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Psiquiatra defende redução de jornada e alerta para riscos da 6x1

Pós-graduada em medicina do trabalho, a psiquiatra Lia Lopes afirma que cargas horárias mais adequadas e boas condições de trabalho contribuem para a saúde mental dos funcionários e podem trazer benefícios para empresas e sociedade

Psiquiatra e pós-graduada em medicina do trabalho Lia Lopes é a entrevistada do CB.Saúde. Na bancada, as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Psiquiatra e pós-graduada em medicina do trabalho Lia Lopes é a entrevistada do CB.Saúde. Na bancada, as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A aprovação, pelo Senado, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1 e garante dois dias de folga por semana aos trabalhadores tem como uma de suas principais defesas o impacto da jornada na saúde mental. De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, 67% dos brasileiros consideram que trabalhar seis dias seguidos prejudica a saúde mental. O tema foi discutido pela psiquiatra e pós-graduada em medicina do trabalho Lia Lopes, entrevistada do CB.Saúde — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília — desta quinta-feira (15/10). Em conversa com as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, ela analisou os efeitos da sobrecarga profissional na saúde dos trabalhadores, na produtividade e nas relações familiares.

Quais são os riscos de se trabalhar na escala 6x1?

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Os números são altos e confirmados por vários estudos. Vemos, no dia a dia clínico, que existe um adoecimento ligado à carga horária e às condições de trabalho. Esse impacto se reflete na sociedade como um todo e na economia. O adoecimento do trabalhador provoca um efeito cascata sobre a família e o próprio empregador.

O trabalhador pode ficar mais produtivo?

Em empresas e locais onde existem jornadas de trabalho mais adequadas e boas condições de trabalho, sim, porque não se trata apenas da redução da jornada, há uma resposta melhor desse trabalhador ao empregador. No fim, acreditamos que possa haver uma diminuição das faltas ao trabalho, uma melhora na produtividade e na qualidade das entregas. Se sairmos do microcosmo do local de trabalho, essa melhoria se estende a toda a sociedade: à presença dos pais na escola dos filhos e à economia do país, que começa a se movimentar de maneiras diferentes. Podemos ter boas equipes que consigam organizar a relação entre empregador e empregado, de modo que seja muito boa para ambos.

As pessoas questionam muito sobre usar o dia livre para fazer um bico. O que acha?

Se esse bico trouxer uma nova atividade ou, até mesmo, uma questão financeira que possa diminuir a ansiedade causada por algumas contas ou por uma situação financeira que não esteja bem organizada, isso vai trazer um benefício para a saúde do trabalhador. Essa liberdade pode proporcionar uma melhora e um ponto de equilíbrio. A tendência é que seja algo saudável. Se houver algum aspecto negativo, ele deverá atingir um número menor de pessoas. Os estudos mostram que os trabalhadores conseguem se organizar, mesmo quando têm outro trabalho. Isso vai proporcionar uma saúde mental melhor e se refletir positivamente no trabalho fixo.

Como diferenciar o cansaço normal dos sinais de adoecimento por causa do trabalho?

Apesar de estar tudo interligado, vamos identificar uma doença ocupacional quando percebermos que o trabalho já não proporciona prazer e que a pessoa o identifica como um lugar onde não consegue mais ter esperança. Vamos observar trabalhos mais exaustivos, com condições em que a pessoa não se sente valorizada e relações interpessoais entre colegas e empregadores marcadas pela animosidade. Assim, conseguimos fazer essa distinção para além do cansaço natural. Vivemos na sociedade do cansaço, com várias demandas. Contudo, conseguimos fazer essa diferenciação.

Com a decisão, muitos profissionais estão com medo de como será o futuro. Qual recado você daria para quem está angustiado?

Existe esse temor. Acredito que boa parte das pessoas esteja se sentindo vitoriosa. É um grande avanço nas relações de trabalho. O que digo é que precisamos tentar manter a cabeça fria para nos organizar e estabelecer um bom diálogo entre empregados e empregadores. Ressalto que a mão de obra humana não pode ser substituída com facilidade. As máquinas nos auxiliam e são importantíssimas, contudo, precisamos do ser humano. É uma falácia acreditar que vamos ser substituídos. Estamos em uma guerra de narrativas muito intensa, mas precisamos colocar os pés no chão. O que a ciência e a experiência de outros países mostram é que esse é um caminho para melhorarmos a empregabilidade, a saúde e a economia.

O fim da escala 6x1 tem impacto também na educação?

Pais que estão presentes e têm condições de acompanhar o desenvolvimento dos filhos contribuem para que a sala de aula seja mais harmoniosa. Isso terá reflexos na educação e na qualidade de vida do professor. Pais que não conseguem acompanhar a vida escolar dos filhos, tanto do ponto de vista acadêmico quanto emocional, acabam deixando crianças que não recebem o acolhimento necessário para que o professor tenha de lidar com essa demanda a mais.

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postado em 16/10/2026 05:00
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