
O Senado costuma ser um ambiente marcado por tons sóbrios, porém, ele amanheceu mais colorido na segunda-feira (3/8). Na lateral do Bloco 10, voltada para a via N2, um mural cívico de quase 70 metros quadrados transformou uma parede antes cinza em um manifesto visual sobre respeito, diversidade, inclusão e equidade, conceitos que formam a base para construir ambientes justos, seguros e humanos
A obra chama a atenção de quem passa diariamente pelo Congresso e leva para além dos corredores do parlamento uma mensagem de acolhimento. A pintura integra a campanha Respeito é Regra – 2026, voltada à promoção da ética, da dignidade e do combate ao assédio no ambiente de trabalho.
Idealizada pela Diretoria-Geral (DGer), com apoio financeiro do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindilegis), a iniciativa busca reforçar a cultura de respeito entre os servidores e também alcançar visitantes e pessoas que circulam pela região. "É uma forma de reafirmar que a instituição também é feita de pessoas, em sua pluralidade, e de tornar a diversidade parte visível da vida democrática." conta ao Correio a coordenadora do Núcleo de Coordenação de Ações de Diversidade, Equidade e Inclusão (Nudiv), Stella Vaz.
Assinada pela artista visual brasiliense Natália Carneiro, a obra reúne pessoas com deficiência, neurodivergentes e representantes de diferentes etnias, religiões, idades e identidades de gênero. A composição também traz referências à comunidade LGBTQIA+, ao cordão de girassol, que é símbolo internacional das deficiências ocultas, e a outros elementos que reforçam a valorização da diversidade.
Stella também enfatiza que a pintura representa mais de uma década de ações do parlamento voltadas à valorização das diferenças e ao enfrentamento do assédio. “Trouxemos a ideia de fazer o mural para que esse sentimento de acolhimento e respeito às diferenças não ficasse restrito ao público interno, mas também chegasse às pessoas que visitam ou passam pelo Senado”, afirmou.
A coordenadora reforça que o principal objetivo da ação é dar visibilidade, por meio da arte. "Um compromisso que orienta as ações internas do Senado: o respeito, valorização e acolhimento à diversidade em todas as suas dimensões." completa.
Arte como manifesto
Natália conta ao Correio que recebeu o convite para produzir o mural em fevereiro deste ano, depois que suas ilustrações para o livro Como não ser um babaca, publicado com apoio do Sindilegis, passaram a circular entre os servidores da Casa. A coordenadora do Nudiv, completa sobre a escolha: "Buscamos uma artista mulher, brasileira, cujo trabalho dialogasse com uma perspectiva interseccional (...), a escolha recaiu sobre Natália, trazendo um significado adicional, que é valorizar a produção cultural do Distrito Federal e, mais especificamente, a produção feita por mulheres."
A artista explica que o projeto nasceu primeiro no papel, foi refinado digitalmente e, depois, projetado na parede antes do início da pintura, que durou oito dias e começou em 16 de julho. “O projeto visual é um manifesto. Quis criar uma arte vibrante, capaz de chamar a atenção de longe e celebrar a força, a resiliência e a luta contínua por equidade e justiça.”
Segundo a Natália, o aspecto mais importante da obra é fazer com que as pessoas se sintam acolhidas e que a mensagem seja transmitida. No mural, as quatro palavras centrais saem de um megafone, representando a liberdade de expressão e a voz das demandas sociais: “respeito”, “solidariedade”, “acolhimento” e “equidade”.
A narrativa visual reúne uma mulher indígena, pessoas de diferentes corpos e tons de pele, símbolos da diversidade religiosa e da comunidade LGBTQIA+, além de personagens que desafiam estereótipos de gênero. “A força desse movimento vem justamente da inclusão. Espero que as pessoas se sintam acolhidas e representadas quando olharem para essa parede, que agora tem vida e um propósito”, afirma.
Masculinidade e feminismo em pauta
Além de retratar a diversidade, a obra também propõe uma reflexão sobre masculinidade e feminismo. Segundo Natália, o homem retratado ao lado de uma flor simboliza a delicadeza, em uma tentativa de subverter a ideia machista de que a masculinidade precisa estar associada à brutalidade.
Ao seu lado, uma mulher indígena estende a mão ao personagem, como se o convidasse a integrar as pautas representadas pela faixa sustentada por mulheres e pelas palavras “respeito”, “solidariedade”, “acolhimento” e “equidade”, posicionadas no centro da pintura.
Pintura reuniu estudantes da UnB
Pela dimensão da obra, Natália contou com o apoio de estudantes do projeto de extensão Biombo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), que auxiliaram na execução da pintura.
Segundo ela, a experiência também se transformou em um espaço de troca sobre muralismo, mercado de trabalho e processos criativos. “Conversamos muito sobre a representatividade desse mural e senti que isso motivou ainda mais os estudantes a participarem da execução. Foi uma troca muito rica.”
Para Natália, deixar sua arte em um dos espaços mais simbólicos da capital federal representa um dos momentos mais importantes da carreira. “O Congresso é um grande vetor de mudanças para o país e palco de fatos históricos. Poder deixar minha arte nesse espaço, falando sobre respeito e inclusão, é um dos trabalhos mais gratificantes que já realizei.”
As visitação do mural podem ser agendadas pelo site:
https://www2.congressonacional.leg.br/visite
Confira as imagens:
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca
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