Especial

Vinil une gerações, preserva memórias e movimenta a cena do DF

Entre garimpos, coleções e encontros, o vinil mantém espaço na cena cultural do Distrito Federal, unidade da Federação que concentra, proporcionalmente, o maior números de lojas por habitante

Reinaldo de Freitas, proprietário da Berlin Discos -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Reinaldo de Freitas, proprietário da Berlin Discos - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Há uma cena musical que não começa no play. Ela começa quando a capa é escolhida, o disco sai da estante e a agulha encontra o sulco. Em Brasília, esse ritual atravessa gerações e aparece em lojas tradicionais, sebos, feiras, coleções particulares e espaços universitários. O vinil, que já foi considerado uma tecnologia ultrapassada, voltou a ocupar um lugar de destaque entre quem viveu sua primeira fase e entre jovens que chegaram à música por meio do streaming. Mais do que uma volta ao passado, o movimento revela uma forma mais física, demorada e ligada ao álbum como obra de se relacionar com a música.

O Circuito do Vinil BR mapeia 12 lojas no Distrito Federal, número que coloca a unidade da Federação à frente de São Paulo na proporção de estabelecimentos por habitante. Enquanto o DF reúne quatro lojas por milhão de habitantes, São Paulo aparece com 3,65, apesar de concentrar 168 endereços. Os números ajudam a dimensionar uma cena que não depende apenas do tamanho do mercado, mas da existência de uma comunidade formada por comerciantes, colecionadores e ouvintes.

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ESTADOS COM MAIS LOJAS DE VINIL

Distrito Federal — 12 lojas — 4,00 lojas por milhão de habitantes
São Paulo — 168 lojas — 3,65 lojas por milhão
Sergipe — 5 lojas — 2,17 lojas por milhão
Paraná — 22 lojas — 1,85 lojas por milhão
Ceará — 16 lojas — 1,73 lojas por milhão
Santa Catarina — 14 lojas — 1,71 lojas por milhão
Alagoas — 5 lojas — 1,55 lojas por milhão
Espírito Santo — 6 lojas — 1,45 lojas por milhão
Rio de Janeiro — 25 lojas — 1,45 lojas por milhão
Rio Grande do Sul — 15 lojas — 1,34 lojas por milhão

Fonte: IBGE (População 2025) e Circuito do Vinil BR.

12 ENDEREÇOS PARA GARIMPAR

Baixo Norte Livros & Discos — CLN 411, loja 29, Asa Norte.
Berlin Discos — SDS, Bloco N, loja 19, Asa Sul.
Boa Viagem Discos — CLN 411, loja 30, Asa Norte.
Dom Pedro Discos — SCLN 412, Bloco C, loja 60, Asa Norte.
Filial do Rock — Conic, Bloco M, Edifício Venâncio Junior, Asa Sul.
Funhouse Discos — Conic, Bloco E, lojas 11/15, Asa Sul.
Garimpo do Vinil — Estação 102 Sul, loja 151, Centro Empresarial São Francisco.
Givaldo Discos — EQNN 22/24, Bloco B, loja 2, Ceilândia.
Livraria Oto Reifschneider — CLN 302, loja 39, subsolo, Asa Norte.
Marcondes & Co. Discos — CLS 116, Bloco A, loja 29, Asa Sul.
Sebo Musical Center — CLN 215, Bloco C, loja 37, Asa Norte.
Vinil 10 — CLN 215, loja 05, Asa Norte.

Fonte: Circuito do Vinil BR.

Em Brasília, parte dessa história pode ser encontrada no Conic, na Asa Norte, na Asa Sul e também em endereços fora do Plano Piloto. O mapa, porém, é apenas uma porta de entrada para um circuito que se sustenta também nas relações criadas em torno dos discos. São pessoas que procuram determinada prensagem, frequentam feiras, trocam informações, reconhecem capas e artistas e, muitas vezes, transformam uma compra aparentemente simples em uma história para guardar.

Berlin, desde 1989

A história da Berlin Discos ajuda a entender a permanência do formato na capital. A loja foi aberta em junho de 1989 por Reinaldo Antônio Leite de Freitas, hoje com 65 anos, quando ele ainda trabalhava no Banco do Brasil e era colecionador de vinis. A ideia inicial era criar um lugar onde pudesse trocar discos e completar a própria coleção, pois havia poucas opções de lojas independentes em Brasília.

