
Assistir aos jogos no mesmo canto do sofá, usar a mesma blusa sem lavar ou cumprir rituais que desafiam a lógica. A cada quatro anos, milhões de brasileiros compartilham um traço em comum: a crença de que um hábito individual, feito dentro de casa, pode influenciar uma partida de futebol. Longe de ser apenas uma "mania" esportiva em busca do tão sonhado título mundial, essas dinâmicas revelam a necessidade de aliviar o estresse e pertencer à alegria do coletivo.
Do ponto de vista psicológico, o futebol reúne o cenário perfeito para o esgotamento emocional: alta relevância afetiva combinada com zero controle sobre o resultado. Para lidar com isso, a mente humana cria atalhos. "Quando se pratica um ritual genuinamente acreditando que o resultado depende disso, o indivíduo está trazendo para si uma responsabilidade, como se ele estivesse participando da situação ou no controle do resultado do jogo", explica Miguel Avellar, psicólogo esportivo e neurocientista.
Segundo o profissional, o cérebro busca padrões correlacionais de forma puramente neurocientífica. Se o time venceu três vezes enquanto o torcedor vestia uma roupa específica, a mente logo estabelece uma ligação direta a esse hábito. "Esse comportamento foi reforçado com a vitória do clube, o que reforça também essa ligação neural a partir de repetidas liberações dopaminérgicas sempre que isso ocorre", complementa.
Ao realizar as famosas promessas, é como se a pessoa estivesse fazendo uma negociação com uma entidade superior, cósmica ou religiosa. Então, ao ganhar o que se quer, é como se a moeda de troca para conquistar algo prazeroso seja oferecer o outro lado da moeda: o sacrifício. "Podemos, também, destacar os casos em que os indivíduos querem realizar algo, como pintar o cabelo ou raspá-lo, e simplesmente não tem coragem. Assim, colocam uma aposta envolvendo essa prenda, de forma que, ao se cumprir o resultado, satisfaz-se uma mudança do qual a pessoa não tinha coragem antes."
O preço do hexa
Para muitos torcedores, a superstição vai além de um amuleto e vira objeto de barganha. Se o resultado que buscam for alcançado, nada mais justo do que oferecer um elemento de grande valia. É o caso do professor de educação física Emanuel Gonçalves, 25 anos, que decidiu abrir mão de uma parte significativa de sua vida social pelo título da Seleção. "Sou um cara que gosta muito de sair, conhecer pessoas e viver experiências diferentes. Então, decidi que não sairei para nenhum date até o final do ano caso o Brasil ganhe a Copa do Mundo."
Além do celibato temporário, Emanuel elevou a aposta para o lado financeiro com um aluno cético. "Se o Brasil perder uma eventual final, pago três salários mínimos a ele. Se o Brasil for campeão, ele me paga oito. Sempre bate um pouco de arrependimento, porque você está abrindo mão de algo que gosta. Mas se o Brasil ganhar, tudo vai valer a pena." O professor também mantém um ritual clássico: comentar em três publicações específicas no Instagram e usar rigorosamente a camisa da estreia.
"As promessas costumam mudar de uma Copa para outra, até porque, quando não dá certo, a gente acaba pensando que talvez o sacrifício não tenha sido suficiente. Mas algumas coisas permanecem. Sempre gosto de assistir a momentos históricos da Seleção ou do time para o qual estou torcendo antes dos jogos. E a camisa também é algo sagrado: dificilmente uso uma camisa nova ou uma que esteja associada a campanhas que terminaram mal", complementa Emanuel.
De acordo com o preparador físico, nas poucas vezes em que tentou estrear um traje novo, o resultado dentro dos gramados não foi nada positivo. E nesses momentos, inevitavelmente, o torcedor tenta se apegar a uma explicação que parece lógica, mas que nunca é. Isso, de certa maneira, é uma forma de evitar aceitar que, naquele dia, o adversário saiu melhor do que o esperado."
Por que escolhem o sacrifício?
A psicologia explica que a privação funciona como uma linguagem simbólica de valor. De acordo com a psicóloga Flávia Marsola, a renúncia demonstra o peso emocional do evento. "O torcedor sabe, racionalmente, que não decide o resultado, mas a promessa permite que ele se sinta envolvido: isso é tão importante para mim que estou disposto a abrir mão de algo", destaca.
E quando a conquista almejada não chega, é normal que muitos se sintam culpados. Apesar de não fazer sentido, esse sentimento de responsabilidade é real. "A emoção existe porque o cérebro humano nem sempre diferencia com clareza aquilo que sentimos daquilo que efetivamente causamos. Quando o resultado é negativo, surge a necessidade de encontrar uma explicação", afirma Flávia.
