
Sonhadora, criativa, amante de livros e de aventuras, e que espalhava sorrisos por onde passava. Assim Valentina Nobre de Lima será lembrada pela família e pelos amigos. A menina de 11 anos morreu no domingo (5/7) após complicações provocadas por picadas de um escorpião.
O episódio expõe o avanço das infestações de escorpiões em áreas urbanas do DF, que registraram 1.974 acidentes nos primeiros cinco meses de 2026. O biólogo e mestre em ecologia Vitor Sena afirma que a presença recorrente de escorpiões em residências é um indicativo de que o ambiente oferece condições favoráveis para esses animais.
De acordo com o especialista, o escorpião-amarelo é uma das espécies que mais preocupam devido à sua capacidade reprodutiva. Vitor explica que os escorpiões costumam se esconder em objetos de uso cotidiano justamente por encontrarem nesses locais as condições ideais para permanecer durante o dia.
"Os escorpiões procuram calçados, roupas, toalhas e roupas de cama porque esses locais oferecem exatamente as condições que eles buscam, que são ambientes escuros, protegidos, com temperatura e umidade mais estáveis", diz. Por isso, ele reforça que "uma das principais medidas preventivas, em locais nos quais sabemos da existência de escorpiões, é sempre sacudir roupas e calçados antes de utilizá-los".
O biólogo alerta que o uso de inseticidas domésticos costuma ser ineficaz e pode até aumentar o risco de acidentes. Conforme explica, "ao serem expostos aos produtos químicos, os escorpiões podem abandonar seus esconderijos, dispersando-se para outros ambientes da casa e aumentando o risco de encontros com moradores". Conforme explica, a estratégia mais eficiente é o manejo ambiental, com eliminação de abrigos e controle da população de baratas.
Em relação às condições climáticas, Vitor ressalta que o episódio deve ser compreendido como uma questão de saúde pública e não como um problema causado simplesmente pela existência dos escorpiões. "[...] o aumento dos acidentes está muito mais relacionado à degradação e fragmentação dos habitats naturais e à capacidade de resposta dos serviços de saúde do que ao comportamento desses animais".
Um pote contendo mais de 200 escorpiões que foram encontrados e guardados por Thiago Saúde, cunhado de Valentina, acumulados ao longo de dois anos após a ligação da rede de esgoto local. Na casa da menina, cerca de 20 escorpiões foram encontrados no último ano, mesmo com rotinas frequentes de dedetização e limpeza.
Em nota, a SES-DF também informou que realiza monitoramento ambiental por meio das equipes de vigilância ambiental em saúde. Cidadãos podem demandar a visita técnica pelo telefone 162 ou Participa DF (https://www.participa.df.gov.br/).
Maior vulnerabilidade
O médico clínico geral Jonathan Jordão Diniz ressalta que crianças pequenas permanecem como o grupo mais vulnerável aos acidentes com escorpiões. Conforme o médico, isso ocorre porque a mesma quantidade de veneno representa uma concentração muito maior no organismo infantil. "As mortes por envenenamento escorpiônico concentram-se quase inteiramente em crianças de 0 a 9 anos de idade. Em crianças, por terem menor volume de plasma e sangue, apresentam concentrações mais elevadas para a mesma quantidade de veneno", explica.
No caso de Valentina, que recebeu mais de uma picada, a situação torna-se ainda mais grave. "Mais de uma picada pode elevar o risco por aumentar a quantidade de veneno, logo aumenta a concentração. Os riscos se mantêm os mesmos já apresentados, apenas podendo ser mais potentes por maior dose", explica.
Além da intensidade da dor, alguns sintomas indicam que o envenenamento pode estar evoluindo para um quadro mais grave. Segundo o médico, manifestações neurológicas, cardiovasculares e respiratórias exigem atendimento imediato. "A demora assistencial pode trazer grandes prejuízos no tratamento. Nestes casos, o ideal é procurar atendimento de forma imediata ou o mais rápido possível", orienta.
Segundo o sanitarista Álvaro Madeira Neto, medidas caseiras podem agravar a situação ou retardar o tratamento adequado. "A primeira orientação é simples: não tratar a picada de escorpião como um acidente menor. Deve-se acalmar a pessoa, afastá-la do animal, lavar o local com água e sabão e procurar imediatamente o serviço de saúde de referência. É muito importante que o atendimento não seja adiado", orienta.
O especialista também faz um alerta sobre práticas populares que continuam sendo adotadas após acidentes com escorpiões, mas que não têm eficácia comprovada. "É fundamental não fazer torniquete, não cortar o local, não sugar o veneno, não aplicar querosene, álcool, borra de café, ervas, pomadas improvisadas ou gelo. Essas práticas não têm benefício comprovado e podem atrasar o atendimento adequado", afirma.
De acordo com familiares, a tragédia poderia ser evitada se não fosse a omissão no socorro. No dia do acidente, em 12 de junho, Valentina teria esperado oito horas para ser transferida a um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Os relatos das falhas estruturais e da lentidão no atendimento foram detalhados pelo cunhado da vítima, Thiago Saúde, 41. O acidente aconteceu em uma manhã de sexta-feira, na residência da família, no Riacho Fundo I, quando Valentina calçava o tênis para ir à escola. Após andar com o calçado, ela foi picada mais de três vezes pelo aracnídeo. Diante do desespero, a mãe tentou acionar o Corpo de Bombeiros (CBMDF) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), mas foi informada de que não havia viaturas disponíveis.