O negócio cresceu além do plano original. Reinaldo pretendia ficar algum tempo à frente da loja, completar suas coleções e voltar ao trabalho no banco, mas acabou deixando a instituição para se dedicar ao comércio. Décadas depois, a Berlin continua funcionando e testemunha diferentes fases do mercado. Antes da chegada do CD, o proprietário, como colecionador, chegou a ter entre cinco mil e seis mil discos. Com a mudança de tecnologia, trocou boa parte deles por CDs e hoje mantém cerca de 500 a 600 vinis em casa.

Entre os exemplares que permaneceram estão coleções de Miles Davis e Charles Mingus, além de discos de blues e reggae. Para Reinaldo, o retorno do vinil também tem relação com a saturação provocada por outras tecnologias. Durante a popularização do CD, muitas pessoas se desfizeram dos próprios discos porque acreditavam que o novo formato representava o futuro da música. Depois, a facilidade de copiar e baixar conteúdos teria contribuído para uma nova busca por algo mais pessoal.

"É uma coisa mais pessoal, o vinil", afirma. Na Berlin, o público também se diversificou. Se antes o mercado era dominado por colecionadores que procuravam completar acervos, hoje os jovens também chegam às lojas em busca de discos de artistas que descobriram por outros caminhos. Para o comerciante, o sebo ajuda a manter essa diversidade porque recebe públicos interessados em gêneros variados, da MPB ao rock, passando por jazz e blues.

A paixão de quem vende

Na Funhouse Discos, a trajetória também começou pela coleção pessoal. Luis Moreira, 57, conta que manteve parte dos discos quando a chegada do CD levou muita gente a se desfazer dos vinis. Em 2016, reuniu discos, CDs e equipamentos e abriu o estabelecimento, depois de 25 anos à frente de uma loja de skate em Brasília. O comércio de música nasceu, portanto, tanto de uma necessidade quanto de uma paixão antiga.

Para Moreira, o mercado atual reúne duas gerações. De um lado estão as pessoas que viveram o período em que o vinil era a principal forma de ouvir música e voltaram a procurá-lo. De outro, estão os jovens que nunca tiveram contato com o formato e passaram a descobrir o objeto justamente em uma época dominada pelas plataformas digitais. "Tem uma redescoberta por quem utilizou", afirma.

 31/08/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - A volta do disco de vinil. Luis Moreira
Luis Moreira está à frente da Funhouse Discos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O comerciante vê no colecionismo uma das forças desse movimento. O rock continua entre os gêneros mais procurados, enquanto a MPB também ocupa espaço importante nas prateleiras. Na loja, o repertório passa por nomes como Luiz Melodia, Marcos Valle, João Gilberto, Tom Jobim, New Order, Madonna, Sepultura, Nirvana e Beatles. Para Moreira, porém, a diferença fundamental está menos no artista escolhido e mais na maneira como a música é ouvida.

"Escutar e ouvir músicas são duas coisas diferentes", afirma. A primeira pode acontecer pelo celular, enquanto a pessoa trabalha, conversa ou realiza outras tarefas. A segunda exige atenção. É preciso colocar o disco no toca-discos, acompanhar um lado, levantar a agulha e virar o LP para continuar. O ritual inclui ainda a capa, os encartes, as letras e as imagens que acompanham a obra. É uma experiência que, para o comerciante, não pode ser reproduzida integralmente por uma plataforma de streaming.

O disco como experiência

Para o músico e professor Luís Porto, a procura pelo vinil entre os jovens também está relacionada à descoberta de elementos que o streaming não coloca necessariamente no centro da experiência. A contracapa, o encarte, as letras, os créditos e a identidade visual ajudam a apresentar o álbum como uma obra completa, pensada para ser ouvida em determinada sequência.

Ele também chama atenção para a possibilidade de ouvir música sem a tela do celular por perto, reduzindo as distrações que acompanham o consumo digital. No aspecto sonoro, Porto observa que o vinil costuma ser percebido como mais “quente”, embora o CD possa apresentar maior fidelidade. Para ele, a discussão não precisa se resumir a qual formato tem o melhor som, mas ao conjunto da experiência proporcionada pelo disco.

