Moda

Quando o improvável vira estilo: a arte de combinar cores não convencionais

Combinações não convencionais de cores ganham espaço na moda, rompem regras antigas e transformam o vestir em um exercício de identidade, expressão e ousadia

As vezes as cores podem ser mais discretas -  (crédito: Reprodução/Instagram (@tcreads_clothingexchange) )
As vezes as cores podem ser mais discretas - (crédito: Reprodução/Instagram (@tcreads_clothingexchange) )

Roxo com verde, vermelho com azul, marrom com azul, amarelo com cinza. Durante muito tempo, essas combinações foram tratadas como erros de styling, excessivas, conflitantes ou simplesmente "difíceis de usar". Hoje, elas ocupam as passarelas, o street style e os guarda-roupas de quem vê a moda como linguagem. A mistura de cores não convencionais reflete um momento em que o vestir deixa de buscar apenas harmonia e passa a comunicar personalidade, repertório e atitude.

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Segundo a especialista em tendências de comportamento, moda e beleza Lorena Borja, esse movimento vem se consolidando tanto nas últimas coleções quanto nas ruas. "Estamos vivendo uma moda menos corretinha, menos previsível. Uma moda mais caótica, que mistura referências, estilos e cores diferentes, muito influenciada pela nostalgia, pelos brechós e pela valorização do second-hand", explica. Para ela, essas combinações surgem como contraponto à estética excessivamente minimalista e ao chamado "quiet luxury", que dominaram nos últimos anos.

A presença de cores antes consideradas "improváveis" nas passarelas não é aleatória. Verde-oliva com lilás, rosa com vermelho, laranja com roxo, marrom com azul-royal e até o antigo tabu do preto com marrom vêm sendo ressignificados por direções criativas que entendem a cor como ferramenta narrativa. "Hoje, quase não existem proibições absolutas. O que existe é excesso sem conceito", pontua o personal stylist Fernando Lackman. Para ele, o segredo está na intenção e na hierarquia visual: definir uma cor protagonista e permitir que as outras atuem como apoio.

Como usar

Para incorporar essas combinações ao guarda-roupa, é preciso primeiro entender que esse arranjo funciona melhor quando respeita critérios como temperatura de cor e proporção no look. Fernando dá o exemplo do roxo e verde, que dialogam bem quando um deles aparece em tom mais fechado ou levemente acinzentado, enquanto o outro surge como ponto de luz.

Já vermelho e azul pedem atenção ao tom: um vermelho mais queimado ou terroso conversa melhor com azuis profundos, como o marinho. Marrom e azul funcionam porque unem um neutro quente a um frio clássico, criando sofisticação imediata. "No fundo, trata-se de entender a cor como linguagem visual e não como regra engessada", explica. 

Lorena reforça que dominar essas combinações passa menos por regras rígidas e mais por equilíbrio. "Brincar com intensidade, proporção e tonalidade faz toda a diferença. Um tom mais fechado com outro mais claro costuma funcionar melhor do que duas cores muito vibrantes competindo entre si", afirma. Um exemplo clássico é o roxo com verde: o contraste ganha sofisticação quando um aparece mais profundo e o outro mais suave — ou quando as cores são distribuídas estrategicamente entre parte de cima e parte de baixo do look.

Para iniciar, o estilista aconselha: "Comece aos poucos. Insira cores inesperadas por meio de peças de base neutra, aposte em tons mais fechados e observe o efeito no espelho e na luz natural. O exercício do vestir também é treino de olhar". 

Ele explica que o ponto de cor pode vir em um casaco, um sapato, uma bolsa ou até em um detalhe estratégico, como um lenço ou um cinto. Em looks monocromáticos ou neutros, cores não convencionais funcionam quase como um elemento gráfico, elevando a produção sem exigir grandes riscos.

  • Até mesmo cinza e amarelo podem ser combinados
    Até mesmo cinza e amarelo podem ser combinados Reprodução/Instagram (@linda.sza)
  • As combinações podem trazer contraste e destaque para o look
    As combinações podem trazer contraste e destaque para o look Reprodução/Instagram (@anna.pogribnyak)
  • As vezes as cores podem ser mais discretas
    As vezes as cores podem ser mais discretas Reprodução/Instagram (@tcreads_clothingexchange)

Harmonia e acessórios 

Embora o contraste seja uma ferramenta poderosa, ele não atua sozinho. "Ele traz personalidade, impacto e vida. A harmonia traz estrutura visual e coerente", explica Lorena. Esse equilíbrio, chamado por ela de "contraste harmônico", é o que transforma uma combinação ousada em um look usável, elegante e expressivo.

Fernando concorda e complementa: "O contraste chama atenção, mas é a harmonia que garante sofisticação. Um look precisa ser interessante, mas também funcionar na vida real". Para quem ainda sente receio de experimentar, os acessórios surgem como aliados estratégicos. Bolsas, sapatos, cintos, lenços e até joias podem introduzir cores inesperadas sem comprometer o conjunto.

Um look todo azul pode ganhar novos contornos com acessórios em marrom; um visual neutro pode ser elevado por um sapato amarelo ou uma bolsa colorida. "O streetwear faz isso de forma brilhante", observa Lorena, que também destaca o uso da maquiagem, como um batom vermelho, como extensão dessa brincadeira cromática. Fernando acrescenta que os acessórios podem tanto reforçar a paleta quanto quebrá-la de forma calculada. "O importante é que o contraste pareça proposital, nunca aleatório."

  • Algumas combinações podem ser  mais ousadas
    Algumas combinações podem ser mais ousadas Reprodução/Instagram (@NnennaEchem
  • Acessórios podem servir como complemento
    Acessórios podem servir como complemento Reprodução/Instagram (@DaykotaSchiffelers)
  • Sobrepor com casacos de cores diferentes cria dimensão
    Sobrepor com casacos de cores diferentes cria dimensão Reprodução/Instagram (@carolinelin)

Cor não tem idade, corpo ou gênero

Uma das principais ideias que acompanham essa nova abordagem das cores é a democratização do vestir. Para ambos os especialistas, o uso dessas combinações não convencionais não tem idade, tipo físico ou estilo pessoal. "Cor tem a ver com personalidade, cultura e contexto, não com regras sobre quem pode ou não usar", afirma Lorena. Fernando complementa: "A mesma paleta pode ser minimalista, maximalista, clássica ou fashionista. Tudo depende do corte, do tecido e do styling. A moda se adapta à identidade da pessoa, não o contrário".

Mais do que tendência estética, a mistura de cores improváveis reflete o espírito do tempo. Em um mundo cada vez mais algorítmico e padronizado, vestir bem se torna um ato de autoafirmação. "Quem sou eu? Como quero me expressar?", questiona Lorena. Para ela, essa profusão de cores, estilos e referências é uma resposta direta à pasteurização visual e comportamental contemporânea. 

*Estagiária sob supervisão de Eduardo Fernandes

 

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postado em 04/01/2026 06:00 / atualizado em 04/01/2026 00:00
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