CB PODER

José Geraldo defende diálogo após eleição: "É preciso fazer mediações"

Ex-reitor da UnB e dirigente do Instituto dos Advogados Brasileiros avalia os desafios do próximo governo, a polarização, o papel da religião na política e a necessidade de mudanças no Supremo

Para o professor, o período seguinte à votação exigirá disposição para negociar -  (crédito:  Pedro Paulo Cardoso CB/DA Press)
Para o professor, o período seguinte à votação exigirá disposição para negociar - (crédito: Pedro Paulo Cardoso CB/DA Press)

A reconstrução do diálogo entre brasileiros que pensam diferente será um dos principais desafios do país após a eleição presidencial. A avaliação é do jurista José Geraldo de Sousa Júnior, dirigente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Conselho Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Em entrevista aos jornalistas Denise Rothenburg e Ronayre Souza, nesta segunda-feira (19/10), durante o CB.Poder, programa realizado em parceria pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília, ele afirmou que o resultado das urnas não será suficiente para superar a divisão política. Para o professor, o período seguinte à votação exigirá disposição para negociar, reconhecer divergências e recuperar a política como instrumento de convivência democrática. “O aprendizado desses dias para todos, inclusive para as candidaturas, é o aprendizado de resgate da política como mediação para as diferenças e para ultrapassagem de conflitos”, afirmou.

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Ao analisar os cenários para o próximo governo, José Geraldo destacou que qualquer vencedor terá de enfrentar dificuldades para construir consensos e garantir a governabilidade. De um lado, a continuidade da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará lidar com limitações de sustentação parlamentar e com as tensões entre os Poderes. De outro, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o jurista, ainda precisa esclarecer pontos de seu projeto político, especialmente em relação à economia e às mudanças constitucionais defendidas por seus apoiadores. Para ele, a disputa não deve se limitar à vitória de um candidato, mas à capacidade de a sociedade preservar conquistas e definir os rumos do país.

“Espero que nós, enquanto sociedade, possamos ter um papel nesse processo”, declarou. O professor também ressaltou que a participação popular não se encerra no voto: deve continuar por meio do debate público e da mobilização social, como ocorreu durante a redemocratização e a Assembleia Constituinte.

A diferença entre direita, esquerda e bolsonarismo também foi discutida na entrevista. José Geraldo explicou que os campos políticos tradicionais se distinguem pelos projetos de sociedade que defendem: enquanto a esquerda prioriza a inclusão social e a distribuição da riqueza, a direita historicamente se estruturou em torno de privilégios e da concentração de acesso aos bens. Na avaliação dele, o bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como uma corrente ideológica. “O bolsonarismo se incrustou nesse processo. Ele não é direita ou esquerda, ele é ismo”, afirmou.

O jurista relacionou o movimento à expansão internacional de forças de extrema direita, marcadas, segundo ele, pela intolerância e pela resistência à emancipação dos povos. Ao tratar da crise dos organismos internacionais, defendeu a recuperação do direito internacional como instrumento de negociação entre países e de proteção de interesses comuns. “Ou se restaura o direito internacional e ele é o lugar onde você cria mediações confiáveis, previsíveis, negociadas e iguais do ponto de vista do processo de debate sobre como articular interesses comuns, ou você entra na condição de uma guerra generalizada”, alertou.

O uso da religião nas campanhas eleitorais foi outro tema abordado. Para José Geraldo, a presença religiosa na cultura brasileira é legítima e contribui para a formação de referências éticas, mas não deve determinar as decisões políticas. Ele lembrou que o Brasil é um Estado laico e que a liberdade de crença precisa ser preservada sem transformar convicções religiosas em critérios para a condução do poder público. “Quando você faz isso, você rebaixa a religião e você rebaixa a política”, afirmou.

O professor também comentou a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu uma reforma construída por meio de amplo debate nacional. Para ele, a Corte precisa preservar seu papel institucional de mediadora das tensões entre os Poderes, sem que cada ministro atue de forma isolada. José Geraldo avaliou que o tribunal tem capacidade histórica de se reorganizar diante de crises, mas ressaltou a necessidade de discutir os limites das decisões individuais e fortalecer a atuação colegiada.

Questionado sobre a possibilidade de impeachment de ministros do STF em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, José Geraldo observou que os instrumentos legais já existem, mas sua aplicação depende de articulação política e de condições institucionais.

Ele lembrou que processos de impeachment no Brasil foram acompanhados por forte mobilização da sociedade e destacou que mudanças no Judiciário não podem ser conduzidas apenas por interesses de grupos políticos. Na avaliação do jurista, o debate sobre a reforma da Corte deve considerar sua função de contrapoder e a necessidade de preservar a democracia. Ao final, ele retomou a questão central da eleição: mais importante do que identificar quem vencerá é avaliar as consequências do resultado para a população. “A grande questão é saber se a sociedade ganha ou perde”, concluiu.

Veja a entrevista completa:

 

*Estagiária sob supervisão de Rafaela Gonçalves 

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postado em 19/10/2026 17:22
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