Amparada por uma vizinha, a mãe levou a menina em um carro particular até o 6º Grupamento de Bombeiro Militar, no Núcleo Bandeirante, na expectativa de suporte emergencial. No local, contudo, a família enfrentou uma nova recusa. "Nem tiraram a Valentina de dentro do carro da vizinha; quem tirou foi a própria mãe. Apenas a colocaram sentada em uma cadeira, e nada de atendimento", afirmou Thiago.
O cenário no quartel só mudou com a chegada do pai da menina, que é policial militar e estava de serviço. O pai resgatou a filha no batalhão e a conduziu ao Hospital Regional do Guará (HRGU), o mais próximo da região. No trajeto, a estudante manifestava sintomas graves, como vômitos intensos e rigidez na boca e na língua.
No HRGu, a equipe de plantão administrou seis ampolas do soro antiescorpiônico e identificou a necessidade urgente de transferência para uma UTI pediátrica, indisponível na unidade. Como não havia leitos na rede pública, os parentes iniciaram buscas por conta própria e conseguiram reservar uma vaga particular na UTI do Hospital Santa Lúcia Norte, no início da tarde.
"Por volta das 17h, uma ambulância do SAMU estava pronta para realizar a transferência quando um médico plantonista do Hospital do Guará determinou o cancelamento do procedimento, priorizando outra ocorrência. Valentina foi devolvida ao leito do hospital público e a liberação definitiva só ocorreu por volta das 21h", contou Thiago.
Pouco após dar entrada na UTI privada, a criança apresentou taquicardia e queda na saturação, e precisou ser intubada imediatamente. Na sequência, ela sofreu três paradas cardíacas consecutivas — a primeira com duração aproximada de 40 minutos —, resultando em falência múltipla de órgãos. "Se a gente tivesse ganho esse tempo que o médico cancelou, ela estaria bem, com certeza. A reação do veneno seria outra por conta dos medicamentos", lamentou o cunhado, pontuando que o foco do núcleo familiar permanece no suporte mútuo após a perda e que medidas judiciais não foram deliberadas até o momento.
Respostas oficiais
Ao Correio, a Secretaria de Saúde (SES-DF) informou que "a paciente recebeu atendimento imediato onde foram adotadas as medidas assistenciais indicadas para estabilização do quadro clínico". Segundo a pasta, Valentina foi acompanhada durante todo o período em que permaneceu no HRGu.
Questionada sobre a falta de ambulâncias, a SES-DF não se manifestou, mas pontuou que "a paciente foi inserida no sistema de regulação para transferência a uma unidade com leito especializado". Além disso, acrescentou que a "disponibilização de vagas de UTI segue critérios técnicos de regulação, que consideram a gravidade e a prioridade clínica de cada paciente".
Ainda segundo a SES-DF, "não houve, em momento nenhum, retirada da paciente da ambulância. A remoção aconteceu conforme os protocolos, mantendo a paciente sob acompanhamento médico e suporte hospitalar na Sala Vermelha da unidade", reforçou a pasta.
Em nota, o CBMDF lamentou a morte da criança e manifestou solidariedade aos familiares e amigos dela. Acerca da falta de suporte no atendimento, a corporação explicou que "todas as viaturas operacionais da unidade encontravam-se empenhadas em outras ocorrências de urgência e emergência, o que impossibilitava o envio imediato de um recurso de socorro para o transporte da paciente".
Conforme a instituição, a disponibilidade de viaturas de emergência está diretamente relacionada à demanda operacional existente em cada momento: "Eventualmente, pode ocorrer de todos os recursos de uma determinada unidade estarem simultaneamente empregados em outras ocorrências, sem que isso interrompa a busca por alternativas para prestar o atendimento à população".
Prevenção
- Olhe bem calçados, roupas, toalhas, roupas de cama etc. São locais que oferecem ambiente propício aos escorpiões
- Não use inseticidas domésticos. São ineficazes contra os aracnídeos e podem aumentar o risco de acidentes.
Em caso de picada:
- Sintomas graves incluem: manifestações neurológicas, cardiovasculares e respiratórias
- Deve-se acalmar a pessoa, afastá-la do animal, lavar o local com água e sabão e procurar imediatamente o serviço de saúde de referência
- Não fazer torniquete, não cortar o local, não sugar o veneno, não aplicar querosene, álcool, borra de café, ervas, pomadas improvisadas ou gelo
Fontes: Jonathan Jordão/Vitor Sena/Álvaro Madeira Neto/CBMDF/SES-DF
Onde buscar o soro
- Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB)
- Hospital Regional da Asa Norte (HRAN)
- Hospital Regional do Guará (HRGu)
- Hospital Regional de Brazlândia (HRBz)
- Hospital da Região Leste (Paranoá)
- Hospital Regional de Ceilândia (HRC)
- Hospital Regional do Gama (HRG)
- Hospital Regional de Santa Maria (HRSM)
- Hospital Regional de Planaltina (HRPl)
- Hospital Regional de Sobradinho (HRS)
- Hospital Regional de Taguatinga (HRT)

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