Moda

Roupas vintage e peças de arquivo: quando o passado veste o presente

Com o vintage em alta, roupas de temporadas passadas se tornaram a estratégia mais sofisticada da moda contemporânea

O uso de peças vintage e de arquivo de grandes maisons deixou de ser apenas um recurso estético para se consolidar como estratégia narrativa e posicionamento simbólico. Em tapetes vermelhos, estreias e turnês, artistas ativam o passado como linguagem visual sofisticada, conectando repertório histórico, exclusividade e construção de identidade.

Para a consultora de imagem Rafaela Marques, compreender o conceito é o primeiro passo. "Aquilo que é vintage é algo clássico. E o clássico é aquilo que não sai de moda. O que foi bonito hoje vai ser bonito amanhã e continuará sendo bonito depois de amanhã, mas que também foi bonito há 10, 15 anos."

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Essa permanência no tempo transforma o vintage em planejamento. "Isso é uma estratégia de elegância e sofisticação. É uma pessoa que está querendo comunicar que sabe o que é bom e conhece aquilo que sempre foi belo." Ao recorrer ao arquivo, o artista deixa de responder apenas à tendência do momento e passa a dialogar com a história da moda.

Detalhes ilustram essa lógica. "É o relógio analógico de pulseira de metal, aquele mais antigo, muito bonito, ou o relógio de couro discreto, sem muitos detalhes. Uma pérola é algo chiquíssimo, sempre foi e sempre será", exemplifica. O retorno do broche às passarelas reforça a mesma ideia. "O broche é algo extremamente antigo e voltou com tudo. Porque aquilo que é clássico não sai de moda."

Divulgação/Rauph Lauren - A presença de broches no desfile da Rauph Lauren também chamou a atenção

Moda de arquivo

Se, para Rafaela, o vintage comunica elegância e repertório, para Mábel De Bonis, CEO da Fashion Campus, ele representa algo ainda mais estrutural. "Não se trata apenas de nostalgia. Tampouco de estética retrô." Segundo ela, o crescimento do uso da moda de arquivo revela "uma mudança estrutural na forma como imagem, cultura e mercado dialogam."

O "archival fashion" aparece atualmente como ferramenta de linguagem estratégica. "A moda de arquivo não é apenas roupa. É narrativa condensada", afirma Mábel. Em um cenário saturado de lançamentos instantâneos, recorrer ao passado tornou-se gesto de sofisticação intelectual.

Rafaela reforça o papel narrativo do arquivo na construção da imagem. "Arquivo é uma narrativa vestível. Quando uma artista usa uma peça de um desfile icônico ou de um momento histórico da moda, ela está relembrando determinadas épocas com elementos que foram muito elegantes e clássicos." Ao fazer uma releitura sofisticada, a pessoa comunica elegância e conhecimento de moda, traz uma imagem forte de alguém que sabe muito bem o que está fazendo.

Essa escolha também pode dialogar com silhuetas e referências específicas. "Estamos vendo releituras como vestidos de cintura baixa, algo que marcou os anos 2000. É uma releitura do passado em momentos oportunos." Para a consultora de imagem, muitos artistas utilizam o arquivo para homenagear um designer, relembrar alguma época ou reforçar arquétipos de imagem que foram criados.

Mábel observa que, nesse contexto, o vintage opera com três forças estruturantes: memória histórica, raridade e discurso. "Quando um artista veste uma peça de acervo, ele não está apenas escolhendo um look. Está ativando memória cultural, exclusividade estética e posicionamento simbólico." O gesto transforma a roupa em capital cultural ativo.

Legado histórico

O exemplo mais emblemático dessa estratégia, segundo Mábel, foi o método adotado por Margot Robbie na divulgação de O morro dos ventos uivantes. A atriz utilizou peça de arquivo de John Galliano (Primavera/Verão 1992), conjunto vintage de Vivienne Westwood e vestido de coleção 2004 da Roberto Cavalli. Para Mábel, o vintage, nesse caso, "não é ornamento. É extensão do roteiro." A atriz não apenas promove o filme, performa sua atmosfera estética.

Reprodução/Instagram/@andrewmukamal -
Reprodução/Instagram/@andrewmukamal -

A dimensão simbólica também é destacada por Rafaela. "Um acessório vintage comunica legado e respeito à história da moda, porque mostra que o artista não consome moda de forma descartável." Além disso, cria uma exclusividade real e estabelece autoridade estética. Trata-se de demonstrar que há repertório, estratégia e identidade por trás da escolha.

O patrimônio criativo das maisons também ganha nova centralidade. Rafaela lembra que muitas peças que utilizamos hoje foram criadas por grandes maisons. Cita a Chanel como exemplo de códigos visuais que atravessaram gerações e menciona "o famoso vermelho da Valentino", criação da Maison Valentino, que se tornou assinatura atemporal.

Para Mábel, essa valorização aponta para um novo paradigma. "O arquivo deixou de ser apenas reserva patrimonial das maisons. Ele tornou-se capital cultural ativo." Quem acessa arquivo acessa história, quem veste arquivo veste repertório.

Ela também chama atenção para os pilares contemporâneos que sustentam essa tendência. "O vintage dialoga diretamente com sustentabilidade, exclusividade real e identidade autoral." Em vez de consumo descartável, o artista sinaliza curadoria. A economia circular deixa de ser discurso alternativo e passa a integrar a linguagem premium.

Rafaela complementa a dimensão sustentável. "Uma peça clássica, bem feita, não precisa ser descartada." O crescimento do mercado second hand confirma essa mudança de mentalidade, inclusive entre artistas que compram e vendem peças de luxo de segunda mão. No universo da Haute Couture Week, em que as criações são produzidas sob medida e para poucos clientes, reutilizar uma peça significa acessar um grau altíssimo de exclusividade.

Ferramenta de diferenciação

Mas nem tudo é virtude automática. Mábel alerta para o risco de esvaziamento simbólico. "Quando o uso de arquivo vira fórmula repetitiva, sem conexão com narrativa ou coerência estética, ele perde potência e torna-se apenas truque de styling", destaca. O desafio não é escolher entre passado e futuro, mas construir ponte entre eles.

Rafaela concorda que a autenticidade é fundamental. O gesto permanece legítimo quando há coerência com a identidade do artista, continuidade estética e intenção no vestir. "No campo de imagem pessoal, o vintage funciona como ferramenta de diferenciação, recurso de storytelling e estratégia de posicionamento elegante e atemporal", afirma Rafaela.

Mábel amplia a reflexão: "O arquivo não é passado. É ativo de futuro". Em uma era de excesso visual, recorrer ao acervo é desacelerar o olhar e construir autoridade silenciosa. Mais do que tendência, trata-se de redefinir valor. Menos volume, mais memória; menos novidade efêmera, mais significado duradouro.

 


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