Saúde

Inovação torna tratamento contra o câncer menos invasivo

Quais são e como são vistos por especialistas os novos métodos de terapia para o câncer de mama. Mulheres curadas compartilham histórias de superação

Simone Araújo ainda faz hormonioterapia -  (crédito: Fotos: Tainá Frota)
Simone Araújo ainda faz hormonioterapia - (crédito: Fotos: Tainá Frota)

Nos últimos anos, a forma de lidar com os cânceres, inclusive o de mama, tornaram-se mais precisos, desde o momento do diagnóstico. A busca deixa de ser focada no tamanho do tumor e passa a ser direcionada aos genes, assim, é possível ter um conhecimento maior a respeito das características específicas de cada tumor, tornando viável um tratamento personalizado.

O diagnóstico direcionado não é o único aliado no tratamento. Em paralelo a isso, os laboratórios criam medicamentos que agem diretamente nos genes identificados, possibilitando que a terapia seja guiada e personalizada para cada paciente. "O tratamento do câncer de mama depende das características do tumor, da extensão da doença e das condições de saúde de cada paciente. Além de avaliar o tamanho e a localização, os exames ajudam a entender como as células cancerígenas se comportam e quais medicamentos podem agir contra elas", explica o médico oncologista clínico Márcio Almeida Paes.

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Acompanhando os novos métodos, o Sistema Único de Saúde (SUS) passa a ofertar, a partir deste mês de outubro, o medicamento abemaciclibe, destinado ao tratamento de câncer de mama precoce (RH , Her2-, linfonodo ) e também para casos avançados e metastático. O preço da caixa com 30 comprimidos pode chegar a R$ 15 mil. A iniciativa do Ministério da Saúde acompanha outros oito medicamentos para o tratamento e prevenção de tipos de cânceres variados.

Essas mudanças na forma de lidar com o tumor ocorreram porque a medicina passou a compreender que o câncer de mama é uma doença com diversos subtipos, que precisam de tratamentos específicos, dependendo da resposta de cada variação. "Atualmente, utilizamos exames como o imuno-histoquímico, testes genéticos e, em situações específicas, testes genômicos para identificar as características do tumor e definir a melhor estratégia terapêutica", reforça o oncologista.

Márcio destaca que esse tipo de abordagem permite que as pacientes, muitas vezes, não precisem passar pela quimioterapia, mas com as mesmas chances de cura. Além disso, abre caminho para cirurgias mais conservadoras. "O grande objetivo da oncologia moderna é oferecer o tratamento necessário para cada paciente, evitando tanto o excesso quanto a insuficiência terapêutica", resume.

Técnicas menos invasivas

Patrícia Schorn, oncologista clínica e coordenadora do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, explica como funciona a aplicação da terapia e dos ativos que combatem o tumor. "A tecnologia inclui anticorpos monoclonais associados a drogas tóxicas, que a gente chama de anticorpos conjugados." A médica explica que os anticorpos são formados por duas estruturas em uma só. Parte da estrutura serve para identificar o alvo, a célula com câncer, e, após a identificação, a outra parte carrega a droga tóxica para a célula, que é invadida pelo anticorpo. Dessa forma, o tratamento fica mais preciso e selecionado. A especialista cita também as terapias-alvo, medicamentos orais que inibem estruturas como enzimas específicas de determinados tumores, forçando-os a regredir de forma expressiva.

As soluções cirúrgicas para cânceres em fases mais avançadas também se tornaram menos agressivas. Segundo Patrícia, a técnica de esvaziamento axilar, cirurgia que consiste na remoção de todos ou quase todos os linfonodos das axilas, podendo causar linfedema e a perda da funcionalidade do braço, tem sido substituída pela do linfonodo sentinela, que consiste em identificar se o tumor comprometeu ou não o sistema linfático. 

Existem também as cirurgias robóticas. Apesar de serem menos invasivas, com incisões menores, porém, não são recomendadas para todos os perfis de pacientes, como nos casos de mamas muito pequenas. "Observa-se uma técnica cirúrgica um pouco mais enxuta, mas ainda não substitui a cirurgia convencional. Os benefícios ainda não são tão importantes a ponto de trazer uma substituição, mas são modalidades que fazem uma intervenção um pouco menor", explica a especialista.

O mastologista do Hospital Santa Lúcia Mauro Passos destaca o impacto positivo que os novos tratamentos têm nas pacientes. "Os principais benefícios são a conversão de doentes inicialmente candidatas à mastectomia em candidatas à cirurgia conservadora, redução do volume de tecido mamário ressecado; possibilidade de individualizar a abordagem axilar após a resposta ao tratamento e a avaliação da resposta patológica que fornece informações prognósticas importantíssimas e pode orientar a terapia complementar".

O médico afirma que as mudanças progressivas no tratamento do câncer chegaram a um lugar de poder reconstruir a mama em casos de mastectomia e até de conservar o formato após cirurgias de retirada do tumor.

