SAÚDE

Socorristas do Samu relatam atendimentos que jamais conseguiram esquecer

Profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) relatam atendimentos que fizeram a diferença, revelando como decisões tomadas em segundos podem marcar vidas de pacientes e de quem socorre

No Samu/DF, servidores  acumulam  histórias que marcaram suas trajetórias  -  (crédito: Fotos: Ed Alves/CB/DA Press)
No Samu/DF, servidores acumulam histórias que marcaram suas trajetórias - (crédito: Fotos: Ed Alves/CB/DA Press)

Antes de qualquer sirene soar anunciando novo atendimento na Central de Regulação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu/DF), servidores acumulam memórias de vozes, decisões e desfechos que marcaram suas trajetórias profissionais — e, muitas vezes, suas vidas. Ocorrências que não cabem nos relatórios, nem terminam quando os procedimentos são encerrados.

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Ao longo dos 14 anos de carreira, a enfermeira Fernanda da Silva Correa conta que até hoje seu primeiro atendimento permanece vivo na memória: um parto prematuro e delicado de uma adolescente de 15 anos. "Fomos acionados e, quando chegamos lá, o bebê já estava nascendo. Quando olhei, o bumbum do neném estava saindo — o que chamamos de parto pélvico. Esse tipo de parto é difícil e perigoso porque o bebê pode ter uma asfixia", relembra. Ela explica que, nesses casos, o indicado é que a mãe e o bebê sejam atendidos em uma unidade de saúde estruturada, para que seja feita uma cesárea ou uma manobra para virar o bebê.

O parto, no entanto, evoluiu de forma rápida e inesperada. "Eu pedia para ela não fazer força na hora da contração, mas ela não conseguia segurar e empurrava o bebê, eu já estava vendo ele saindo. Tivemos que parar a ambulância, eu fiz a manobra — em que procuramos a cabeça do bebê e viramos ele dentro da mãe — e ela veio. Era uma menininha, estava toda roxinha. Começamos a ventilar e correr para o hospital. Ela foi para a UTI e, graças a Deus, sobreviveu", contou, emocionada.

Fernanda explica, no entanto, que nem todos os casos acabam com final feliz. "Já tive atendimentos que seguravam na minha mão e me pediam para não morrer, e não resistiram. Uma vez, uma mãe foi esfaqueada na frente dos três filhos e me pedia para Deus não a levar. Nesse dia, eu entrei no hospital chutando a porta do centro cirúrgico pra ela ser operada. Atendimentos assim já me fizeram chegar em casa chorando, mas a gente precisa pensar que o nosso trabalho é esse, e eu sou completamente apaixonada pelo que eu faço", afirmou.

Vivências

"Depois que entrei no Samu, valorizo muito mais a vida", contou José dos Santos, enfermeiro e condutor do serviço há 13 anos. Para ele, um dos momentos de virada na profissão foi um atendimento de acidente de moto, no qual o motociclista perdeu o braço.

  • Renato atua no grupamento de motos de emergência
    Renato atua no grupamento de motos de emergência Ed Alves/CB/DA Press
  • "Valorizo mais a vida", diz José, que está no Samu há 13 anos Ed Alves/CB/DA Press
  • No Samu/DF, servidores  acumulam  histórias que marcaram suas trajetórias
    No Samu/DF, servidores acumulam histórias que marcaram suas trajetórias Fotos: Ed Alves/CB/DA Press
  • Fernanda afirma que é apaixonada pela profissão
    Fernanda afirma que é apaixonada pela profissão Ed Alves/CB/DA Press
  • Lançado em agosto de 2005, o Samu/DF conta hoje com 745 servidores.
    Lançado em agosto de 2005, o Samu/DF conta hoje com 745 servidores. Ed Alves/CB/DA Press

"Ele estava muito desesperado, mesmo estando clinicamente bem. Apesar de ter perdido o braço, fizemos todos os protocolos e ele não estava sem risco de morte, mas quando ele teve consciência de que tinha perdido o braço, ele queria morrer porque não conseguia entender como viveria com a nova condição. Aquilo me tocou porque a nossa vida pode mudar em alguns segundos", lembra.

Ele relata que, apesar de todos os treinamentos e ensinamentos recebidos logo após ser aprovado no concurso, na prática a realidade é diferente. "A primeira vez que fiz uma ressuscitação cardiopulmonar, que encostei no tórax de um ser humano e tive que afundar esse tórax, foi meio chocante. Ao mesmo tempo eu entendi a importância do nosso serviço e fui buscar cada vez mais conhecimento para que eu pudesse transformar esses momentos e fazer a diferença na vida de um paciente", explica.

Para o enfermeiro Renato Ferreira a ocorrência que mais o tocou nos 14 anos de atuação no Samu aconteceu em Águas Claras, quando um homem que conduzia um caminhão de lixo foi vítima de uma descarga elétrica após o veículo encostar em um fio de alta-tensão.

"Quando chegamos, o pneu do caminhão tinha estourado e estava pegando fogo. Ele teve 100% do corpo queimado. Quando tentávamos encostar na pele dele, ela desmanchava na nossa mão. Foi muito chocante. Ele chegou ao hospital com vida, mas infelizmente, depois de umas quatro horas veio a óbito", lamenta.

Atuando no grupamento de motos de emergência do Samu, Renato explica que essas equipes são as primeiras acionadas para os atendimentos iniciais e, em caso de necessidade de remoção do paciente, acionam as ambulâncias. "Lidamos não só com a vida do paciente, mas com a nossa vida também, andamos em constante risco pelo deslocamento. Durante todo deslocamento, prezamos muito pela nossa vida e pela vida de terceiros", afirma.

Estrutura

Lançado em agosto de 2005, o Samu/DF conta hoje com 745 servidores — entre administrativos, médicos, condutores, enfermeiros e técnicos de enfermagem —, sendo 10 atendentes na linha de frente do atendimento, chamados Técnicos Auxiliares de Regulação Médica (TARM). De acordo com a Secretaria de Saúde (SES), em um tempo médio de 97 segundos, os atendentes identificam o paciente, o solicitante, o endereço e a principal característica da ocorrência.

Em seguida, a chamada é direcionada a um dos seis médicos reguladores, que decidem rapidamente se será enviada uma das 38 ambulâncias, uma das 11 duplas de motolâncias espalhadas por 22 bases descentralizadas no Distrito Federal ou, ainda, a equipe do suporte aeromédico, que atua em helicópteros do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF).

A diretora do Samu/DF, Lohrana Martins, explica que, diferentemente do CBMDF, que é uma força de segurança pública, o Samu é um serviço de saúde. "Mesmo a ambulância do bombeiro precisa ligar para nossa central de regulação médica para ele ter respaldo", explica. O Samu conta com equipes formadas por médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e condutores socorristas, que se dividem em unidades básicas e avançadas de socorro.

Para Lohrana, o atendimento mais marcante de sua trajetória foi o de um jovem atropelado por um ônibus. "Quando chegamos, uma das coisas que ele me falou foi 'não me deixa morrer porque semana que vem é meu aniversário de 15 anos'. E era uma situação muito grave: fratura no fêmur, quadril, rompimento do diafragma e a pressão estava muito baixa. Conseguimos passar no hospital da Ceilândia para pegar sangue e seguir até o Hospital de Base. Depois de 60 dias, ele recebeu alta e todos os anos o pai dele liga no aniversário dele para cantarmos parabéns", revela.

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postado em 19/01/2026 06:00
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