No vinil, a dificuldade de pular faixas também favorece a escuta do álbum em sequência. “Você acaba se ambientando com o som da artista, da banda, do estúdio, do produtor, mix e master”, explica. A ordem das músicas deixa de ser apenas uma sugestão da plataforma e passa a fazer parte da própria experiência da obra.

A mídia física ainda oferece uma espécie de permanência que as plataformas digitais não garantem. Álbuns podem sair dos serviços de streaming por questões de direitos autorais, enquanto um disco bem conservado continua disponível para o proprietário. O formato também permite que obras antigas sejam preservadas por meio da digitalização, criando uma ponte entre o acervo físico e a circulação on-line.

A experiência também pode ser coletiva. Uma visita a uma loja, uma conversa com o vendedor ou uma audição entre amigos pode apresentar um artista que o algoritmo jamais colocaria no caminho daquele ouvinte. “Ouvir um disco de vinil com os amigos, ou botar um disco pra tocar numa loja e conversar sobre ele com o vendedor, é um passo pra retomar essa direção”, afirma Porto.

Memória que se ouve 

A relação de Gabriel de Lara, 35, com os discos começou na infância. Nascido em 1991, ele cresceu em uma época em que os vinis ainda estavam presentes nas casas, e guarda na memória os discos de histórias infantis que ouvia quando criança. Um deles, em especial, voltou à lembrança anos depois, de forma inesperada, durante um garimpo. "Eu vi o disco, sabe quando você nem sabe que lembra? Não sei, aquilo te joga para um lugar", conta. Era uma gravação da história da Chapeuzinho Vermelho, com a figura do lobo na capa. A lembrança, recuperada diante de um exemplar à venda, tornou-se também uma espécie de síntese do que os discos representam para o colecionador: objetos capazes de carregar memórias que permanecem mesmo quando parecem esquecidas.

Na adolescência, por volta dos 15 anos, Gabriel começou a comprar discos. Já colecionava CDs, mas passou a se interessar também pelos vinis e encontrou uma forma de ampliar o acervo aproveitando a própria coleção do pai. "Pegava os discos do meu pai, levava para o sebo, trocava 10, deixava 10 discos, levava um, e aí fui formando a coleção", relata. Com o tempo, acumulou uma quantidade significativa de exemplares e começou a vender parte deles pela internet, em plataformas como Mercado Livre e Facebook. A experiência fez com que percebesse que o hobby também poderia se transformar em fonte de renda. "Eu descobri que dá para fazer um dinheiro com aquilo. E, aí, fui tomando gosto."

Há cerca de 12 anos, Gabriel começou a participar de feiras de discos e passou a atuar também como vendedor. O interesse comercial, porém, não apagou a dimensão afetiva da coleção. Entre os gêneros que ocupam lugar especial em seu acervo está o frevo, ligado diretamente à história de sua família
pernambucana. Gabriel cresceu vendo a avó dançar ao som do gênero e lembra que, mesmo já idosa, ela reagia à música sempre que ouvia uma orquestra. "Enquanto ela conseguia andar, ela dançava frevo. Se tocasse, ela pulava até os 90 anos", conta.

Segundo ele, a avó chegou a dizer que tinha medo de que o frevo um dia acabasse e deixasse de existir. A preocupação acabou encontrando eco no próprio colecionismo de Gabriel, que passou a construir boa parte de sua coleção de frevo a partir de garimpos realizados em Recife e das experiências no carnaval pernambucano.

Proprietário da loja Boa Viagem
Gabriel de Lara, da loja Boa Viagem (foto: Alexandre Batos/Foto cedida ao Correio )

Raridade e digitalização

Para ele, resgatar um disco é também preservar uma parte da cultura registrada nele. "Se você armazenar corretamente, ele não vai se desgastar", afirma. A ideia aparece de maneira ainda mais concreta em uma das histórias mais curiosas de seu acervo: a do disco Andar do Liso é Triste. Gabriel encontrou o exemplar em um sebo, em meio a uma grande quantidade de sujeira, sem imaginar que aquele objeto pouco conhecido ganharia uma segunda vida na internet. A gravação chegou ao site Discogs por meio de um amigo que ajudava o colecionador a cadastrar os discos de frevo que não estavam na base de dados. A partir dali, a capa começou a circular nas redes sociais e despertou a curiosidade de usuários que queriam descobrir de onde vinha aquela imagem.