Com isso, algumas pessoas acabam assumindo uma responsabilidade que não têm. Acreditando, de certo modo, que poderiam ter evitado a derrota se tivessem cumprido determinado ritual ou feito mais do que realmente fizeram. "A culpa cria uma ilusão de poder retrospectivo: 'Se eu tivesse feito diferente, o resultado seria outro'."
O contágio coletivo
Na hora de acreditar no hexacampeonato, o sacrifício físico também é uma escolha. Vinicius Viana, 25, preocupado com o nível dos adversários, apelou para o visual clássico do último título brasileiro. "A ideia veio de uma aposta com um amigo. Eu disse que seria praticamente impossível o Brasil ganhar a Copa, mas caso ganhasse, eu iria fazer o corte de cabelo do Fenômeno de 2002. O arrependimento virá, tenho certeza, mas vale tudo para o Brasil ser hexa!", brinca o personal trainer..
Vinicius também carrega uma relíquia familiar: uma camisa de 1997 que pertenceu ao pai e foi usada no título de 2002. "Nos últimos jogos que não a usei, acabamos perdendo. Então, por via das dúvidas, uso sempre agora", ressalta. O problema da ilusão de controle surge quando o ritual falha ou é esquecido. Se o time perde, a culpa sentida pelo torcedor é real e dolorosa.
"No Brasil X Croácia, estava sem ela, pois tive que trabalhar. Perdemos nos pênaltis e essa derrota dói no coração", lamenta Vinicius. Essa dor da culpa é justificada pela estrutura psíquica. "Pensando no nível de uma crença muito enraizada, o sentimento de culpa é real, como se o indivíduo realmente sentisse que parte dessa derrota é culpa dele por não cumprir com sua parte", diz Miguel Avellar.
Mesmo quem se diz totalmente cético costuma ceder ao misticismo durante a Copa do Mundo. Para o psicólogo, esse contágio emocional é fruto da necessidade biológica de pertencimento. As superstições da Copa, no fim das contas, dizem muito mais sobre a busca por conexão do que sobre as táticas dentro das quatro linhas. "Muitas vezes, o valor do ritual não está na superstição em si, mas na sensação de estar conectado a algo maior do que nós mesmos."
Acreditem nos sinais
O jejum dos 24 Anos
Essa é a matemática que mais traz confiança aos brasileiros. Quando o Brasil conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos, em 1994, a Seleção estava em um jejum exato de 24 anos sem vencer um Mundial (desde o tri, em 1970). Número de agora, já que o pentacampeonato veio em 2002.
América do Norte
Historicamente, quando a Copa cruza as fronteiras da América do Norte, o final é feliz para o Brasil. 1970: Copa no México e Brasil tricampeão; 1994: Copa nos Estados Unidos e Brasil tetracampeão. Em 2026, a Copa volta exatamente para os dois palcos de glória, além do Canadá.
A mística do grupo C
Nas duas últimas edições da Copa do Mundo, as seleções campeãs saíram justamente do Grupo C na fase de grupos: a França, em 2018, e a Argentina, em 2022. No sorteio para o Mundial de 2026, quem caiu no grupo C foi o Brasil, ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia. Em 2002, o Brasil também estava no grupo C.
O jogador cortado
Às vésperas da Copa de 2026, o lateral-direito Wesley foi cortado por lesão. Torcedores logo lembraram que ele atua pela Roma. Em 1994, o zagueiro Mozer foi cortado e deu vaga a Aldair, que jogava no mesmo clube e virou titular do tetra. Em 2002, o volante e capitão Emerson se lesionou às vésperas da estreia. Ele também defendia o time italiano.
Sedes divididas
Esta é apenas a segunda vez na história que a Fifa organiza uma Copa do Mundo sediada por múltiplos países. A primeira experiência com esse formato de logística complexa e fronteiras divididas foi em 2002, com a organização conjunta de Coreia do Sul e Japão, onde o Brasil trouxe o penta.
Da desconfiança à esperança
O Brasil costuma sofrer quando chega como favorito absoluto (como em 2006). Em contrapartida, as campanhas vitoriosas nasceram do ceticismo. Em 2001, a Seleção fez uma de suas piores campanhas nas Eliminatórias e quase ficou de fora da Copa de 2002. O ciclo para 2026 repetiu essa instabilidade de bastidores, trocas de comando e atuações ruins nas eliminatórias. Historicamente, a desconfiança é o combustível do título brasileiro.
A última dança
Em 10 de agosto de 2010, Neymar estreou pela Seleção Brasileira, justamente no MetLife Stadium, nos Estados Unidos. Coincidentemente, o palco da final do Mundial de 2026 será no mesmo lugar.

Revista do Correio
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