Em meio às articulações políticas que movimentam o cenário eleitoral no Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP) abordou ontem, em entrevista ao CB.Poder — parceria entre o Correio e a TV Brasília —, temas como a disputa ao Senado, a relação com o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e os desafios administrativos à frente do GDF. Em conversa com os jornalistas Ana Maria Campos e Carlos Alexandre de Souza, a chefe do Executivo local falou sobre o início de sua gestão, a situação fiscal do DF e os episódios recentes envolvendo segurança pública e embates políticos.
Já se passou um mês de gestão, com agenda bastante intensa. Qual o balanço desse início à frente do Governo do Distrito Federal?
Fiz um planejamento que está sendo 100% executado daquilo que me propus. O programa "GDF na sua porta" está dando muito resultado, porque consigo resolver com rapidez os problemas da população. Já tivemos duas edições, no Itapoã e no Paranoá. São demandas do dia a dia. No Paranoá, foram 33 ordens de serviço; no Itapoã, 22. Mais de 50 ações em menos de 15 dias. É um programa que aproxima o governo da população. Ficamos dois dias na cidade, praticamente transferimos o governo para lá. A próxima edição será no Riacho Fundo II.
Temos, também, um planejamento muito forte na área da saúde. Conseguimos remanejar, nesta terça-feira, cerca de R$ 224 milhões de superavit de recursos para essa área, contemplando assistência, convênios e também a parte administrativa. É um olhar prioritário para a saúde. Isso vai cobrir, por exemplo, o programa Saúde Mais Perto do Cidadão, que lançamos hoje (ontem) e já estamos atendendo mais de 210 mil pessoas, em diversas áreas, como cardiologia, ortopedia, oftalmologia e saúde da mulher, entre outras especialidades. São exames que estavam parados havia muito tempo, e fizemos um esforço grande para destravar essa demanda. O investimento inicial é de R$ 58 milhões, com convênios já assinados para viabilizar esses atendimentos. Conseguimos organizar e priorizamos isso. Contamos, também, com a ajuda de emendas federais.
Entregamos esse serviço, com atendimentos feitos pelo 156, dando uma gestão rápida ao governo, mas a população também precisa manter os telefones atualizados, especialmente quem aguarda consultas nessas áreas contempladas pelo programa, para que possamos entrar em contato e garantir a realização dos exames. Além disso, vamos encaminhar à Câmara Legislativa, na próxima semana, o projeto do SUS DF, que deve trazer mais agilidade às filas de cirurgia.
A direita em Brasília tem duas pré-candidatas ao Senado, que são a deputada Bia Kicis (PL) e a Michelle Bolsonaro (PL), e ainda tem o Sebastião Coelho (Novo). Como será a construção com o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB)?
Acho que a disputa ao Senado no DF, neste ano, vai ficar muito parecida com o que ocorreu em Goiás. O governador Caiado teve vários candidatos, mas vai ganhar quem tiver mais votos. Isso é muito claro. Vejo a importância de fazer esse diálogo com a população. Uma coisa não exclui a outra. Na campanha passada, governador Ibaneis teve duas candidatas de direita, as duas eram ex-ministras. Venceu quem teve mais voto.
Mas a senhora tem uma boa relação com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), também, certo?
É engraçado porque, quando fazemos um debate político na tribuna, as pessoas se cumprimentam depois. Isso faz parte da democracia. O que não faz parte da democracia é pintar um cenário no qual não podemos dialogar. Eu, pela minha cidade, pelo DF, todas as vezes que eu tiver que dialogar com o governo federal, preciso fazer isso. Tenho que ter essa capacidade. A população que tem bom senso entende isso. Tenho um lado definido.
A senhora está no meio de um processo eleitoral. Como está esse andamento?
Semana passada, não tinham o que falar de mim, falaram que eu estava inelegível. Não tenho nenhuma condenação. Só que eles soltam em um blog, depois no segundo, no terceiro, no quarto etc. Entrei com uma ação no Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) e a decisão foi muito dura. Redes de notícias falsas criminosas, nesse formato, resultam em inelegibilidade, de quem quer que seja. As pessoas têm que tomar cuidado.
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No início do governo, a senhora precisou dialogar com o ministro Flávio Dino em meio à intervenção na Segurança do DF. Como foi essa articulação para retomar o controle da pasta?
