Violência de gênero

Feminicídios: 'Informação mal dada revitimiza a mulher', diz Patury

Elaborada pela SSP-DF e órgãos de Justiça, publicação inédita propõe autorregulação nas redações. Objetivo é evitar espetacularização, proteger os órfãos da violência e transformar o jornalismo em aliado estratégico na prevenção de crimes de gênero

Muitas vezes, no afã de dar o furo de reportagem ou detalhar um crime trágico, a imprensa pode, sem perceber, causar um novo estrago. O alerta foi feito pelo secretário de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), Alexandre Patury, que comparou a atuação dos meios de comunicação em coberturas de feminicídios à história de um faroleiro que, por tentar ajudar os moradores locais distribuindo o óleo da engrenagem, acabou deixando o farol apagar e provocou um naufrágio. “A informação pode muito bem ser o óleo; a vida, a honra pode ser a luz. Às vezes, a informação mal dada, complexa e adiantada termina ferindo a honra e revitimizando”, ponderou.

A reflexão deu o tom ao lançamento do Guia de Comunicação sobre Feminicídios no DF, apresentado nesta quarta-feira (24/6) no evento Comunicação que Protege, no Espaço Cultural Renato Russo. O documento inédito propõe uma autorregulação incentivada e um pacto de empatia com os jornalistas. Elaborada de forma conjunta pela SSP-DF, Tribunal de Justiça (TJDFT), Ministério Público (MPDFT) e Defensoria Pública (DPDF), a cartilha reúne 20 diretrizes práticas para humanizar a cobertura de violência de gênero, proteger os órfãos do feminicídio e transformar a notícia em um instrumento de acolhimento.

A secretária da Mulher interina, Jackeline Aguiar, destacou o impacto emocional de cada ocorrência e contextualizou a criação do guia como parte das metas da força-tarefa instituída pela governadora Celina Leão em 2023. “O guia fortalece uma cultura de respeito e dignidade para as mulheres e reafirma o compromisso das instituições com a prevenção da violência, a proteção às vítimas e a construção de uma sociedade mais segura para todas”, declarou. 

Efeito copycat

A grande inovação do documento é o embasamento científico, detalhado pelo coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios da SSP-DF, Marcelo Zago Gomes Ferreira. Ele apresentou uma pesquisa empírica inédita que analisou 10 anos de dados oficiais do DF (de março de 2015 a abril de 2025), abrangendo 925 registros de violência (230 feminicídios consumados e 695 tentados). O estudo investigou a existência do efeito copycat — termo em inglês para o fenômeno de imitação ou emulação de crimes de grande repercussão midiática.

Os resultados preliminares apontaram que houve um aumento médio de 13,45% nas tentativas de feminicídio nos três meses subsequentes aos picos de casos consumados. Em meses específicos, como agosto, esses picos de reincidência superaram 100%. Zago explicou que, embora o índice de confiabilidade estatística (P-value de 0,27) indique a necessidade de séries maiores e análises complementares, o princípio da precaução exige uma resposta imediata do Estado e da mídia.

Para explicar a dinâmica do contágio social, o coordenador citou o "efeito Wanda", ocorrido na Argentina após o músico Eduardo Vasques assassinar a ex-mulher, Wanda Tadei, ateando fogo ao corpo dela. A ampla divulgação do método gerou uma escalada de crimes idênticos no país vizinho, saltando de uma média de seis casos anuais para 29 ocorrências por queimadura, número que só recuou após a divulgação massiva da sentença de prisão perpétua do agressor. “Se a gente dá palco, atenção, imagem, informação, ele atinge o objetivo”, pontuou Zago, lembrando que perfis narcisistas buscam notoriedade na mídia como um "troféu".

O promotor de Justiça George Lordello, coordenador da Comissão de Prevenção e Combate ao Feminicídio do MPDFT, endossou a necessidade de guiar a narrativa de forma protetiva. “A imprensa possui um papel indispensável na democracia. Ela informa, fiscaliza, dá visibilidade aos problemas sociais e contribui para a formação da consciência coletiva. No enfrentamento à violência de gênero, uma comunicação responsável pode romper silêncios, estimular denúncias, apresentar caminhos de proteção e alcançar mulheres que, talvez, nunca tenham procurado diretamente uma delegacia”, destacou Lordello.

