
O vinho é a bebida que aquece em dias frios e acompanha bem alguns petiscos, mas quando o calor tropical do Brasil pede refrescância, surge uma polêmica: colocar gelo na bebida é considerado “crime” ou apenas liberdade do consumidor? O jornalista e especialista em vinhos Marcello Copello e o enólogo João Góes comentam sobre o assunto.
Mais do que uma questão de gosto, a discussão sobre o gelo toca na própria essência da bebida. O vinho é produzido a partir da transformação da uva em bebida alcoólica por meio da fermentação, em um processo chamado vinificação. A bebida carrega séculos de tradição e técnicas refinadas. Cada tipo - tinto, branco, rosé ou espumante - passa por etapas específicas de produção, e é justamente esse cuidado que especialistas afirmam ser comprometido quando o gelo entra na taça.
Diluição do vinho
O enólogo João Góes explica que, quando o gelo derrete ocorre a diluição do vinho, isso reduz a concentração de álcool, ácidos e compostos aromáticos e fenólicos, diminuindo a intensidade dos aromas, do corpo e do sabor da bebida. Além disso, a temperatura muito baixa reduz a volatilidade dos aromas, podendo deixar o vinho desequilibrado no paladar.
Marcello Copello acrescenta que o gelo pode comprometer a apreciação da maioria dos vinhos, e explica que a prática só faria algum sentido em poucos casos específicos, como em vinhos que foram pensados para isso ou em rótulos demi-sec, que possuem um pouco mais de açúcar e conseguem suportar melhor a diluição. O especialista também comenta que colocar gelo em vinho é algo que existe até mesmo em países produtores tradicionais, como Argentina, França e Itália. No entanto, nesses casos, geralmente são vinhos mais simples, nos quais a diluição não causa tanta diferença, especialmente quando possuem um leve dulçor para compensar a água do gelo.
Impacto do gelo
Para João Goés, todos os vinhos sofrem algum impacto quando o gelo é adicionado. Ainda assim, rótulos mais leves, jovens e com perfil simples como alguns brancos e rosés, que costumam ter menor teor alcoólico tendem a sentir menos essa perdam já vinhos mais estruturados acabam perdendo muito mais de suas características originais.
Copello é ainda mais direto ao comentar o assunto, segundo ele, colocar gelo em um vinho que não foi feito para isso pode “matar” a bebida, diluindo seu corpo e seus aromas. Por isso, o especialista afirma que a prática não faz sentido em vinhos de melhor qualidade.
Apesar disso, ele pondera que o consumidor tem liberdade para consumir o vinho da forma que preferir. “Se quiser colocar açúcar, adoçante, espremer um limão, é uma escolha pessoal. Mas colocar gelo em um vinho comum acaba desfazendo o trabalho feito na produção”, explica. Em contrapartida, ele ressalta que o gelo pode funcionar melhor em espumantes demi-sec, onde a diluição ajuda a refrescar sem prejudicar tanto o sabor.
Como refrescar o vinho corretamente
Para quem deseja consumir vinho mais gelado, Goés explica que o ideal é resfriar a garrafa antes de servir, podendo ser feito na geladeira ou em um balde com gelo e água por cerca de 20 a 30 minutos, dessa forma, a temperatura diminui sem diluir a bebida e sem alterar seu equilíbrio.
O enólogo também recomenda que quem busca uma bebida mais refrescante opte por vinhos jovens, que não passaram por envelhecimento em madeira. Esses rótulos costumam ser mais leves e agradáveis para consumo em dias quentes.
Mudança no perfil do consumidor
João Goés também destaca que o perfil do consumidor de vinho tem mudado nos últimos anos, se antes o público buscava principalmente vinhos mais encorpados, amadeirados e de guarda, hoje há uma procura crescente por bebidas mais leves, com menos intervenção na produção.
Entre as tendências, aparecem vinhos com menor teor alcoólico, rótulos mais frescos e até mesmo opções sem álcool ou com baixa caloria. Segundo o especialista, o mercado tende a acompanhar essas mudanças de comportamento e desenvolver produtos voltados para um consumo mais descontraído.
Apesar das discussões entre especialistas, o enólogo faz uma ressalva final: o vinho pode ter sido pensado para ser apreciado de determinada forma, mas, no fim, o mais importante é o paladar de quem está bebendo, seja seco, suave ou até mesmo com gelo, o melhor vinho continua sendo aquele que agrada ao consumidor.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite
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