Um documento interno produzido pela inteligência da Secretaria Nacional de Comunicação do PT nesta quinta-feira (08) aponta que o algoritmo da Meta pode estar privilegiando a campanha do senador Flávio Bolsonaro e prejudicando as ações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais da empresa. O documento, obtido em primeira mão pelo Correio, aponta que a página de Flávio teria, em média, 2,96 vezes mais engajamento que a de Lula, mesmo tendo 17,2% de seguidores a menos. Procurada pela reportagem, a Meta reconhece que há falha no algoritmo responsável por registrar a quantidade de visualizações nos vídeos.
Parte das informações sobre os eventos identificados nas plataformas da Meta estão sendo usadas para subsidiar uma ação apresentada na Justiça Eleitoral. “Flávio tem 17,2% menos seguidores, mas sua média de curtidas e comentários por publicação é cerca de 2,96 vezes a de Lula. A taxa normalizada pelo estoque de seguidores é 10,23% contra 2,86%. São escalas descritivas de contadores públicos; não percentuais de seguidores únicos que reagiram”, destaca um trecho do relatório.
Em um pedido de abertura de Ação de Investigação da Justiça Eleitoral (AIJE), a coligação Brasil Pronto pra Mais, que inclui o PT, PV e PCdoB, os representantes do grupo político alegam que uma rede de páginas têm sido criadas no Instagram para a realização de collabs, ou seja, publicações em parceria, para impulsionar conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro.
A solicitação de apuração foi aceita e uma investigação está em andamento. “Diante da proibição de recomendação de páginas com propaganda eleitoral nas redes sociais, para além da rede orgânica dos candidatos e partidos políticos ou de contratação de impulsionamento pago nas referidas redes, inúmeras páginas têm sido criadas no Instagram para a realização de collabs e divulgação de propaganda eleitoral”, destaca um dos trechos.
“Para piorar a situação, há páginas que se utilizam de conteúdo eleitoral e do engajamento trazido a partir de posts com desinformação, para auferir receitas financeiras, ou seja, para monetizar com conteúdo eleitoral, de maneira contrária à legislação eleitoral, que proíbe que influenciadores e pessoas em geral lucrem a partir de divulgação de propaganda eleitoral na internet. Em poucas palavras: produzir e divulgar desinformação com ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva virou um negócio extremamente atrativo e lucrativo”, completa o pedido.
A ação afirma ainda que não se trata de atuação de apoiadores ou militantes políticos, mas sim de pessoas ligadas à própria chapa do senador. “Não se cuida, portanto, de excesso cometido por apoiadores anônimos: o conteúdo ilícito é produzido pela própria chapa e distribuído pela estrutura coordenada, o que estabelece o vínculo direto entre o abuso e seus beneficiários”, completa.
Meta reconhece problema
Relatos que circulam nas redes sociais apontam que a contagem de visualizações de vídeos no Instagram deixaria de crescer de maneira considerada anormal justamente quando determinadas publicações começam a ganhar repercussão. Até o momento, porém, não há confirmação de que a falha esteja relacionada a uma ação deliberada para reduzir o alcance de conteúdos políticos ou de publicações ligadas à campanha petista. Porém, a reportagem conseguiu constatar diferença em pelo menos um dos vídeos publicados pelo presidente Lula no reels do Instagram, que apresentava quantidade de curtidas maior que a de visualizações. Diferentemente de outras plataformas, o Instagram não exige um tempo mínimo de permanência no vídeo para contabilizar a visualização.
Em resposta sobre o problema, a Meta reconheceu a existência de uma falha. “Identificamos um problema técnico afetando algumas métricas de vídeos. Estamos trabalhando para resolver essa questão o mais rápido possível”. A manifestação da empresa confirma a existência de uma instabilidade na medição de algumas métricas, mas não esclarece quais vídeos foram afetados, a dimensão do problema ou se houve impacto na distribuição das publicações.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirma que a situação coloca em xeque a integridade das eleições e a igualdade de condições na disputa entre os candidatos. “A combinação entre os expedientes ilegais da campanha de Flávio Bolsonaro com a recorrente falta de transparência da plataforma põe em xeque a integridade das eleições na medida que acaba por beneficiar a candidatura da extrema-direita"
Ao mesmo tempo em que denúncias partem do PT, a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro também se movimenta e informou ter protocolado uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) "desmascarando uma rede de 1.525 perfis do Instagram, ligados por outros 5.882 com coautoria e organizados em 16 grupos para espalhar conteúdo falso e descontextualizado". De acordo com a campanha do senador, o pedido de Ação de Investigação Judicial Eleitoral "é direcionado contra o presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin".
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