Combate à romantização

A coordenadora da Mulher do TJDFT, magistrada Fabriziane Zapata, detalhou a estrutura prática do guia, que se divide em quatro eixos temáticos e conta com um checklist para fechamento de matérias em redações e um protocolo especial para o plantão das primeiras 24 horas após o crime. Zapata criticou a tendência histórica de romantizar ou patologizar a conduta dos criminosos na imprensa, o que gera uma empatia distorcida em favor do agressor.

“Quantas e quantas vezes a gente observa nas reportagens algo do tipo 'tomado de paixão', 'com muitos ciúmes', 'louco por amor', 'após o fim do relacionamento'. A gente quase sente pena, não é? A gente pensa assim: Poxa vida, era só um homem apaixonado. Mas o amor não mata. O amor cuida, protege e liberta. A gente precisa sair desses discursos de romantizar situações de violência”, assinalou a juíza.

A magistrada enfatizou que o feminicídio é um problema estrutural e fruto da desigualdade de gênero, e nunca um evento isolado ou repentino. Segundo ela, o DF registrou 23 mil ocorrências de violência doméstica no último ano, uma estatística que esconde uma imensa cifra oculta, visto que pesquisas indicam que uma mulher sofre, em média, três agressões antes de procurar uma delegacia.

“Para as vítimas que têm educação, cultura, posição social, fica ainda mais difícil denunciar a violência, porque ela se torna ainda mais culpada pela violência que ela sofre. Como é que esta mulher não denuncia? As mulheres sentem vergonha, culpa, e a gente precisa mudar esse quadro”, relatou.

A perspectiva institucional dos profissionais de imprensa foi apresentada por Renata Mielli Mafezoli, diretora da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e coordenadora-geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF. Ela reconheceu que a categoria muitas vezes reproduz estereótipos devido à correria e precarização das redações, mas convocou os colegas à reflexão política sobre a escolha de cada palavra.

“O jornalismo não é isento. Quando a gente escolhe falar que uma mulher é morta e não que um homem matou, isso é uma forma de nos posicionar perante a sociedade. Então, convido os colegas e as colegas jornalistas que estão aqui a levar essa reflexão para as redações”, defendeu Renata.

Eficácia das medidas protetivas

Outro aspecto central debatido no evento foi a desmistificação de que as garantias legais são ineficazes. A promotora de Justiça do MPDFT Gabriela Gonzalez explicou que as matérias jornalísticas precisam destacar que o sistema de proteção funciona e é capaz de preservar vidas. “O que os dados estatísticos demonstram é que as medidas protetivas realmente salvam vidas. A maioria das mulheres vítimas de feminicídio não tinham essa proteção, sequer tinham ingressado no sistema de Justiça”, argumentou Gonzalez. 

A juíza Fabriziane Zapata complementou o argumento trazendo um relato de sua experiência nas varas de violência doméstica, ressaltando o perigo de manchetes generalistas como "mulher morre após pedir medida protetiva". Em um caso real analisado pelo tribunal, a vítima havia solicitado a revogação da medida protetiva e, mesmo diante da insistência do juiz e do promotor para mantê-la protegida, recusou o amparo por baixa percepção do risco, sendo assassinada uma semana depois.

“Nós tivemos, no ano passado, 23 mil ocorrências de violência doméstica e 28 feminicídios, horríveis, terríveis, choramos por eles. Mas quantas mortes nós evitamos? São centenas de prisões preventivas e prisões em flagrante todos os meses, todas as semanas. Precisamos que essas vítimas venham para o sistema de Justiça e Segurança Pública”, reforçou Zapata.

A defensora pública do DF Antônia Carneiro destacou que o guia é uma síntese de esforços interinstitucionais. “Construído com base em estudos e evidências, o guia contribui para evitar processos de revitimização, promover uma abordagem mais humanizada e transformar a comunicação em uma aliada da prevenção e da proteção às mulheres.”

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