Consegui, com 30 dias, pegar a Segurança Pública de volta com diálogo, falando: "Ministro, essa Segurança Pública não pode ser do senhor". Acho que, quando você tem coragem e é respeitosa, as pessoas sabem que têm limites com você. Fiz uma consulta ao ministro (do Supremo Tribunal Federal) Alexandre (de Moraes), porque a exoneração dos meus comandantes-gerais saiu pelo comandante-geral. Só quem pode mandar um policial meu embora sou eu, que sou a governadora, comandante-chefe. Foi um erro no procedimento. Vou tornar isso nulo e fazer da forma correta. Acho que o governo precisa ter uma mudança, sim. O governo federal tem o lado dele, o meu lado todo mundo sabe onde vou caminhar. Vamos estar ao lado da Michelle, ao lado do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Está muito claro.
A senhora herdou um problema sério, que é o orçamento. Como está essa situação?
Os recursos já estão lá, eles não vão aparecer. Só que precisamos priorizar e controlar. Os secretários faziam planejamento e mandavam as faturas para o governador e o secretário pagarem. Temos decretos. Agora, passa por um conselho. O orçamento foi todo refeito, ninguém tem mais cotas orçamentárias. Quando queremos priorizar, não podemos fazer um corte linear de 10% em tudo. Não é possível cortar na Saúde, mas pode cortar em outras áreas nas quais a população não faz tanta questão. Saiu de um deputado da oposição que as pessoas deviam ir para as ruas. Isso é algo tão pequeno. O decreto é muito claro. Fala sobre as necessidades e que se prove preço de mercado. Estamos com muito pé no chão, sem terrorismo. É um trabalho muito sério que o secretário Valdivino (de Oliveira, da Economia) está fazendo.
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Isso impacta na relação com o governo federal, já que o DF está com nota C, em Capacidade de Pagamento (Capag)?
Fomos nota A, hoje estamos com nota C, mas vamos sanar essas contas. É engraçado, eu sou uma pessoa que acredita muito em Deus, sabe? E eu cheguei a me perguntar a Deus: "Nossa, por que herdei tanto problema?". Talvez para esses momentos eu tenha sido chamada. Fui chamada nos 66 dias do 8 de janeiro, trouxe estabilidade a esta cidade, a devolvi ao governador Ibaneis, que era o governador eleito. Não tenho dificuldade em lidar com problemas. Eu enfrento problema. Não tenho dúvida daquilo que eu dou conta de fazer, que eu sei fazer. Também não fico fragilizada com os ataques. A oposição me ataca há dois anos, sem parar. Quando eles não têm o que falar, inventam. Com uma rede de certo modo criminosa, porque soltam uma notícia falsa e a rede replica aquela mesma notícia. Só que a gente tem Justiça no Brasil.
As cidades estavam muito escuras. O que aconteceu?
Estavam. O novo gestor me trouxe algumas informações importantes. Faltavam muitos técnicos na área de engenharia, que é necessária, e ele está fazendo as trocas. A central de monitoramento tinha um horário de funcionamento e essa central não pode ter horário. Ela tem que funcionar 24 horas. Houve, ainda, a compra de alguns disjuntores que caíam facilmente e estão sendo trocados. Em menos de 30 dias, vamos ter tudo isso resolvido.
Existe um problema relativo à energia, que é o roubo de cabos. O que está sendo feito nesse sentido?
Temos um programa específico com a Polícia Civil (PCDF), com a Neoenergia, com a CEB, conscientizando a população. Fizemos um canal para denúncia, para as pessoas filmarem e mandarem as imagens. Estamos atacando não só os criminosos que efetuam o furto, mas as quadrilhas que fazem a receptação. Em conversa com o novo presidente da CEB (Elie Chidiac), vamos trazer um novo tipo de fiação e de poste, que vão impedir cada vez mais esse tipo de crime.
A senhora deu atenção especial para a segurança, inclusive com nomeações. Qual é o cenário atual?
Hoje, temos a segunda melhor segurança pública do país, perdendo somente para Florianópolis. Acompanho o painel diário com o nosso secretário (de Segurança Pública, Alexandre Patury). Nossa expectativa é de que, antes do fim do próximo mês, consigamos ser a melhor segurança pública do Brasil. Não dá para comparar Santa Catarina com o Distrito Federal. Nós lançamos um programa que chama 360 graus, de acompanhamento por câmeras de monitoramento. Já temos mais de 2.500 câmeras, sendo 1.700 do GDF e, hoje, a iniciativa privada pode aderir a esse programa.
Confira o CB.Poder na íntegra:
