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Alana Cabral afirma que compôs Joélly "com delicadeza e responsabilidade"

Aos 18 anos, a intérprete da adolescente grávida Joélly em "Três Graças", Alana Cabral, demonstra maturidade artística e consciência do peso que carrega a história que ajuda a contar. "É uma personagem profundamente humana", afirmou ao Correio

Alana Cabral, atriz -  (crédito: Guilherme Lima)
Alana Cabral, atriz - (crédito: Guilherme Lima)

Na tela, Joélly cresce diante do Brasil todas as noites. Fora dela, Alana Cabral, de 18 anos, também atravessa um rito de passagem. Ao integrar o núcleo protagonista de Três Graças, novela das 9 da TV Globo, a atriz se instala em um lugar simbólico e histórico da teledramaturgia brasileira: aquele em que as histórias ganham escala nacional, provocam debates coletivos e ajudam a redefinir imaginários. Jovem negra, atenta ao mundo ao seu redor, a paulistana vive um momento que não se explica apenas como ascensão profissional, mas como maturação artística e política.

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Joélly não é uma personagem nada confortável. Adolescente da periferia, grávida aos 15 anos repetindo um traço geracional que vem da avó e da mãe, alvo de bullying e pressionada a abandonar os estudos, ela carrega no corpo e no olhar as marcas de um amadurecimento precoce. É uma jovem obrigada a crescer rápido demais, mas que se recusa a perder a ternura, a lucidez e o direito de sonhar. "É uma personagem profundamente humana, construída a partir de muitas camadas emocionais, sociais e afetivas", define Alana. "Desde o primeiro contato com o texto, me chamou atenção o fato de ela não ser reduzida a um rótulo."

Essa recusa ao raso é o que sustenta a força da personagem. Joélly não existe apenas como símbolo ou alerta social, mas pulsa contradições. "O que mais me conectou a ela foi essa mistura de coragem e vulnerabilidade. Ela enfrenta situações duras, mas não perde a capacidade de amar, de sonhar e de se posicionar. Ela não se cala diante das injustiças e, ao mesmo tempo, carrega medos muito reais", defende a atriz, que começou cedo no ofício e encontra agora o protagonismo na produção criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva.

Alana Cabral, atriz
Alana Cabral, atriz (foto: Guilherme Lima)

Sem julgar nem romantizar

Para dar conta de temas tão densos quanto gravidez na adolescência, bullying e desigualdade social, Alana escolheu o caminho da escuta e da responsabilidade. A preparação foi cuidadosa, quase silenciosa, feita de aproximações com histórias reais. "Eu entendi desde o início que esses temas precisavam ser tratados sem julgamento e sem romantização", explica. "Busquei ouvir relatos de mulheres que viveram experiências parecidas, conversei com profissionais da saúde e da educação. Quis entender não só os fatos, mas os sentimentos envolvidos: o medo, a solidão, a pressão social."

O mergulho da jovem atriz se reflete na tela. Joélly sente no corpo o peso das decisões que precisa tomar cedo demais, e o público reconhece ali algo familiar. "Ela não vive essas questões de forma isolada; elas atravessam a autoestima, as relações, o modo como ela se vê no mundo", diz Alana. É justamente essa identificação que transforma a personagem em catalisadora de debates dentro e fora das redes sociais.

Ser protagonista de uma novela das 21h não é apenas um marco de carreira, mas também um gesto coletivo. "Representa uma conquista que vai muito além da minha trajetória individual", afirma a artista, que chega à sua quarta novela. "Tenho plena consciência de que ocupar esse espaço é resultado de muitas lutas que vieram antes de mim", reconhece Alana, que atuou em Verão 90 (2019), Nos tempos do imperador (2021) e Guerreiros do Sol (2024). Ela entende o peso simbólico do lugar que ocupa. "Ampliar o imaginário coletivo sobre quem pode ocupar o centro da narrativa é fundamental. Espero que outras meninas se vejam, se reconheçam e se sintam autorizadas a sonhar", aposta.

Essa centralidade, no entanto, só faz sentido porque Joélly é complexa. Longe de estereótipos, ela falha, acerta, se contradiz. "A complexidade é fundamental para uma representatividade verdadeira", diz a atriz. "Personagens estereotipadas reforçam visões simplistas sobre grupos que já são historicamente marginalizados. A Joélly foge disso porque ela é contraditória, forte, sensível e determinada. Ela não existe para cumprir uma função social única dentro da narrativa."

A história da personagem dialoga diretamente com a vida de muitas adolescentes brasileiras, sobretudo aquelas que enfrentam responsabilidades cedo demais e quase sempre sozinhas. "A gravidez na adolescência, o bullying, a falta de escuta e as desigualdades sociais estão presentes no cotidiano de muitas jovens", reflete Alana. "Mas a novela também fala sobre rede de apoio, educação e possibilidade de escolha. A Joélly representa meninas que seguem em frente mesmo quando o caminho é difícil."

 Alana Cabral (Joelly) Sophie Charlotte (Gerluce) e Dira Paes (Lígia) são as "Três Graças"
Alana Cabral (Joelly) Sophie Charlotte (Gerluce) e Dira Paes (Lígia) são as "Três Graças" (foto: Victor Pollak)

Divisor de águas

Esse protagonismo marca um divisor de águas na trajetória da atriz. "Mudou completamente minha relação com o meu trabalho", admite. "Passei a enxergar minha carreira com ainda mais consciência e responsabilidade. Entendi que minhas escolhas artísticas também são escolhas políticas e simbólicas." O impacto não foi apenas profissional, mas pessoal: "Foi um processo de amadurecimento muito grande, de entender minhas forças e o impacto que meu trabalho pode ter na vida das pessoas", pondera a jovem que, em 2022, também se destacou no quadro Super Chefinho, do Mais você — do qual saiu campeã.

Antes de Três Graças, Alana vinha fazendo escolhas alinhadas a esse olhar atento para o mundo, também no cinema. Em Salve Rosa, filme elogiado por discutir a exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais, ela mergulhou em reflexões sobre julgamento e violência simbólica. Em Quatro meninas, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, viveu uma experiência marcada pelo afeto e pela construção de identidade entre meninas negras. "Esses trabalhos foram fundamentais para minha formação artística e humana", diz. "Eles me deram ferramentas para lidar com temas sociais sem perder a emoção."

Dentro da novela, algumas cenas ficam como cicatrizes emocionais. "As mais desafiadoras foram aquelas em que a Joélly precisa escolher entre o silêncio e o enfrentamento", conta. "São momentos de amadurecimento abrupto, de decisões difíceis." Ela destaca ainda as sequências mais densas ao lado das colegas Sophie Charlotte (Gerluce, a mãe) e Dira Paes (Lígia, a avó), que a atravessaram de maneira especial.

Com a repercussão da personagem, vieram debates intensos nas redes sociais — e Alana os observa com gratidão. "Ver o público debatendo e se reconhecendo na história da Joélly mostra que a novela está cumprindo um papel importante. A televisão tem essa força de provocar reflexão coletiva", celebra.

E o que está por vir...

Olhando para o futuro, a atriz acredita que o audiovisual brasileiro está em transformação, ainda que lenta. "Estamos avançando, mas há um caminho longo pela frente", avalia Alana. "Espero que experiências como Três Graças abram espaço para mais narrativas diversas, complexas e profundas — e que essa representatividade não se limite a quem está diante das câmeras."

Quanto a si mesma, Alana segue guiada pelo desejo de escolha e coerência. "Quero continuar interpretando personagens que me desafiem artisticamente e tenham relevância social", afirma. O sonho é expandir horizontes, explorar cinema, séries, outros países — sem jamais romper o vínculo com as histórias que a formaram. Porque, como Joélly, Alana Cabral segue em frente: consciente do peso que carrega, mas fiel à delicadeza que insiste em permanecer.

  • Alana Cabral, atriz
    Alana Cabral, atriz Guilherme Lima
  • Alana Cabral, atriz
    Alana Cabral, atriz Guilherme Lima

 


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PP
postado em 25/01/2026 07:00
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