Transporte

Passageiros reclamam de aumento que começa domingo nas tarifas do Entorno

O novo reajuste das tarifas de ônibus do Entorno começa a valer neste domingo (22). Moradores da região reclamam do valor da passagem e da qualidade dos veículos e serviços. Governos do DF e de GO insistem em Consórcio Interfederativo

Da Rodoviária do Plano Piloto saem linhas que ligam Brasília ai Entorno; passagens terão de mais de 2,5% a partir deste domingo -  (crédito:  Minervino Júnior/CB)
Da Rodoviária do Plano Piloto saem linhas que ligam Brasília ai Entorno; passagens terão de mais de 2,5% a partir deste domingo - (crédito: Minervino Júnior/CB)

Com Luiz Francisco*

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O novo reajuste na tarifa das passagens do Entorno, aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no último dia 12, começa a valer à 0h deste domingo (22/2). A taxa aplicada nas tarifas será de 2,546%, o que aumenta o coeficiente tarifário para R$ 0,174576. Com isso, algumas passagens terão valores que ultrapassam os R$ 12. Cerca de 380 mil trabalhadores que se deslocam diariamente entre as cidades de Goiás e Brasília serão afetados.

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A ANTT diz que o aumento da passagem "é necessário para garantir condições adequadas de operação". As novas tarifas serão integradas às frotas que atendem à Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride/DF), que contam com municípios como Luziânia, Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás, Novo Gama e Planaltina.

Verônica de Rosário, 34 anos, mora em Santa Lúcia e o todo dia vem para o DF para trabalhar. Ela relatou que a falta de ônibus é comum para os moradores do Entorno. "Quando vamos procurar o transporte, nunca tem disponível. Eles prometem um transporte que não tem e ainda cobram um valor exorbitante para os passageiros", disse. 

A indignação da vendedora sobre o novo aumento foi tão grande que ela já fez um abaixo-assinado para cobrar melhorias nos ônibus da empresa Rota do Sol. "É uma forma de tentar conseguir os nossos direitos. Não dá mais para continuar assim", enfatizou. 

O especialista em mobilidade Wesley Ferro afirmou que a questão se torna repetitiva. "Todo ano, vemos que a situação nunca é resolvida. Em fevereiro, há o reajuste, e o passageiro continua sem perspectiva de melhora", disse. Ele disse que as vidas dos moradores do Entorno são diretamente impactadas por essa mudança. "Os trabalhadores têm que comprometer ainda mais a renda, que já é baixa, para continuar se deslocando para o DF", acrescentou. 

Uma das consequências do aumento das passagens pode ser o desemprego de quem mora no Entorno.  "Do ponto de vista do empregador, também há um olhar mais preconceituoso em relação a essas tarifas. A chance de ele desprezar a mão de obra dessa região é muito grande."

Foi o que aconteceu com o assistente financeiro Luiz Augusto Rodrigues, 25, que mora no Céu Azul. "Já perdi oportunidade de emprego por conta do preço das tarifas." 

Wesley Ferro afirma que o sistema viário do DF também pode ser impactado por esses constantes aumentos — o último havia sido em setembro de 2025. "O trabalhador vai encontrar alternativas para o transporte público, como comprar uma moto ou, até mesmo, pegar um transporte clandestino", disse. "A busca pelo transporte individual, viagens de carona e pelo transporte pirata é uma lógica que não pode continuar", acrescentou Ferro.

