Música

Ian Coury leva o bandolim de Brasília ao jazz global e às salas da Berklee

Ian Coury se formou na Escola Raphael do Clube do Choro, estudou na Berklee College of Music e desenvolve projetos em parceria com grandes nomes do jazz norte-americano

Ian Coury tem uma história longa com o Clube do Choro -  (crédito: Valéria Carvalho)
Ian Coury tem uma história longa com o Clube do Choro - (crédito: Valéria Carvalho)

O primeiro contato de Ian Coury com a música veio aos 4 anos de idade, durante as aulas de capoeira. Pandeiro, atabaque, berimbau e agogô foram os instrumentos que chamaram a atenção na prática. Três anos depois, participou de um show de talentos na escola e, com os amigos, criou uma banda para se apresentar. A dúvida veio: qual instrumento escolher? Pensou na guitarra, grande e pesada demais; surgiu a ideia da bateria, muito barulhenta para o ambiente doméstico. O pai sugeriu, então, o cavaquinho. 

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Pouco tempo depois, foi ao show de Armandinho Macedo no Clube do Choro e se apaixonou pelo som do bandolim. No intervalo, Ian comentou com o músico que havia se encantado com o instrumento, mas já tinha começado com o cavaquinho e não sabia o que fazer. O conselho de Armandinho foi: "Compra um bandolim e pede para seu pai te colocar na Escola Brasileira de Choro Rafael Rabello, o Clube do Choro de Brasília".

Desde então, o máximo de tempo que passou sem tocar o instrumento foram duas semanas. Ian se formou em produção de escrita contemporânea, na Berklee College of Music, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiosas instituições do ensino da música no mundo. Atualmente, faz shows pelo Brasil e Estados Unidos. Para divulgar a música instrumental brasiliense, criou o projeto Quintal da Música. Ele participa do Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília, ministrando oficinas.

Nesta entrevista ao Correio,  Ian conta como começou na música, as experiências nos Estados Unidos, os planos e os desafios da cena brasiliense para os músicos instrumentais. 


Como você começou a se apresentar por Brasília?

A minha primeira grande apresentação foi no Clube do Choro de Brasília. Eu tinha 12 anos de idade. A casa lotada, foi incrível. A ideia desse show era tocar com o meu grupo, mais jovem, e também trazer a velha guarda. A galera da velha guarda, que ajudou a fundar o Clube do Choro… o seu Walci, seu Américo, e Carlinhos Sete Cordas e o Pinheirinho do Pandeiro. Eu também tocava todos os fins de semana no Vila Madá, que era um restaurante no Deck Norte de Brasília, tocava todo domingo no Café do Chefe, na 108 Norte. Enfim, tocava todo fim de semana, desde os meus 9 anos até hoje, eu toco todos os fins de semana. E toquei no Pontão do Lago Sul, no Bierfass, durante seis anos, quinzenalmente, aos sábados.

Qual a importância do Clube do Choro na sua formação como músico?

Eu comecei tendo aula particular com Marcelo Lima, primeiramente, de bandolim. Depois, eu entrei no Clube do Choro, e também continuei fazendo aula com o Marcelo. Ele também era professor do Clube do Choro e me dava aula particular, fora do Clube do Choro. E eu estive mais ou menos no Clube do Choro durante uns dois anos. Só que eu aproveitava muito mais aula particular, porque quem estudava lá no Clube do Choro era mais velho. Não tinham muito tempo para estudar e eu estava naquela sede de tocar, de tirar música. Então a aula particular me ajudava mais. Mas o Clube do Choro foi muito importante pelos contatos, o encontro com pessoas novas, a possibilidade de novas amizades e a criação de grupos. Aliado ao Clube do Choro, também fazia aula na Escola de Música de Brasília, de musicalização infantil. Estudava bastante, eu tinha professor particular e essas duas instituições. Até que depois eu fui para Berklee.

E em Berklee?

Eu passei para Berklee em primeiro lugar do Brasil, com 16 anos, no segundo ano do ensino médio. A prova foi em São Paulo. Fiz a prova, ganhei bolsa. Terminei o ensino médio e fui. Fiz minha formação na Berklee, em Boston. É um lugar onde eu moro atualmente. A minha formação foi em Contemporary Writing Production, que é produção escrita e produção contemporânea. Basicamente, me formei em produção musical e arranjo, para escrever para orquestra, big band. E, ano passado, terminei meu bacharelado. Entrei também num processo seletivo para fazer o mestrado no Berklee Global Jazz Institute. Tive aulas com os maiores músicos de jazz do mundo, entre eles, o quarteto do Wayne Shorter,  considerado um dos maiores saxofonistas de jazz da história. Tive aula com John Patitucci, baixista; com Danilo Peres, que também é o diretor artístico deste mestrado. E também com Joe Lovano, De fato, o mestrado mudou minha vida, mudou minha concepção. 

Quem te incentivou a fazer o processo seletivo em Berklee?

