
A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi, estreia nesta quinta-feira (12/2) no Brasil propondo uma releitura do romance publicado por Emily Brontë em 1847. Dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, o filme parte da narrativa original, mas adota uma abordagem própria em relação a personagens, temas e estrutura.
Lançado em 1847 como o único romance de Emily Brontë, Wuthering Heights, como foi batizado em inglês, narra resumidamente uma história de amor disfuncional. O clássico da literatura inglesa gótica acompanha elementos sombrios e paixões obsessivas que beiram a loucura e o sobrenatural — e não um romance erótico.
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Na época, a obra destacou-se por apresentar personagens que sentem ódio, raiva, desprezo e tristeza, não sendo nenhum deles totalmente bons ou maus. Brontë retratou, sobretudo, a humanidade em suas nuances contraditórias, o que diferenciou o livro das narrativas comuns que acompanhavam heróis e vilões, o bem e o mau explicitamente definidos. Em O Morro dos Ventos Uivantes, ao menos na obra original, nenhum personagem ganha a simpatia nem a antipatia total do leitor.
Entre as principais diferenças está o tratamento da relação entre os protagonistas. No livro, a ligação entre Catherine e Heathcliff é construída sobretudo nos planos psicológico e espiritual, já que Catherine morre e assombra o meio-irmão — resposta a um pedido do próprio amante que a implora para que ela não o deixe em paz enquanto ele viver. Já no longa, a dimensão física do relacionamento ganha maior destaque. É nesse ponto que a nova adaptação cinematográfica diverge da proposta de Brontë, cujas palavras descrevem aparições sombrias da presença de Catherine na propriedade de Wuthering Heights. A sensualidade e a sexualidade do casal são enfatizadas, aproximando-os de forma mais explícita do que na obra original, em que o contato físico é limitado.
Outro ponto de mudança envolve a abordagem do abuso e das dinâmicas de poder. Elemento central no romance, o tema aparece no filme com contornos mais ambíguos, ampliando-se para além do casal principal e explorando zonas de tensão entre consentimento, subjugação e humilhação. A adaptação também elimina a segunda geração de personagens presente no livro, que servia para aprofundar a discussão sobre herança de traumas e repetição de ciclos de violência, narrado para um visitante para que entenda o clima fúnebre que cerca a propriedade.
A caracterização de Heathcliff também gerou debate. No romance, ele é descrito como um cigano de pele escura e aparência estrangeira para a Inglaterra do século 19. Na nova versão, o personagem é interpretado por Jacob Elordi, ator branco — escolha que repete decisões tomadas em outras adaptações para o cinema e a televisão. Apenas no longa de 2011, dirigido por Andrea Arnold, Heathcliff aparece fielmente como no livro, vivido por James Howson.
No longa, o sentimento de exclusão do personagem é associado principalmente às diferenças de classe social, mantendo o conflito entre aristocracia e plebe como motor da narrativa. Assim como no livro, a trama acompanha o relacionamento entre uma jovem de família nobre e um homem de origem humilde, e como essa diferença desencadeia vingança, ressentimento e violência.
Esteticamente, o filme adota uma linguagem marcada por intensidade. A trilha sonora é enfatizada, os cenários têm atmosfera onírica e os figurinos apresentam forte estilização. A tensão entre os protagonistas é constante, e o melodrama é acentuado, ainda que algumas das passagens mais duras do romance tenham sido deixadas de fora.
Em determinado ponto da narrativa, o ritmo desacelera durante a fase de maior estabilidade do casal, antes de retomar o desenvolvimento rumo ao desfecho trágico. A adaptação preserva elementos centrais do enredo original, mas os reorganiza sob a perspectiva autoral de Emerald Fennell, com foco concentrado na intensidade da relação entre os protagonistas e nas consequências de seus atos.

Diversão e Arte
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