
Colocar os fones de ouvido antes de começar o treino virou um ritual para muita gente. Na academia, na corrida ou em outras modalidades, a música faz parte da rotina de milhões de praticantes de atividade física. Mais do que um hábito, porém, ela pode influenciar diretamente a motivação, o desempenho e até a constância nos exercícios.
Segundo o psiquiatra Higor Caldato, a ciência já demonstrou que a música funciona como um estímulo capaz de melhorar a experiência durante a prática esportiva. "A música ativa o sistema de prazer e recompensa, facilita a sincronização dos movimentos e desvia a atenção do cansaço. Ela faz o exercício parecer menos difícil e mais prazeroso", explica.
O médico cita uma meta-análise com 139 estudos que apontou melhora significativa no desempenho físico, aumento da sensação de prazer e redução da percepção de esforço entre pessoas que treinam ouvindo canções. Na prática, o cérebro divide a atenção entre os estímulos musicais e os sinais de fadiga enviados pelo corpo. Como consequência, o esforço parece menor. "A música funciona como um anestésico psicológico. Ela compete pela atenção do cérebro com as sensações de desconforto muscular e cansaço", afirma Higor.
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O personal trainer Lincoln Cavalcante destaca que os benefícios vão além da motivação. "A música reduz a ansiedade e o estresse, tornando a experiência do exercício mais agradável. Ela também aumenta a produção de dopamina, endorfina e serotonina, hormônios relacionados ao bem-estar, à redução da dor e à regulação do humor", ressalta.
Outro ponto importante é que não existe uma playlist universal. Para os especialistas, a preferência individual pesa mais do que qualquer regra. "Pesquisas mostram que músicas escolhidas pelo próprio praticante geram resultados superiores às selecionadas por outras pessoas. Quando gostamos da música, há uma ativação maior do sistema de recompensa do cérebro", observa Lincoln.
Higor reforça que o significado emocional da música também faz diferença. "O mais importante é escolher canções de que você realmente gosta. Uma música que desperta boas lembranças ou emoções positivas tende a tornar o treino mais prazeroso e aumenta as chances de a pessoa manter a rotina de exercícios."
As trilhas sonoras
A influenciadora esportiva Isabely Alves, 24 anos, sente isso na prática. Embora diga que não tenha uma música fixa, ela costuma viver "hiperfocos" musicais. "Sempre tem aquela música da semana que eu escuto em looping. Ela acaba virando minha trilha sonora dos treinos até eu enjoar", conta. Para ela, o estilo musical varia conforme a modalidade. "Na corrida, gosto de músicas eletrônicas, trance ou um funk com cerca de 180 BPM, porque a batida ajuda muito a manter a cadência. Já na musculação prefiro músicas que me deixem com energia e motivação", detalha.
Segundo Isabely, a música também muda a forma como ela percebe o treino. "Na corrida, ajuda a entrar naquele estado de flow, quando parece que você está correndo no automático. Na academia, transforma completamente o ambiente. Entro no meu mundinho e aproveito muito mais."
O criador de conteúdo Gabriel Alves, 23, também aposta nas músicas eletrônicas. "Gosto de house e eletrônica por causa da batida rápida. Ela me ajuda a manter um ritmo acelerado", afirma. Para ele, além de distrair a mente, a música melhora a concentração e faz com que o corpo acompanhe naturalmente o ritmo da batida. Já Sophia Eduarda, 21, encontra motivação em diferentes estilos musicais. Entre suas favoritas está Vida Loka, Pt. 1, dos Racionais MC's. "Ela me dá muita motivação e sinto que estou extraindo o meu melhor", diz.
Como pratica apenas musculação, Sophia adapta a playlist conforme a intensidade do treino. "Às vezes, escuto funk, rap, trap, sertanejo ou pagode. Depende do treino do dia", ressalta. Para ela, treinar sem música não é uma opção. "Preciso de uma música para me conectar e fazer o melhor treino possível", complementa. A mesma percepção é compartilhada por Lucas Salles, 23, fã da faixa Princípios de um Campeão, do trapper Chefin. "Essa música me dá muito gás para as séries mais difíceis", relata.
Ele explica que também adapta a trilha sonora conforme o esporte. "Na musculação preciso de um nível maior de concentração. Já no jiu-jítsu prefiro músicas mais alegres." Segundo ele, os fones de ouvido são indispensáveis. "Treinar sem ouvir a playlist certa nunca é a mesma coisa."
Além da escolha das músicas, especialistas recomendam adaptar o ritmo da playlist às diferentes fases do exercício. Lincoln orienta utilizar músicas moderadas durante o aquecimento, faixas mais aceleradas na parte principal do treino e canções mais tranquilas no momento de desaceleração e recuperação.
Outra dica é renovar a playlist periodicamente para evitar que ela se torne repetitiva. Afinal, quando o treino é associado a uma experiência prazerosa, aumentam as chances de que ele deixe de ser uma obrigação e passe a fazer parte da rotina.
20 músicas para turbinar a playlist do treino
Rap/Trap
— Vida Loka, Pt. 1 — Racionais MC's
— Princípios de um Campeão — Chefin
— Till I Collapse — Eminem ft. Nate Dogg
— HUMBLE. — Kendrick Lamar
— FE!N — Travis Scott
— Lose Yourself — Eminem
Eletrônica/House
— Animals — Martin Garrix
— Levels — Avicii
— Titanium — David Guetta feat. Sia
— The Business — Tiësto
— Where You Are — John Summit & Hayla
Pop
— Training Season — Dua Lipa
— Physical — Dua Lipa
— Don't Start Now — Dua Lipa
— Can't Hold Us — Macklemore & Ryan Lewis
— Blinding Lights — The Weeknd
Funk
— SentaDONA (Remix) — Luísa Sonza, Davi Kneip, MC Frog e DJ Gabriel do Borel
— Ai Preto — L7NNON, Bianca e Biel do Furduncinho
— Tubarão Te Amo — DJ LK da Escócia, Tchakabum e MC Ryan SP
Rock
— Eye of the Tiger — Survivor
— Thunderstruck — AC/DC

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