  • Ryan Daniel Farias, de 24 anos, garçom, morador de Céu Azul
    Ryan Daniel Farias, de 24 anos, garçom, morador de Céu Azul "Pelo preço das passagens, poderiam aumentar a quantidade do fluxo de ônibus para evitar a superlotação." Luiz Frascisco CB/DA Press.
  •  Emílio Dias, de 60 anos, servidor público, morador de Luziânia.
    Emílio Dias, de 60 anos, servidor público, morador de Luziânia. "O aumento das tarifas é injusto para os trabalhadores que pagam caro pelas passagens" Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Luiz Augusto Rodrigues, 25 anos, assistente financeiro, morador de Céu Azul
    Luiz Augusto Rodrigues, 25 anos, assistente financeiro, morador de Céu Azul "Já perdi oportunidades de emprego por conta do preço das tarifas, com o aumento, a situação pode piorar para os moradores do entorno." Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Verônica de Rosário, de 34 anos, atendente de loja de óculos, moradora de Santa Lucia
    Verônica de Rosário, de 34 anos, atendente de loja de óculos, moradora de Santa Lucia "Eu estou espalhando abaixo assinados para que não aconteça essa injustiça contra a população do entorno." Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Hilfonso Rocha, de 43 anos, pintor, morador de Santo Antônio do Descoberto
    Hilfonso Rocha, de 43 anos, pintor, morador de Santo Antônio do Descoberto "Acho injusto porque os ônibus não prestam, tinha que melhorar a qualidade dos transportes velhos ou trocar por novos Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Edith Marcelo, de 62 anos, copeira, moradora de Valparaíso de Goiás Edith Marcelo, de 62 anos, copeira, moradora de Valparaíso de Goiás
    Edith Marcelo, de 62 anos, copeira, moradora de Valparaíso de Goiás Edith Marcelo, de 62 anos, copeira, moradora de Valparaíso de Goiás "Onde eu moro, o acesso ao ônibus é difícil por conta do perigo da área, o aumento só dificuta a vida de quem trabalha no Plano Piloto Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Leticia da Silva, de 22 anos, taróloga, moradora de Valparaíso de Goiás
    Leticia da Silva, de 22 anos, taróloga, moradora de Valparaíso de Goiás "Parece rotina. Mudaram o preço das passagens há pouco tempo e, novamente, outro aumento." Fotos: Luiz Frascisco CB/DA Press.
  • Thalia Máximo, de 26 anos, agente de aeroporto, moradora de Santa Lúcia.
    Thalia Máximo, de 26 anos, agente de aeroporto, moradora de Santa Lúcia. "Se a qualidade dos transportes não mudaram, não entendo o porquê de aumentar as tarifas." Luiz Frascisco CB/DA Press.

Consórcio

Para reduzir o impacto para os moradores do Entorno, um Consórcio Interfederativo foi anunciado em fevereiro de 2025 com atuações dos governos do Distrito Federal e de Goiás. Ambos ficariam responsáveis pela gestão do transporte entre o Entorno e o DF. Após um ano do anúncio, o consórcio ainda não saiu do papel.

A ANTT, uma das partes do Consórcio, afirmou que uma versão final do protocolo ainda não foi apresentada pelos governos envolvidos. Por sua vez, o secretário do Entorno, Cristian Viana, comentou que a Agência se retirou das negociações em agosto do ano passado, após oito meses de conversa.

"A resposta nos pegou de surpresa. Os dois governadores (Ibaneis Rocha e Ronaldo Caiado) sinalizaram que querem subsidiar a passagem. Para eles, esse consórcio vai beneficiar a vida do morador do Entorno", afirmou. O secretário disse que a justificativa dada pela Agência é que eles não possuíam recursos para constituir a operação.

Com a saída da ANTT, o processo para a redução das passagens de ônibus do Entorno foi prejudicado, segundo Viana. "Se eles tivessem avisado antes que não iriam participar, nós (governos do DF e de Goiás) estaríamos em outra condição. Poderíamos estar discutindo a redução da passagem e não apenas o reajuste", explicou.  

Apesar de rodarem entre o DF e o Goiás, os contratos de atuação desses transportes pertencem à Agência. Com a competência sendo 100% da União, o secretário avalia que o Consórcio seria o meio ideal para reduzir as tarifas pagas pelos passageiros. "Por enquanto, com os contratos sendo exclusivos da ANTT, não temos como intervir diretamente nos valores cobrados", disse.