Apoio da família

Belisaria Gomes, conhecida como Baby, aposentada de 57 anos, recebeu o diagnóstico de câncer de mama em 2017, enquanto trabalhava no Hospital da Criança. No momento, ela se sentiu sem chão, mas teve o apoio do marido e de toda a equipe médica desde o início. Uma de suas maiores preocupações ao começar a quimioterapia foi com a mãe e as filhas, ainda menores de idade. 

O trabalho com as crianças no hospital ajudou a aposentada a não desistir. Ver os jovens enfrentando a mesma doença a fez erguer a cabeça e seguir em frente. "Eu fazia minha quimioterapia, meu marido sempre me acompanhou, dormia pela tarde, e à noite ia para oração da igreja. Minha fé em Deus me ajudou no tratamento". A aposentada passou por 16 sessões de quimioterapia, 33 de radioterapia e hormonioterapia por sete anos, além da cirurgia. 

Baby foi, posteriormente, afastada de suas funções no trabalho, teve sequelas tardias devido à hormonioterapia que fazia em paralelo à quimio e à radioterapia. Sentiu forte impacto em sua vida sexual, além de dificuldades em levar as filhas à escola, por dores nas articulações, mas se recusou a deixar de viver sua vida normalmente. "Em 2020, minha mãe descobriu um câncer urotelial. Isso me afetou, porque era eu cuidando de mim e dela, mas tive apoio psicológico e emocional da minha família. Não foi fácil e ela acabou falecendo em 2021", relata.

A história de Baby com o câncer a incentivou a ajudar outras mulheres que passam pelo mesmo. Ela se juntou à associação Vencedoras Unidas, que dá apoio a mulheres, e participa de um grupo de canoagem (@canomama_time) voltado para mulheres que se curaram do câncer mamário e se encontram para remar no lago Paranoá.

Superação

A professora Simone Araújo, de 48 anos, encontrou-se em um mar de sentimentos depois de o diagnóstico chegar em fevereiro de 2022. "Embora a gente saiba que o câncer existe, quando o diagnóstico acontece conosco, a realidade é completamente diferente", descreve. Seis anos após a perda da filha Yasmin, Simone carregava muita dor, que foi intensificada com a descoberta de que estava com câncer. "Naquele momento, precisei encontrar forças para enfrentar mais uma situação extremamente difícil. O diagnóstico me fez perceber que, apesar de não termos controle sobre tudo o que acontece conosco, podemos buscar forças para enfrentar as adversidades e continuar caminhando", relata.

Para ela, cada tratamento teve suas particularidades. Ela passou por quimio e radioterapia, e fez uma cirurgia nas mamas. "Precisei aprender a lidar com as mudanças que aconteciam no meu corpo e na minha rotina." A professora lembra que o câncer acrescentou novos medos e inseguranças à dor do luto que vive pela filha. "Além disso, existe o medo da recidiva, que não necessariamente termina quando o tratamento acaba. Aprendi que cuidar da saúde emocional é tão importante quanto cuidar da saúde física", conta.

Diante de tudo o que enfrentou após a descoberta, Simone percebeu que não conseguiria exercer a profissão durante o período de tratamento. Por isso, afastou-se das atividades de professora para focar em repouso e no cuidado consigo mesma. "Naquele momento, eu precisava me recolher, cuidar de mim e reunir forças para enfrentar cada etapa. Simplesmente não tinha condições emocionais de conciliar o tratamento com a rotina profissional." 

Criar um vínculo com a equipe médica foi essencial para Simone. "Tive a sorte de encontrar uma equipe médica de excelência. Tenho um carinho muito especial pela Dra. Andréa Discaciati, minha mastologista, e pela Dra. Patrícia Schorn, minha oncologista. Sou muito grata por tê-las em minha trajetória." A professora lembra de ambas com carinho, e de como foram sensíveis e carinhosas.

É equivocado pensar que a jornada do câncer acaba com o fim da quimioterapia. O caminho continua, com exames semestrais ou anuais para garantir que o tumor não voltou. Baby ainda sente um frio na barriga quando deve realizar exames anualmente, mas afirma que está tudo certo. Simone também lida com uma ansiedade sempre que deve realizar avaliações. "É como se, a cada resultado positivo, eu recebesse a oportunidade de respirar aliviada e continuar vivendo com mais leveza. Entretanto, quando a data dos exames se aproxima, o medo da recidiva volta a aparecer".

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 

  • Simone Araújo ainda faz hormonioterapia
    Simone Araújo ainda faz hormonioterapia Foto: Fotos: Tainá Frota
  • Baby se aposentou por invalidez após passar pelo câncer
    Baby se aposentou por invalidez após passar pelo câncer Foto: Fotos: Tainá Frota
  • Simone Araújo ainda faz hormonioterapia
    Simone Araújo ainda faz hormonioterapia Foto: Tainá Frota
  • Baby se aposentou por invalidez após passar pelo câncer
    Baby se aposentou por invalidez após passar pelo câncer Foto: Fotos: Tainá Frota
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postado em 25/10/2026 06:00
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