Beleza

Skincare sob medida: por que os cosméticos manipulados são a nova aposta

Personalização, segurança e ciência impulsionam o crescimento dos cosméticos manipulados na rotina de cuidados com a pele

Fórmulas feitas para uma única pessoa, com ativos escolhidos de acordo com o tipo de pele, a rotina e até o clima da região onde o paciente vive. Essa é a proposta dos cosméticos manipulados, que vêm conquistando espaço na dermatologia por oferecerem tratamentos mais precisos e alinhados às necessidades individuais, em contraste com os produtos industrializados, desenvolvidos para atender grandes públicos.

Ao contrário do que muitos imaginam, os cosméticos manipulados não representam uma alternativa informal ou menos segura. Eles são prescritos por médicos dermatologistas e preparados em farmácias especializadas, seguindo normas rígidas de controle e qualidade. Segundo a dermatologista Natasha Crepaldi, a principal diferença está na ausência de fórmulas padronizadas. "Na manipulação, cada detalhe é pensado para aquele paciente, o que permite ajustes finos que não são possíveis em produtos industrializados", explica.

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Essa flexibilidade faz com que a manipulação seja especialmente indicada em situações mais complexas ou em peles que não respondem bem aos cosméticos prontos. Acne persistente, melasma, rosácea, dermatite seborreica, manchas e sensibilidade excessiva estão entre as condições que mais se beneficiam dessa abordagem personalizada, além do cuidado no pós-procedimento dermatológico.

Além dos tratamentos específicos, os cosméticos manipulados têm ampliado sua presença nas rotinas diárias de skincare. De acordo com a dermatologista Ana Carolina Sumam, a personalização permite que esses produtos sejam usados tanto na manutenção da saúde da pele quanto em protocolos terapêuticos mais intensivos. "É possível adaptar a fórmula ao longo do tempo, conforme a pele responde ao tratamento ou muda com a idade e o estilo de vida", afirma.

Esse acompanhamento contínuo contribui para um ponto essencial no sucesso do tratamento: a adesão do paciente. Quando o produto é bem tolerado, tem textura adequada e atende às necessidades reais da pele, a chance de abandono diminui, fator decisivo para resultados consistentes a médio e longo prazos.

Personalização como estratégia

A construção de uma fórmula manipulada começa com uma avaliação clínica detalhada. O profissional define quais ativos serão utilizados, em que concentrações, qual o veículo mais adequado e até o pH da formulação. Essa combinação influencia diretamente na eficácia e na tolerância do produto, reduzindo riscos de irritação e reações adversas.

Segundo Ana Carolina, a escolha das concentrações segue critérios técnicos bem estabelecidos. "Existem faixas seguras e eficazes para cada ativo, mas o ajuste é feito de acordo com a sensibilidade da pele, o objetivo do tratamento e a resposta individual do paciente", explica. Esse cuidado é especialmente importante no uso de substâncias potentes, como retinoides e ácidos, que podem trazer excelentes resultados, mas exigem precisão na prescrição.

Alguns ativos, inclusive, apresentam desempenho superior quando manipulados. É o caso do ácido retinoico, ácido azelaico, antioxidantes e combinações clareadoras, que se beneficiam do ajuste de concentração e da escolha correta do veículo. A manipulação também permite associações que não existem no mercado industrial, potencializando os efeitos do tratamento.

Apesar das vantagens, nem todos os pacientes podem usar cosméticos manipulados sem cautela. Gestantes, lactantes, pessoas com histórico de alergias severas ou com doenças dermatológicas inflamatórias ativas precisam de acompanhamento ainda mais rigoroso. Nesses casos, a prescrição deve ser criteriosa e o monitoramento contínuo, reforçando que a personalização não elimina a necessidade de orientação médica.

É preciso ter responsabilidade 

Para que a proposta da personalização se traduza em segurança e eficácia, o papel da farmácia de manipulação é fundamental. A farmacêutica magistral Francielly Bueno, diretora do grupo Farmácia Artesanal, explica que o processo começa com a análise técnica da prescrição. "O farmacêutico avalia a compatibilidade entre os ativos, as dosagens e as bases mais adequadas antes do início da produção", afirma.

A manipulação ocorre em ambientes controlados, seguindo boas práticas e procedimentos operacionais padronizados. Durante o processo, são realizados controles de qualidade que avaliam características como cor, textura, odor, pH e volume final do produto. Após o envase, o paciente recebe orientações sobre modo de uso, conservação e validade.

A procedência das matérias-primas é outro fator decisivo. Insumos certificados, fornecedores confiáveis e armazenamento adequado garantem estabilidade e segurança às fórmulas. Natasha Crepaldi alerta que mesmo uma prescrição bem elaborada pode perder sua eficácia se a manipulação não seguir critérios rigorosos.

Por serem preparados sob demanda e, muitas vezes, com menor quantidade de conservantes, os cosméticos manipulados costumam ter validade menor. Por isso, o paciente deve respeitar o prazo indicado, armazenar corretamente o produto e evitar o uso caso perceba alterações na aparência, textura ou cheiro.

Francielly conta que o crescimento dos cosméticos manipulados também revela uma transformação no próprio mercado de beleza. "Existe um cansaço do consumo genérico e uma valorização de produtos que façam sentido para cada pessoa", afirma. Segundo ela, a manipulação ocupa esse espaço ao oferecer experiências mais próximas, em que o cuidado com a pele deixa de ser apenas tendência e passa a fazer parte de uma escolha mais consciente no dia a dia.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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