Dez anos após o assassinato da estudante de biologia Louise Maria da Silva Ribeiro, o caso continua marcado na memória da comunidade acadêmica da Universidade de Brasília (UnB) e do Distrito Federal. Morta em 10 de março de 2016, aos 20 anos, dentro de um laboratório da própria universidade, Louise tornou-se símbolo da luta contra o feminicídio e da necessidade de debate sobre violência contra mulheres.
A jovem foi assassinada por Vinícius Neres Ribeiro, à época com 19 anos, também estudante de biologia. Segundo as investigações, ele dopou Louise com clorofórmio e a obrigou a ingerir o produto químico dentro do laboratório do curso, por volta das 22h. A motivação do crime, de acordo com a polícia, foi a recusa da estudante em manter um relacionamento amoroso com ele.
Em 12 de março, dois dias depois do desaparecimento, Vinícius acabou preso e confessou o crime. O corpo da jovem foi localizado em uma área de cerrado no Setor de Clubes Norte, próximo à universidade, após o próprio suspeito indicar o local às autoridades.
De acordo com a investigação, após matar a estudante, o agressor amarrou os pés e as mãos da vítima, enrolou o corpo em um colchão inflável e o transportou no carro dela até uma área de mata. O corpo foi encontrado parcialmente queimado e seminu. Também foi apontado indícios de possível violência sexual.
O capitão da Polícia Militar Jorge da Silva afirmou, na época, que a frieza demonstrada pelo suspeito durante a confissão chamou a atenção dos investigadores. “Ele demonstrava muita calma e tranquilidade e, por várias vezes, estava sorrindo durante a confissão. Esse comportamento demonstra sociopatia e covardia”, disse.
Professores, colegas e funcionários relataram choque e tristeza da universidade com o ocorrido. A diretoria do Instituto de Biologia suspendeu as aulas temporariamente e disponibilizou apoio psicológico para estudantes e servidores.
A porteira do instituto, Célia de Souza, lembrou da jovem como uma pessoa gentil. “Uma pessoa doce, só isso que posso falar. Muito doce”, disse à época.
Julgamento
Vinícius Neres foi julgado em 2017 e condenado por homicídio quadruplamente qualificado, por motivo fútil, meio cruel, uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio, além de destruição de cadáver.
A pena foi reduzida porque o réu tinha menos de 21 anos no momento do crime e confessou espontaneamente. Ele também acabou expulso do curso de biologia da UnB, onde cursava o sexto semestre.
Em 2025, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) o denunciou novamente por tentativa de feminicídio contra uma ex-namorada. Segundo a acusação, ele invadiu a casa da jovem e deixou o gás de cozinha aberto com a intenção de asfixiá-la. A vítima havia terminado o relacionamento após descobrir o histórico criminal dele.
Memória
Ao longo dos anos, a Universidade de Brasília passou a manter homenagens à estudante. Uma delas é o Jardim Naturalista Louise Ribeiro, localizado no Instituto de Ciências Biológicas da instituição.
Com cerca de 720 metros quadrados, o espaço funciona como área de preservação ambiental e memorial. O jardim reúne espécies nativas do Cerrado e acompanha processos de germinação, crescimento e floração das plantas do bioma.
O projeto foi criado pela arquiteta paisagista Mariana Siqueira e é mantido por professores, estudantes e técnicos da universidade, que realizam mutirões de manejo e plantio.
Em entrevista recente ao Correio, a professora Cássia Munhoz, do Departamento de Botânica da UnB, disse que o espaço também busca promover conscientização ambiental. “Só é possível proteger o que conhecemos, e buscamos divulgar e conscientizar a população por meio da inserção de espécies vegetais do Cerrado em espaços comunitários”, afirmou.
Entre os símbolos do local está um ipê-rosa plantado em homenagem à estudante, que se tornou um marco de memória dentro do campus.
Em outubro de 2025, data em que Louise completaria 30 anos, a Universidade de Brasília publicou uma homenagem em seu site oficial relembrando a jovem e sua trajetória.
Na mensagem, a instituição destacou que a estudante deixou “uma dor profunda e uma saudade que jamais se apagará” e ressaltou que sua história segue como símbolo de resistência e de luta contra a violência de gênero.
“A jovem cheia de vida, sonhos e amor continua sendo lembrada com respeito e sensibilidade. Que sua história ecoe como um símbolo de resistência e de luta contra toda forma de violência contra a mulher”, escreveu.
O memorial instalado no jardim traz a frase “Resistir e jamais esquecer”, reforçando o compromisso de manter viva a memória da estudante e de incentivar reflexões sobre a violência contra mulheres.
Louise sonhava em seguir carreira na biologia marinha e participava de projetos acadêmicos na universidade. Hoje, iniciativas educativas e visitas guiadas ao jardim também buscam preservar esse legado e inspirar novas gerações de estudantes.
Uma outra homenagem foi uma animação produzida por um professor da UnB e alunos do ensino médio de uma escola da rede pública do DF, em 2017. O filme Louise, exibido nos terminais de metrô da capital, ressaltava a desigualdade de gênero.
Ao Correio, o professor responsável pelo projeto, Domingos Coelho, do departamento de psicologia da UnB, explicou — à época — que a animação mostra uma menina chamada Louise que é uma garota que joga futebol. "Jovens que brincam na rua não deixam ela participar do jogo e ela resolve lutar para participar. Um dos meninos entra de carrinho na amiga dela e as duas partem para cima e ganham o jogo", diz. Domingo afirma que a ideia foi abordar a violência contra a mulher de outro ângulo.