Para o secretário, o Consórcio Interfederativo possui capacidade de regularizar o fluxo de carros na capital, reduzir passagens e proporcionar melhora na qualidade dos ônibus. O titular da pasta explicou que, como todos os custos operacionais são aportados no valor da tarifa paga pelos usuários, o serviço fica precarizado.

Ele ainda ressalta que o intuito do consórcio não é apenas reduzir o valor da tarifa paga pelo usuário do transporte, e sim, tratar do transporte público de um modo geral. "A passagem subsidiada garante dignidade para o usuário do transporte público. A renovação constante da frota, intervalo menor entre os ônibus e a agilidade do serviço estavam previstos no consórcio", disse. 

Apesar da frustração nas negociações, o secretário garante que novas reuniões serão feitas. "Iremos tentar sensibilizar novamente a ANTT para essa questão. Os dois governos foram favoráveis ao consórcio", afirmou. O próximo passo será o encaminhamentos documentos para as assembleias legislativas dos dois estados para autorizar a constituição do consórcio. "Uma vez constituído com os governos, a agência pode delegar os contratos para o consórcio", finalizou.

A ANTT foi procurada ontem e não retornou. Na ocasião do anúncio do reajuste, a Agência informou que o aumento resulta de um procedimento técnico previsto em norma e adotado anualmente, com o objetivo de preservar a continuidade e a regularidade do serviço. "Como o serviço não recebe subsídios públicos, os custos da atividade — como combustível, folha de pagamento, manutenção da frota e demais despesas operacionais — são financiados exclusivamente pela tarifa paga pelos usuários, o que faz com que qualquer variação seja refletida diretamente no preço final da passagem", afirmou, em nota.

Ainda segundo a Agência, o cálculo considera a variação anual de itens essenciais à operação do transporte semiurbano, incluindo gastos com veículos, pneus, peças, lubrificantes e insumos, com base em indicadores oficiais.

*Estagiário sob a supervisão de Tharsila Prates

 


Confira os novos preços de algumas passagens

Luziânia/GO - Taguatinga/DF: de R$ 11,70 para R$ 12,05

Lago Azul (Novo Gama)/GO - Brasília/DF: de R$ 11,70 para R$ 12,05

Planaltina/GO - Brasília/DF: de R$ 11,02 para R$ 11,35

Águas Lindas de Goiás/GO - Brasília/DF: de R$ 10,80 para R$ 11,15

Povo fala

Voce acha justo o aumento da tarifa? E qual será o impacto?

Leticia da Silva,

22 anos, taróloga, moradora de Valparaíso de Goiás

"Parece rotina. Mudaram o preço das passagens há pouco tempo e, novamente, outro aumento."

Edith Marcelo,

62 anos, copeira, moradora de Valparaíso de Goiás

"Onde eu moro o acesso ao ônibus é difícil por conta do perigo da área. O aumento só dificulta a vida de quem trabalha no Plano Piloto."

Thalia Máximo,

26 anos, agente de aeroporto, moradora de Santa Lúcia

"Se a qualidade dos transportes não mudou, não entendo por que aumentar as tarifas."

Verônica de Rosário,

34 anos, atendente de loja, moradora de Santa Lúcia

"Eu estou espalhando abaixo-assinados para que não aconteça essa injustiça contra a população do Entorno."

Hilfonso Rocha,

43 anos, pintor, morador de Santo Antônio do Descoberto

"Acho injusto, porque os ônibus não prestam. Tinha que melhorar a qualidade dos transportes velhos ou trocar por novos."

Ryan Daniel Farias,

24 anos, garçom, morador de Céu Azul

"Pelo preço das passagens, poderiam aumentar a quantidade de ônibus para evitar a superlotação."

Emílio Dias,

60 anos, servidor público, morador de Luziânia

"O aumento das tarifas é injusto para os trabalhadores que já pagam caro pelas passagens."

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postado em 20/02/2026 06:00
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