Nós gravamos o DVD desse primeiro show. A minha irmã foi a Boston, ela é muito inteligente, então ela passou em um monte de faculdade. E ela foi a Boston visitar, para conhecer a faculdade dela lá. Ela acabou estudando na USP, mas foi para conhecer, e meu pai falou: "Ah, já que você vai estar em Boston, leva um DVD desse para o professor de bandolim lá da Berklee". Depois de um mês, ele me mandou um e-mail, eu tinha de 13 para 14 anos, falando: "Vem para cá, o curso vai ser de graça para você, você paga só a sua passagem". Eu comecei a ir para Boston, para Berklee, muito cedo. Fiz o curso de verão de uma semana; no ano seguinte, fiz o curso de verão de cinco semanas. Depois, gravei um EP com Ebinho Cardoso, que é um baixista de lá, e a gente já saiu em turnê. Fomos de Boston a Los Angeles dirigindo,  tocando em várias cidades. No ano seguinte, em 2018, eu repeti essa turnê com o Ebinho. E a gente tocou na NEM, em Los Angeles, que é a maior feira de música da do mundo. Então, com 14 e 15, eu já estava indo para os Estados Unidos. Todo ano estava surgindo shows lá, tocando em Nova York, em simpósio, em encontros de bandolins… Enfim, já estava começando a aparecer na cena lá. Então, quando eu decidi fazer a prova, eu já tinha esse conhecimento.

Como é a relação com a tradição no seu trabalho como compositor?

A minha ideia é, claro, sempre respeitar nossa tradição, o choro, que é a base. Mas o que eu quero é, de fato, poder evoluir. Não diria evoluir, porque é muito difícil você tratar de uma tradição, de uma coisa que já está pronta e dizer que vai evoluir, mas eu quero tentar fazer um som diferente, trazer um jeito de tocar diferente, de pensar diferente a música. Claro, trazendo outras referências de fora, não só do jazz, mas de outras referências que eu tive a oportunidade de tocar e conviver nos Estados Unidos. A faculdade abriga mais de 45 países, então eu toquei música africana, música indiana, música japonesa, música chinesa, enfim, de todo tipo. Música latina no geral, claro, música brasileira. Então, a ideia é misturar e, de alguma forma, trazer uma coisa diferente, evoluir. Sair  um pouco da mesmice. O bandolim é um instrumento muito ligado ao choro, toda vez que você vai tocar, é choro ou samba. E eu não queria isso. Eu não gosto de colocar ele na caixa. Gosto de sair, eu gosto de experimentar, explorar. 

Com o que você trabalhou no mestrado?

A tese do mestrado foi interessante, porque quando eu cheguei lá, pensei: "cara, eu não vou estudar música brasileira nos Estados Unidos, pelo amor de Deus, né? Vou estudar no que os caras são craques, o jazz." Eu já vinha estudando no meu bacharelado, mas quando eu fui pro mestrado, convivendo com esses caras, com os melhores do mundo, literalmente, inclusive, ganharam o Grammy agora, mudou a minha concepção completa e eles abriram muito minha cabeça. A ideia era basicamente pegar o choro e colocar conceitos do global jazz, que são conceitos que o Andy Shorter desenvolveu, como o Zero Gravity, e os tetracordes, que o Danilo Peres desenvolveu. A minha música que, de fato, reflete essa pesquisa chama-se Tetra Choro, que é um chorinho que eu fiz usando apenas tetracordes para compor.

Você gravou algumas dessas músicas?

 Eu apresentei cinco músicas, mas eu tenho sete. E vou gravar mais agora algumas em janeiro com o regional, porque a ideia era: todas as músicas que eu compus tinham que funcionar em regional, o regional de choro tradicional, e também com o quarteto ou quinteto de jazz. Ou seja, tinham que funcionar com baixo, bateria e piano. E tinha que funcionar também com violão de sete cordas, violão de seis cordas, cavaquinho, pandeiro e bandolim. E deu muito certo, inclusive, fiz um show no Clube do Choro, agora, há três semanas. E eu só toquei, basicamente, as minhas composições novas do global jazz, enfim, toda essa pesquisa da minha tese. E funcionou igual uma luva, a galera pirou, foi unânime. 

Qual a sua visão sobre a música brasiliense?

A música brasiliense é maravilhosa. Brasília é um celeiro de músicos bons, muito por conta de ter instituições incríveis, como o Clube do Choro e a Escola de Música. E é uma cidade que, de alguma forma, a gente está sempre pertinho. Dá 15 minutos, estamos na casa de fulano, dá 20, no máximo, meia hora, estamos longe de Brasília. Então, é uma cidade que possibilita esse encontro. Eu percebi que ela tem um ritmo mais tranquilo, sabe? Brasília é uma cidade tranquila de se viver, é prazerosa, dá tempo de pensar. Eu acho que por isso que tem tanto músico bom, além de, claro ter pessoas e instituições que te apoiam. Uma coisa que eu acho legal é que a gente podia ter mais espaço para música instrumental aqui em Brasília. Isso é uma crítica que eu quero fazer. Porque não tem muito lugar para música instrumental, e, geralmente, os lugares que existem ou existiam acabam. Acaba que os músicos têm que se render aos outros estilos musicais mais famosos como samba, o pop, para poder conseguir viver de música. Isso é um problema. Seria legal ter um pouco mais de espaço para música. Tanto que, por falta de espaço de lugares para tocar, a gente criou um projeto na minha casa, chamado Quintal da Música, que já está na terceira edição.

Quais são seus planos?

Ano que vem, vou lançar dois álbuns: o do mestrado, mais para o final do ano; e, no início do ano, em março, vamos lançar o álbum com a parceria do Igor Souza, intitulado Novos Caminhos. Nós vamos lançá-lo lá nos Estados Unidos com uma turnê de um mês. Ele tem a participação do Xande de Pilares e Pretinho da Serrinha. 

*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco

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postado em 19/01/2026 06:00
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