremista digital argentino Fernando Cerimedo — que está preso na Bolívia, acusado de ser o mandante de uma tentativa de homicídio da ex-mulher, Nadia Beller, em Santa Cruza de la Sierra, em 17 de agosto. Cerimedo foi, em 2022, um dos disseminadores das mentiras contra as urnas eletrônicas e o sistema de votação.
Milei é aliado dos Bolsonaros e, no fim de julho, participou da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio à Presidência. Ao discursar, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "prisioneiro", o que abriu uma crise diplomática entre Brasil e Argentina. O embaixador em Buenos Aires, Julio Glinternick Bitelli, foi chamado de volta a Brasília e não mais voltou. A representação diplomática na capital argentina pelo encarregado de negócios.
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