
A saúde mental de adolescentes e jovens brasileiros ganhou um reforço inédito. Uma parceria entre o Ministério da Saúde, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) vai ampliar em 1.000% a capacidade de atendimento do Pode Falar, canal virtual de apoio emocional voltado para pessoas de 13 a 24 anos. A expectativa é que o serviço passe dos atuais mil atendimentos mensais para 11 mil, tornando-se uma das maiores iniciativas do país voltadas à escuta e acolhimento desse público.
Criado em 2021, o Pode Falar funciona gratuitamente e de forma anônima pelo WhatsApp, Telegram e site. Em cinco anos de atuação, já realizou mais de 44 mil atendimentos. Com o novo acordo, o Ministério da Saúde investirá mais de R$ 15 milhões ao longo de dois anos para ampliar a estrutura do programa e fortalecer sua integração com a rede pública de saúde e assistência social.
A expansão acontece em um momento em que indicadores nacionais apontam um agravamento do sofrimento psíquico entre adolescentes. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE com informações coletadas em 2024, mostram que 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram sentir tristeza na maior parte do tempo.
Outros 32% relataram ter sentido vontade de se machucar propositalmente nos 30 dias anteriores à pesquisa, enquanto 18,5% disseram sentir que “a vida não valia a pena ser vivida”.
- Leia também: Um pedido de socorro silencioso entre os jovens
Para Gabriela Mora, especialista em desenvolvimento e participação de adolescentes do UNICEF no Brasil e coordenadora da iniciativa, os números revelam uma crise que exige respostas urgentes. “São dados que evidenciam essa crise de saúde mental que adolescentes vivenciam e enfrentam no Brasil. O Ministério da Saúde deu uma resposta a essa crise ao apoiar o Pode Falar e conectá-lo às políticas públicas”, afirma.
Como funciona o atendimento
O projeto foi desenvolvido especificamente para adolescentes e jovens e busca oferecer uma escuta acolhedora, sem julgamentos e adaptada à realidade dessa faixa etária. Ao acessar a plataforma, o usuário é inicialmente recebido por uma inteligência artificial chamada Ariel, responsável por apresentar conteúdos sobre saúde mental e fazer uma triagem inicial. Caso deseje, a pessoa pode ser encaminhada para um atendimento humano.
As conversas acontecem principalmente por mensagens de texto, embora também seja possível enviar áudios. Segundo Gabriela Mora, a experiência mostrou que a comunicação escrita é a preferida dos adolescentes. “Para o usuário, o Pode Falar funciona como conversar com um amigo pelo WhatsApp”, explica.
Os atendimentos são realizados por estudantes universitários de áreas como psicologia, enfermagem, medicina, educação e outras ligadas ao cuidado humano. Todos recebem formação contínua e atuam sob supervisão de professores e especialistas.
Atualmente, o canal funciona de segunda a sábado, das 8h às 22h, horário de Brasília. Com os novos investimentos, o número de atendentes passará de cerca de 30 para 300 profissionais em formação.
Outro diferencial é a possibilidade de priorização de casos mais graves. A plataforma foi programada para identificar palavras-chave associadas a situações de risco e acelerar o encaminhamento para atendimento humano quando necessário.
Escuta sem julgamento e anonimato
Um dos pilares do programa é a garantia de anonimato. A plataforma foi desenhada para não coletar dados pessoais dos usuários e os atendentes não têm acesso às informações de perfil de quem procura ajuda.
Segundo Gabriela, essa característica contribui para que adolescentes se sintam mais seguros para falar sobre seus sentimentos e dificuldades. “Ter um espaço seguro de escuta, sem julgamentos, é o primeiro passo para que adolescentes e jovens deem nome ao que sentem, saibam com quem contar e busquem ajuda nos serviços públicos.”
Ela destaca que o objetivo não é substituir o atendimento especializado em saúde mental, mas atuar como porta de entrada, prevenção e orientação. “Quando a pessoa fala dos seus sentimentos, ela dá nome às suas dores e angústias. Isso pode ajudar na prevenção de casos graves e facilitar o acesso aos serviços existentes.”
Integração com o SUS
Além do aumento da capacidade de atendimento, a parceria prevê uma conexão mais direta entre o Pode Falar e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS). Na prática, os atendentes passarão a contar com informações mais detalhadas para orientar adolescentes e jovens sobre os serviços disponíveis em suas cidades, incluindo unidades de saúde, assistência social e redes de apoio comunitário.
A proposta é ampliar o leque de possibilidades de cuidado para além da conversa online. “O ingresso do Ministério da Saúde permite não apenas dar escala ao programa, mas conectar os adolescentes aos serviços que já existem em seus territórios”, explica Gabriela.
Meninas são maioria entre os atendidos
A experiência acumulada pelo Pode Falar também ajuda a revelar quem mais procura apoio emocional. Hoje, cerca de 75% dos usuários da plataforma são meninas. O dado acompanha os resultados da PeNSE, que apontam uma diferença significativa entre os gêneros quando o assunto é sofrimento psíquico.
Enquanto 25% das meninas afirmaram sentir que a vida não valia a pena ser vivida, entre os meninos o percentual foi de 12%. Para Gabriela, fatores como pressão estética, violência de gênero e exposição nas redes sociais ajudam a explicar parte dessa diferença.
Por outro lado, ela alerta que os dados também revelam um sofrimento silencioso entre os meninos. “Os meninos muitas vezes não têm com quem falar sobre suas angústias. Existe uma cultura que dificulta o contato com os próprios sentimentos e isso também precisa ser enfrentado.”
O tema das masculinidades, inclusive, foi o foco do seminário anual do Pode Falar realizado nesta semana.
Atendimento intercultural para povos indígenas
A expansão do programa também inclui o fortalecimento de uma abordagem intercultural. O Pode Falar passou a contar com uma equipe de atendentes e supervisores indígenas do povo Xakriabá, do norte de Minas Gerais, e prepara a formação de novos grupos em outras regiões do país.
A iniciativa permitirá que adolescentes indígenas que desejarem sejam atendidos por profissionais que compartilham referências culturais semelhantes.
Embora seja mais conhecido pelo atendimento online, o Pode Falar reúne outras frentes de atuação. A iniciativa desenvolve pesquisas sobre saúde mental, promove formação de profissionais, articula redes de adolescentes e participa da construção de políticas públicas voltadas à juventude.
As análises das conversas realizadas na plataforma também ajudam a identificar desafios enfrentados pelos jovens brasileiros. Entre os temas mais recorrentes aparecem conflitos familiares, bullying, racismo, machismo, violência de gênero e dificuldades de diálogo com adultos de referência.
Para Gabriela Mora, um dos principais aprendizados obtidos ao longo dos anos é que adolescentes precisam ser mais ouvidos. “Os adolescentes precisam de espaço para falar. Hoje, muitos não encontram essa escuta nem na família, nem na escola, nem nos serviços de saúde.”
Ela acredita que a experiência do Pode Falar pode inspirar outras iniciativas dentro e fora da área da saúde. “Os adolescentes são sujeitos de direitos e podem fazer parte da solução dos problemas que enfrentam. Quando existe uma escuta acolhedora e sem julgamentos, eles conseguem construir caminhos para cuidar melhor da própria saúde mental", conclui.

Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil