BAQUE MULHER

Coletivo feminino acolhe e salva mulheres por meio da música

Movimento Baque Mulher traz encontro nacional para Brasília, pela primeira vez, com temática de combate à violência de gênero. Grupo atua em 38 filiais onde mistura música e militância para empoderamento

O silêncio é uma das ferramentas mais eficazes na manutenção da violência de gênero. Em isolamento, muitas mulheres se calam, em meio às suas iguais, há liberdade para existir e ter voz. Mas ter voz, apenas, não é o suficiente; é preciso falar mais alto, é preciso dançar, é preciso batucar. Para o Movimento Baque Mulher, é preciso maracatu. Há quase 20 anos, o coletivo social se articula para acolher e salvar a vida de mulheres por meio da música. E é com esse espírito de união que ocorre, neste final de semana, o 9° Encontro Nacional do Baque Mulher, que desembarca pela primeira vez em Brasília.

Com origem no Brasil Colonial, em Recife, o maracatu de baque virado é uma manifestação cultural afro-brasileira que une música, dança, sincretismo religioso e ritual. O conjunto musical percussivo acompanha o cortejo, em meio às cores das longas saias rodadas. Segundo a Mestre Joana Cavalcante, idealizadora do Movimento Baque Mulher, apesar do maracatu ter se tornado um símbolo de resistência negra ao longo das décadas, as mulheres ainda não tinham funções de protagonismo no movimento. "Hoje, sou a única mestra da Maracatu Nação de Baque Virado. Em 200 anos, nunca havia tido uma mestra mulher", conta.

Com essa mudança, Joana sentiu a necessidade de reunir as mulheres para ensaios e apresentações exclusivamente femininas. "Dentro do Maracatu, na época que eu assumi, era muito hostil a presença da mulher. Era preciso mudança. Assim, surgiu o Baque Mulher, em 2018", relembra Cavalcante. A partir de um grupo musical, nasceu um movimento de combate à violência, ao racismo e de empoderamento das mulheres.

Atualmente, o coletivo social está em diferentes estados do país, e conta com 38 filiais, sendo duas delas na Europa. Foi em Portugal que Ludmilla Morel, de 33 anos, conheceu o movimento. "Me sentia isolada em um país desconhecido e, em determinados momentos, até xenofóbico", relata a moradora do Jardim Botânico.

Fotos: Mariana Campos/CB/D.A Press -
Mariana Campos/CB/D.A Press -
Mariana Campos/CB/D.A Press -
Mariana Campos/CB/D.A Press -
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Mãe de dois filhos, enfrentou uma depressão e encontrou pertencimento no movimento por meio de vínculos duradouros. Para Ludmila, encontrar a organização fora do Brasil foi fundamental para se reconectar com as próprias raízes. Hoje, ela não apenas frequenta as reuniões, como está tocando o maracá junto às manifestações musicais. 

Reconhecimento

A programação do 9º Encontro Nacional do Movimento Baque Mulher ocorre desde quinta-feira e segue até amanhã, com rodas de conversa, palestras, oficinas, ensaios e momentos para confraternização. O encontro reuniu não apenas as filiadas moradoras do Distrito Federal, como também as de outros estados brasileiros. 

Rachel Lima, 47, saiu de Aracaju (SE) com seu filho Tarcísio Prata, de 5 anos, para estar presente no evento. Ela descreve que conheceu o coletivo através de uma amiga frequentadora. "Estava precisando de apoio, especialmente de mulheres", conta a mãe. Antes do contato com o movimento, ela descreve ter experienciado momentos difíceis em meios machistas, no espaço onde vivia. Ao frequentar o projeto, Rachel entendeu processos emocionais que estava passando, entre eles, o de se masculinizar para evitar o assédio sexual e até mesmo moral. 

Nas reuniões de grupo, ela voltou a se reconhecer como uma figura feminina, que não precisa adotar características masculinas para ser respeitada. "Sou uma mulher e eu não preciso me masculinizar para me proteger", afirma Rachel. Nos ensaios do maracatu, ela aprendeu à tocar o agbê — um chocalho confeccionado com uma cabaça envolta por uma trama de contas.

O encontro ocorre no Centro Comunitário Athos Bulcão, da Universidade de Brasília (UnB). A iniciativa passou a integrar as ações de extensão da faculdade, fortalecendo o diálogo entre a universidade com a comunidade. Segundo a coordenadora da filial em Brasília, Maria dos Prazeres, o projeto com a UnB deu à organização um espaço físico para ensaios, com uma sala própria. Assistente social, a coordenadora orgulha-se de estar recebendo o evento pela primeira vez.

Em lágrimas, ela reforça que o movimento existe justamente para combater a violência sofrida por mulheres. Por isso, trazer o encontro para a capital do país é significativo, não apenas como um grupo musical composto por mulheres, mas como um movimento político que está aqui para questionar-se sobre o número crescente de feminicídio enfrentado pelo estado. "Militamos dentro de secretarias, dentro de ações em prol das mulheres, buscando fortalecimento", relata.

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