O disco acabou entrando em discussões sobre lost media, termo usado para conteúdos que não estão disponíveis ou possuem registros muito limitados na internet. Como as músicas não estavam disponíveis para audição on-line, Gabriel passou a receber pedidos de pessoas interessadas em ouvir a gravação e até em comprar o exemplar. Ele, no entanto, queria fazer uma digitalização cuidadosa, com equipamentos adequados, e demorou para conseguir realizá-la. Nesse intervalo, um amigo de Fortaleza encontrou outra cópia do disco, desta vez sem a capa, e conseguiu digitalizar e disponibilizar as músicas. "Saciou aí a vontade da galera", resume Gabriel.

A história tornou-se, para o colecionador, um exemplo de como um objeto físico pode ganhar novos significados quando volta a circular. O disco que havia passado despercebido em um sebo tornou-se alvo de curiosidade justamente por aquilo que o tornava raro: a dificuldade de encontrá-lo e ouvi-lo. Para Gabriel, iniciativas de preservação precisam passar tanto pelos acervos físicos quanto pela digitalização de materiais que permanecem fora do alcance do público. Ele cita a Biblioteca Central da Universidade de Brasília e instituições ligadas à preservação do frevo em Recife como exemplos desse movimento e diz ter o desejo de, um dia, estabelecer uma parceria para digitalizar e disponibilizar parte do acervo de frevo para audição.

Entre seus exemplares preferidos está justamente um disco de frevo, Frevos e Maracatus, dos anos 1950. Gabriel destaca especialmente os maracatus presentes na gravação, que considera "lindos" e "fortíssimos". Outro item de que gosta é o compacto Elefante vs. Pitonbeira, ligado a uma tradicional rivalidade entre troças de Olinda. As escolhas ajudam a mostrar que, para além do valor de mercado, a coleção é construída a partir de vínculos com lugares, pessoas e experiências. O disco, nesse sentido, não é apenas uma gravação: pode ser lembrança familiar, registro cultural e porta de entrada para uma história que talvez não esteja mais disponível em nenhum outro lugar.

Vinil Frevos e Maracatus, de 1956
Vinil Frevos e Maracatus, de 1956 (foto: Divulgação)

Gabriel também percebe um crescimento na procura por discos e CDs. Para ele, parte desse movimento está relacionada à própria instabilidade do consumo digital. Serviços de streaming dependem de catálogos que podem mudar e de direitos autorais que podem retirar determinadas produções das plataformas. Ao mesmo tempo, existe a experiência proporcionada pelo objeto físico. "Tem a questão da arte, do som também, tem aquela coisa do ritual de você pôr um disco para tocar", afirma. Sem entrar na discussão técnica sobre qual formato oferece a melhor qualidade sonora, ele resume sua preferência de maneira pessoal: "Eu sinto que é melhor, eu gosto mais".

De coleção a negócio 

Na Marcondes & Co., a relação com os discos nasceu dentro de uma família acostumada a colecionar objetos culturais. João e Gustavo Marcondes cresceram entre livros, filmes, DVDs e discos, em uma casa onde os quatro irmãos e os pais compartilhavam o hábito de colecionar. Os dois são jornalistas e, há cerca de 12 anos, começaram a frequentar as primeiras feiras de discos de Brasília, quando o circuito ainda era pequeno e reunia, principalmente, colecionadores homens e mais velhos.

João, 50, conta que, no início, os irmãos começaram a vender os próprios discos que já não queriam manter, como uma espécie de hobby. Com o tempo, perceberam que o mercado estava crescendo e que a atividade poderia se transformar em uma fonte de renda. "Há sete anos, a gente já estava robusto o suficiente para abrir uma loja, para partir para essa aventura", conta. Antes da loja, os irmãos passaram a trabalhar nas feiras e chegaram a organizar eventos no Conic, acompanhando de perto a expansão do público interessado no formato.

Para Gustavo, 47, porém, a história começa antes do comércio. Segundo ele, a família nunca deixou de colecionar discos, mesmo durante o período em que o vinil perdeu espaço para o CD. Entre os anos 2000 e 2010, quando os LPs tinham pouco valor comercial, os irmãos continuaram comprando porque eram baratos. "Na verdade, nosso interesse sempre foi pela música, né? Mais do que por discos", afirma. Na adolescência, os CDs eram mais presentes, justamente por serem a tecnologia em evidência, mas o interesse pela música permaneceu como ponto central.

Foi nas primeiras feiras de Brasília, entre 2012 e 2014, que o hobby começou a ganhar outra dimensão. Gustavo, que na época ainda trabalhava no Correio Braziliense, deixava o plantão e corria para participar dos encontros. Aos poucos, os irmãos perceberam que havia uma possibilidade financeira naquele mercado. As feiras cresceram, eles passaram de participantes a organizadores e, segundo Gustavo, o negócio se desenvolveu naturalmente até o momento em que decidiram levá-lo a sério.

A relação dos irmãos com os discos também aparece nas coleções particulares. João conta que tem pouco mais de mil exemplares e destaca uma coleção de Jorge Ben Jor, com discos originais de época dos anos 1970, entre os itens de que mais gosta. 

Gustavo mantém um acervo maior, com cerca de 1.500 discos, embora diga que faz bastante tempo que não compra. Entre os conjuntos que mais aprecia, estão as coleções de Bob Dylan e Rolling Stones. O interesse também se volta para os discos raros de música brasileira, especialmente aqueles que não tiveram grande sucesso quando foram lançados, mas acabaram redescobertos posteriormente por colecionadores brasileiros e estrangeiros.

Um dos exemplares que guarda é Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, considerado por ele um dos discos mais míticos da música brasileira. A raridade está ligada também à história de sua tiragem: uma enchente destruiu grande parte dos exemplares, fazendo com que os que sobreviveram se tornassem especialmente procurados. Para Gustavo, esses discos mostram como o mercado pode mudar o valor de uma obra ao longo do tempo. Um álbum pouco valorizado no lançamento pode se transformar, décadas depois, em peça disputada por colecionadores.

  • Disco Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus Cantando Suas Composições
    Disco Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus Cantando Suas Composições Arquivo pessoal
  • Paêbiru, de Lula Cortês e Zé Ramalho. Disco faz parte da coleção de Gustavo Marcondes
    Paêbiru, de Lula Cortês e Zé Ramalho. Disco faz parte da coleção de Gustavo Marcondes Arquivo pessoal
  • Box Bob Dylan: The Original Mono Recordings, da coleção de Gustavo Marcondes
    Box Bob Dylan: The Original Mono Recordings, da coleção de Gustavo Marcondes Arquivo pessoal
  • Gustavo e João Marcondes, irmãos à frente da Marcondes & Co.
    Gustavo e João Marcondes, irmãos à frente da Marcondes & Co. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Na universidade, o vinil vira encontro

Na Biblioteca Central da Universidade de Brasília, os discos deixaram de ser apenas parte do acervo para se transformar em ponto de encontro. A BCE reúne aproximadamente 3 mil discos, coleção que deu origem ao Clube do Vinil BCE/UnB. O bibliotecário Marcelo Scarabuci criou o projeto a partir da experiência de outros clubes mantidos pela biblioteca, como o cineclube e o clube de leitura.

Clube do vinil BCE
Clube do vinil da BCE (foto: Fotos: Arquivo pessoal)

O formato combina apresentações, conversas e audições. Na maior parte dos encontros, estudantes escolhem um disco que tem significado para eles, para amigos ou familiares e contam a história daquele trabalho. Já houve apresentações feitas por pais e filhos, além de encontros com artistas, como Odair José. A atividade começou de forma quinzenal e passou a ser semanal conforme a participação aumentou.

Durante o semestre letivo, os encontros ocorrem às quintas-feiras, ao meio-dia, e a comunidade pode participar como ouvinte ou apresentadora. O projeto também realiza atividades em outros horários, quando necessário, e já recebeu um público suficiente para lotar o auditório da universidade em uma apresentação. A proposta é que o clube não seja restrito aos colecionadores, mas funcione como espaço de convivência em torno da música.

Scarabuci coleciona discos desde os 13/14 anos, quando o vinil estava em decadência e era barato, enquanto os CDs tinham preço mais alto. Parte do acervo veio de familiares e amigos que se desfaziam de coleções. Quando o formato voltou a ganhar valor, ele já havia construído uma coleção extensa, com discos autografados, dedicatórias e exemplares que pertenceram aos pais. "Então, tem essa relação afetiva, né?", resume.

  • Marcelo Scarabuci com  o primeiro LP do Caymmi, em 10 polegadas de 1954
    Marcelo Scarabuci com o primeiro LP do Caymmi, em 10 polegadas de 1954 Arquivo pessoal
  • Primeiro disco de Raul Seixas, edição original de 1968. Parte da coleção de Marcelo Scarabuci
    Primeiro disco de Raul Seixas, edição original de 1968. Parte da coleção de Marcelo Scarabuci Arquivo pessoal
  • Primeiro LP independente do país, de 1957, feito pelo Pacífico Mascarenhas
    Primeiro LP independente do país, de 1957, feito pelo Pacífico Mascarenhas Arquivo pessoal
  • Disco independente com gravações inéditas do Raul, lançado pelo fã clube em 1985. Foram 1000 unidades numeradas, esse, de Marcelo Scarabuci, é o numero 0221
    Disco independente com gravações inéditas do Raul, lançado pelo fã clube em 1985. Foram 1000 unidades numeradas, esse, de Marcelo Scarabuci, é o numero 0221 Arquivo pessoal

O acervo pessoal também funciona como apoio ao clube. Quando a biblioteca não tem o disco escolhido por um estudante, Scarabuci procura em sua própria coleção ou nas lojas da cidade. Assim, o material acumulado ao longo de décadas passa a alimentar novas experiências de escuta e permite que discos diferentes encontrem ouvintes que talvez nunca tivessem contato com eles.

A experiência do clube também aparece nas histórias de quem chegou ao vinil já cercado por celulares e plataformas digitais. Lya Marte, 24, estudante e cantora, teve contato com o universo da música desde cedo porque o pai era radialista e mantinha um gramofone na rádio. Quando criança, ela pensava que o aparelho era apenas um objeto de decoração. Mais tarde, descobriu discos que haviam pertencido à mãe e começou a coleção com títulos de Xuxa, New Kids on the Block, coletâneas infantis e trilhas de novelas.

Lya Marte, estudante e integrante do Clube de vinil da BCE
Lya Marte, estudante e integrante do Clube de vinil da BCE (foto: Arquivo pessoal)

Depois, comprou uma vitrola e passou a ouvir os discos em casa. Para Lya, uma das diferenças está justamente na possibilidade de retirar o celular da experiência. "É mais ouvir a música pela música mesmo, ouvir o disco inteiro", afirma. A escolha representa, para ela, uma espécie de "detox digital", em que o aparelho utilizado para ouvir música não oferece outras notificações ou estímulos simultaneamente.

No Clube do Vinil, Lya apresentou Proibido, de Rita Lee, e levou aos colegas curiosidades e histórias de bastidores. O encontro também revelou outra característica do projeto: a possibilidade de compartilhar informações e descobrir detalhes que não estavam na pesquisa de quem apresentou o disco. "Para mim, o Clube do Vinil é ouvir música, curtir música e fofocar sobre música", resume.

Entre os discos que não venderia estão Loki?, de Arnaldo Baptista, presente de Scarabuci, e um compacto de O'Seis, formação inicial dos Mutantes. O valor desses exemplares não está apenas na raridade, mas nas pessoas e nos momentos associados a eles. São discos que funcionam como objetos de memória, capazes de registrar relações e fases da vida.

Para Elvys Paulo Carlos Barros, 24, graduando em filosofia, a principal diferença está no propósito. Ele começou a colecionar por influência de amigos e pelo acesso ao acervo da BCE-UnB. Seu primeiro disco da coleção foi Loki?, de Arnaldo Baptista, igual ao de Lya, recebido em uma troca proposta pelo coordenador do clube. "Propósito. A música é a causa final do vinil", define.

Elvys Barros, grqasuando em filosofia que frequenta o Clube de vinil da BCE
Elvys Barros, grqaduando em filosofia que frequenta o Clube de vinil da BCE (foto: Arquivo pessoal)

A relação com o formato, para ele, ultrapassa a tecnologia. "A conexão com a música é via espiritual, e não via wi-fi", afirma. O disco que não venderia é a trilha sonora de Na estrada da vida, de Milionário e José Rico. O presente reúne referências da família e de diferentes lugares, como Bahia, Goiás e Minas Gerais. Quando ouve algumas das faixas, ele diz reconhecer uma parte da própria história. 

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postado em 06/09/2026 06:00
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